O dia 11 de setembro ficou marcado pelos atentados nos EUA há 10 anos. Foi realmente uma tragédia assustadora, especialmente ao mundo ocidental. Lembro-me de estar no curso de pintura a óleo enquanto as imagens passavam numa televisão que lá havia e não conseguia acreditar. Ainda devemos lembrar e orar pelas famílias que perderam seus entes queridos de modo tão covarde e injusto.

Mas sendo hoje o dia em que se lembra desse atentado, aproveito para fazer outras reflexões:

Primeiramente lembro-me daquele alerta bíblico: “quem pensa estar em pé, veja que não caia”. Os EUA eram vistos como o local mais seguro do mundo por sua força militar e bélica, isso certamente poderia gerar muita arrogância, mas de nada adiantou na ocasião. Fica como uma ilustração sobre a frágil arrogância que, de alguma forma, sempre nos ataca.

Em segundo lugar, fico aterrorizado pela cultura de ódio que ainda é muito forte em nosso mundo, especialmente no terrorismo islâmico, onde o fanatismo religioso é potencializador do desejo de vingança. Se há desejo de vingança é porque houve uma causa anterior, talvez motivada por vingança também e assim por diante. O ódio forma um círculo vicioso com a vingança, “um abismo chama outro abismo”. E aí também está um grande problema a ser evitado por todos nós, por melhores que sejam nossas intenções e desculpas.

E em terceiro lugar, falando-se em círculo vicioso, fico preocupado com muitas manifestações de cristãos com relação aos muçulmanos. Recentemente recebi um e-mail com um texto muito interessante onde o autor espanhol que afirma que a Europa morreu em Auschwitz (lugar onde os judeus foram torturados e mortos), “matamos 6 milhões de judeus e substituímo-los por 20 milhões de muçulmanos”, lamenta. Depois afirma que teriam feito isso por uma pretensa tolerância e “porque queríamos provar para nós mesmos que estávamos curados da doença do racismo”. E então passa a provar que, pelo menos ele, não está; pois começa a supervalorizar os judeus enquanto faz o oposto com os muçulmanos usando fatos reais e até uma boa argumentação. Você lê o texto e sente vontade trocar os 20 milhões de muçulmanos atuais pelos 6 milhões de judeus mortos, ou seja, aumentar a matança. Esse tipo de argumento é muito perigoso, trata-se do mesmo tipo que foi usado pelos nazistas para autorizar e incentivar o que fizeram com os judeus (que realmente merecem as homenagens do texto).

Não nego que o terrorismo islâmico (assim como qualquer terrorismo) tem se tornado um perigo para nossa sociedade, cultura e religião. Reconheço a insegurança com relação ao terrorismo, a violência contra nossos missionários e o valor do povo judeu. Mas percebo que esse tipo de reação acaba usando as mesmas armas dos muçulmanos extremados e mantém os mesmos valores do círculo vicioso que falei acima: ódio e vingança. Há um grupo no meio dos cristãos que parece querer difundir uma nova cultura de ódio com a desculpa da vingança e da honra do povo cristão e também do judeu.

Entretanto, Jesus não nos ensinou a defender o cristianismo como uma instituição, mandando fogo do céu sobre os infiéis, caso seja necessário. Quem pensa assim são os terroristas muçulmanos, não os cristãos. Quando João e Tiago quiseram fazer isso, Jesus os repreendeu e disse: “vocês não sabem de que espécie de espírito vocês são, pois o filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los” (Lc 9.54,55).  Jesus também não deixou que seus discípulos usassem as espadas quando foi preso, ainda que ele mesmo tivesse mandado que eles as tivessem, pelo contrário, curou a orelha do guarda ferido. Ele também nos ensinou o amor aos inimigos, o altruísmo aos que nos odeiam, a bênção aos que nos maldizem e a oração aos que nos maltratam. O que foi reforçado por Paulo ao nos ensinar a pagar o mal com o bem.

Essas palavras soam como ingenuidade e fraqueza num mundo violento como o nosso, especialmente para os muçulmanos extremados e outros que vivam na cultura do ódio; mas foi praticando-as que Jesus venceu, e é nelas que somos formados se somos discípulos. Talvez elas não resolvam o problema do mal do mundo, talvez nos deixe em maiores problemas, mas elas são o verdadeiro cristianismo e é esse que temos que defender com nossa prática, não com nossa vingança, até porque, como sabemos, somente a Deus pertence a vingança.

Muitos cristãos pensam que devemos defender o cristianismo, como instituição, frente às outras religiões. (O bom é que nessa hora defendem até outros ramos do cristianismo aos quais, em outras ocasiões, são totalmente contrários). Entretanto, o verdadeiro cristianismo não é uma instituição, ou uma nomenclatura, mas uma prática de vida com base na obra e nos valores de Cristo. O verdadeiro cristianismo não precisa ser defendido e menos ainda vingado, ele só precisa ser vivido em qualquer circunstância. Se alguém abre mão dos próprios valores cristãos para defender o “cristianismo”, qual cristianismo está defendendo?

Todo cristão sabe, ao menos teoricamente, que deve amar os inimigos, entretanto acaba encontrando uma saída desse mandamento da seguinte maneira: se for comprovado que a pessoa trabalha diretamente para Satanás – e, assim, não se trata de um inimigo comum (?!) – ficam desincumbidos da obrigação de amá-lo e podem tratá-lo como inimigo de fato. E isso não se aplica apenas aos muçulmanos, mas à atitude de “caça às bruxas” em geral, ainda tão comum em nosso meio, embora muito mais polida e refinada. Parece-me que esse é o intuito de muitos irmãos que ficam procurando identificar se algo é do diabo ou não, o que acho lamentável.

Contudo, creio que devamos defender-nos social e politicamente, valorizar a liberdade, democracia e a liberdade religiosa. Amar o inimigo não significa concordar com tudo o que ele faz e nem mesmo abrir mão de nossas crenças e práticas para isso. Pelo contrário, é na força de nossa fé que manteremos firmes nossos ideais e atitudes baseados em Jesus, até mesmo na hora de se fazer justiça, da qual, inclusive, seremos fartos (Mt 5.6).

Incitar uma cultura de ódio e vingança não é o caminho que Cristo nos ensinou. Mesmo em meio a uma cultura de ódio e à lembrança de um atentado tão violento e covarde, que vivamos o amor e a paz de Cristo, crendo que somente o justo Juiz fará a verdadeira justiça.

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