Está cada vez mais difícil se dialogar sobre qualquer assunto. Eu iria dizer que está difícil se dialogar sobre assuntos polêmicos, mas percebi que praticamente qualquer assunto mais sério já carrega consigo vários pressupostos que podem ser “feridos” por uma opinião contrária ou, apenas, diferente.

A maioria dos debates são tão frutíferos quanto discussões de torcida de futebol – uma bobagem, em minha opinião (pronto, já devo estar causando raiva em alguns). É que esse tipo de discussão é assim, cada um escolheu arbitrariamente o time para o qual torce e está pronto a exaltar suas glórias e defender suas derrotas, nada vai mudar isso. Ninguém muda de time por que o seu caiu para segunda divisão ou porque o outro tem mais títulos que qualquer outro, isso é visto até como traição. Então cada um primeiramente quer se mostrar fiel e, então, defender seu time com unhas e dentes. Mas apesar de ser meramente uma questão de escolha pessoal, as discussões são frequentes e até levam à agressões.

O problema é que essa atitude tem aparecido em praticamente qualquer assunto. Seja num grupo de discussão ou mesmo entre um casal, nota-se claramente que o objetivo não é se chegar a um consenso, mas em se defender o ponto de vista até à morte (expressão muito usada por torcedores). Já se entra na discussão disposto a não aceitar a opinião do outro, independentemente do argumento apresentado. Pode-se até vir a aceitar todos os argumentos, mas não a opinião (já vi essa contradição acontecer).

A grande motivação é a defesa da verdade, lutar pelo que é certo. Valores nobres, realmente, mas se cada um se vê como defensor da verdade (ninguém usa o termo “dono” porque pega mal), onde está essa tal verdade? Será que, muitas vezes, não é a mesma verdade com dois pontos de vista diferentes?

Bom, sei que os defensores da verdade (seja qual for) não gostam desse tipo de argumento, chamam pejorativemente de “relativismo” e rapidamente defendem que “a verdade é uma só”; e completariam (se não pegasse tão mal): e é a minha.

Por essa dificuldade muitos tem abandonado qualquer discussão, preferindo que cada um fique com sua opinião. Antigamente se dizia “cada macaco no seu galho”, atualmente se diz: “cada um no seu quadrado”. Mas aí a busca pela verdade, que poderia nos indicar um caminho, acaba servindo de separação. E será que não há verdade a ser buscada? Será que não há, pelo menos, significados mais profundos a serem conhecidos? Será que essa vagas e particulares opiniões espalhadas em cada pessoa são suficientes?

Talvez ajudasse pensar que tudo o que temos sobre a verdade sejam apenas percepções, experiências, pontos de vista e argumentos línguísticos. Todos os que crêem que há uma verdade, crêem que ela é maior que eles mesmos, por isso também, maior que seus argumentos sobre ela. O que também demonstra que não é porque os argumentos não sejam suficientes que a verdade não exista.

Mas, se ao menos tivermos essa consciência, poderemos aprender e ensinar uns aos outros. Nossa discussões serão mais relacionais e menos jurídicas e, com isso, o valioso conhecimento que já adquirimos será mais para somar que para barrar.

Ao mesmo tempo, nos veremos no caminho com um objetivo, e não estabelecidos no  ponto de chegada, como se todos devessem chegar a nós para vencer. Com isso não nos importaremos de abrir mão de algumas coisas se for necessário, pois o prêmio final é mais importante que certas teimosias.

Com essa visão em mente, poderemos ao menos ouvir realmente o que o outro está dizendo, considerar que pode haver verdade ali e, então, responder, certos de que também haja verdade no que iremos dizer. Nossa atitude, então, será  de pessoas que estão compartilhando suas percepções sobre a verdade, buscando coerência e sentido nelas. Haverá também crítica e reprovação, mas virão mais tardiamente, depois de uma argumentação maior e mais imparcial. E, quando isso acontecer, terá mais facilidade para ser uma síntese ou conciliação, em vez de derrota ou vitória no debate.

Nossa atitude, então, será como ensinada pelo apóstolo Tiago:

“Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar. Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus”.

http://www.youtube.com/watch?v=Y9bryFWTyAg

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