A morte de Jesus

Lc 23.44-49

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A morte por crucificação foi uma das penas capitais mais cruéis já criadas pelos homens. A morte era extremamente lenta, durando horas enquanto a pessoa era asfixiada pelo peso do próprio corpo, sangrando vagarosamente, chegando à exaustão total. Durante esse processo, ainda era oferecido como um espetáculo mórbido para pessoas que sentiam alguma satisfação, e até prazer, em contemplar isso. O indivíduo era pendurado nu, mostrando toda sua vergonha e exposto a qualquer humilhação por parte de quem estivesse por ali. Para o próprio Velho Testamento isso era sinal da maldição de Deus sobre quem fosse pendurado na cruz (cf. Dt 21.22,23; Gl 3.13). Era uma pena que deveria acabar com qualquer dignidade que o condenado tivesse, desmoralizando qualquer seguidor do condenado, e servindo como exemplo para outros criminosos em potencial.

Apesar de tudo isso, a cruz se tornou um símbolo glorioso para os discípulos de Jesus, tanto os que estavam ali como aqueles que viriam a crer. Apesar de toda a dor e crueldade daquela morte, a ênfase dessa pregação estava no significado profundo e glorioso daquele momento. Não se enfatizava seu sofrimento e humilhação meramente para fazer com que as pessoas sentissem pena por um bom homem ter sido condenado injustamente. Não, ele não era apenas um mártir daquele pequeno grupo que acreditava nele, era muito mais que isso. Por isso, ainda que haja detalhes diferentes no relato de cada evangelista, o que prevalece é a essência e significado daquela morte para a fé e a pregação do Evangelho.

 

Trevas sobre a terra

 

Quando Jesus foi preso ele já declarou que era “a hora e o poder das trevas”. Escuridão é algo que toma o lugar todo, fazendo com que não se veja claramente e escondendo as piores atitudes. Provoca medo pelo desconhecido e insegurança quanto ao caminho a seguir e quanto às atitudes a tomar. Por tudo isso as trevas tornam tudo mais dramático e tenebroso, levando todos a perceberem, no mínimo, que a situação não está clara para eles. A situação já vinha sendo confusa, muitas mulheres lamentavam, enquanto líderes escarneciam e outros não sabiam o que pensar. O momento de trevas ao meio dia evidenciava a escuridão em que a multidão se encontrava diante daquilo tudo.

 

O véu rasgado

 

Dentro do templo, no santuário, um pesado véu separava o lugar santíssimo, local da presença imediata de Deus. Ali, somente o sumo sacerdote poderia entrar uma vez por ano, depois de diversos rituais de purificação. Cria-se que a santidade da presença imediata de Deus não estava acessível a pecadores, afinal, os pecados do povo faziam separação entre ele e Deus (cf. Is 59.2). Entretanto, na ocasião da morte de Cristo, esse véu é rasgado, assim como o próprio corpo dele foi rasgado na morte, e a presença santa de Deus é agora acessível aos próprios pecadores. Os capítulos 9 e 10 de Hebreus explicam profundamente o significado desse acontecimento na morte de Jesus, falando sobre o novo e vivo caminho que ele abriu por meio do véu (cf. Hb 10.20).

 

A entrega ao Pai

 

Todo o ministério de Jesus foi feito em relação direta com Deus, o Pai e o Espírito Santo, isso fica atestado durante todo o evangelho. O momento de sofrimento e angústia de Jesus era intenso, e isso fica claro desde a oração de Jesus quando pediu que, se fosse possível, não passasse por tudo isso; entretanto, ali mesmo demonstrou sua submissão, mantendo firme sua relação com o Pai (Lc 22.42. O momento da cruz foi a maior angústia para Jesus por sentir-se até abandonado naquele momento. Os outros evangelistas falam de seu clamor ao citar o Salmo 22: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Mesmo diante disso, manteve-se fiel, e no momento da morte, entregou seu espírito ao Pai, demonstrando relação profunda mesmo no momento mais crítico. Ali Jesus se identificava totalmente com a humanidade pecadora e com a santidade de Deus. Essa relação entre o Santo e os pecadores seria impossível e resultaria em morte, então Jesus recebe essa morte por eles. Deus continua sendo seu Pai, e eles se tornam seus irmãos (cf. Hb 2.14-18).

 

O reconhecimento do centurião

 

Ao pé da cruz estava o responsável militar sobre aquela execução. Um centurião romano que não tinha ligação nenhuma com toda aquela teologia envolvendo véu, santidade e pecado. Talvez fosse até um dos que zombaram de Jesus no início, e certamente permitia toda aquela agressividade e humilhações, afinal de contas, para ele era só mais uma execução de criminosos. Entretanto, mesmo em meio àquela confusão toda, e mesmo sem qualquer entendimento teológico sobre aquilo tudo, ele reconheceu que Jesus era justo, no sentido de alguém em direta relação com Deus, “filho de Deus”, como registram Mateus e Marcos sobre seu reconhecimento. Ainda que não entendesse muita coisa, aquela morte dizia respeito a ele também, e de alguma maneira ele reconheceu isso. Tudo era muito intenso, real e mesmo cruel. Não dava pra ficar indiferente ao que acontecia. Ali morria um homem justo, Deus era com ele, portanto alguma coisa muito estranha devia estar acontecendo.

 

As reações dos espectadores

 

Os que foram para ver um espetáculo de horrores, disfarçado de aplicação da justiça, presenciaram algo muito mais profundo. As que lamentavam continuaram a lamentar e outros devem ter entendido o porquê disso, lamentando também, ou ao menos respeitando mais. Ninguém saiu comemorando, não se conta nem sobre a reação dos líderes judeus. Os próprios seguidores de Jesus assistiam a tudo de longe, não conseguiam entender nada naquele momento, não sabiam como ficaria a esperança que colocaram nele. Tudo era silêncio, luto, vazio e, ainda assim, ficava aquela sensação de que algo grande acontecera. Haveria tempo para as explicações, mas ali era momento apenas de lamento, pesar e outros sentimentos profundos da alma humana.

Como diz em Eclesiastes 7.2: “É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; e os vivos devem levar isso a sério!”. Especialmente essa morte tão significativa, superior e especial.

Pare por um momento, e leve tudo isso em consideração; não era apenas uma morte, era muito mais. O que você sente a respeito?

 

* esse texto é um capítulo do livro “O Evangelho em carne e osso”, de minha autoria, que você encontra como e-book no link: https://www.amazon.com.br/Evangelho-Carne-Osso-exposi%C3%A7%C3%A3o-evangelho-ebook/dp/B06XKKYXYD/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1492286124&sr=8-1&keywords=o+evangelho+em+carne+e+osso