2 moedinhasMuitos usam essa passagem para induzir as pessoas a ofertarem até o que não têm, baseados nela muitas igrejas exploram seu fiéis mais pobres. Há até uma musiquinha evangélica infantil que ensina isso. Será que está certo?

É certo que tudo que ofertamos ao Senhor deve ser o melhor que pudermos – como bem encontramos em outros textos – também é provável que a motivação daquela mulher ao dar tal oferta estivesse ligada à sua fé. Entretanto não é sobre isso que Jesus está falando na passagem referida, não se trata de um elogio ao sacrifício da viúva, mas uma denúncia contra a injustiça que o templo estava promovendo. Explico:

Uma das utilizações dos dízimos no Velho Testamento era no auxílio às viúvas (bem como a estrangeiros, levitas e órfãos; cf. Dt 14.28 e 29). As viúvas eram mulheres que não tinham sustento próprio e, por isso, geralmente eram pobres e dependiam do auxílio de sua religião. Esse benefício era freqüentemente negligenciado, negligência que era denunciada pelos profetas (p. ex. Is 1.17; Tg 1.27); e não faltam na Bíblia afirmações de que Deus se importa com elas (p. ex. Sl 146.7-9).

No contexto da afirmação de Jesus está sua ira contra os vendilhões no mesmo templo e a denúncia quanto à prática exploradora e hipócrita dos escribas nas casas das próprias viúvas. Será que, dentro desse contexto, Jesus mudaria de opinião e simplesmente elogiaria a oferta da viúva, sem “observar” o problema em torno da oferta? Creio que não.

O que Jesus está denunciando ali era o seguinte: primeiro que havia viúvas pobres – as quais deviam ser beneficiadas pelas ofertas – “dando” ofertas. Ainda que aquela estivesse dando por vontade própria, como é que o templo aceitava e lhe deixava continuar sem nada? E segundo que, ainda que o que davam fosse irrisório para os outros (apenas duas moedas, o mínimo que se podia ofertar), para ela era tudo, ou seja, nesse sistema injusto, os mais pobres estavam dando muito mais do que os que mais podiam.

É o mesmo problema que vemos hoje nos impostos sobre os produtos. Por exemplo, numa compra em supermercado no valor R$300,00, cerca de R$120,00 é imposto embutido; para alguém que receba R$2000,00 por mês já é caro, imagine para alguém que receba apenas um salário mínimo (ou menos); ou seja, o que ganha menos estará pagando muito mais imposto em termos de porcentagem. Isso é justo?

Em outras palavras, Jesus estava mostrando aos seus discípulos que a injustiça no templo chegara a tal ponto, que aquelas que deveriam ser beneficiadas por ele, estavam ofertando mais que os ricos. Na continuação do texto Jesus ainda profetiza a destruição do templo e chama esse momento de “dia de vingança” (Lc 21.22).

Isso, com certeza, não é um elogio e nem um incentivo a que esse tipo de exploração continue.

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