Faço minhas as palavras deste outro Flávio:

Hoje acordei amante, cheio de trejeitos, olhares estudados, frases feitas, sereno nas desfeitas, conselhos equilibrados, princípios perfeitos. Hoje acordei amante.

Hoje acordei paizão, cheio de paciência, tolerante, brincalhão, jogando botão, batendo figurinha, voltando à minha infância. Hoje acordei paizão.

Hoje acordei solitário, cheio de faltas, pleno de ausências, cara amarrada, fala cortada, muitas carências. Hoje acordei solitário.

Hoje acordei criança, cheio de cores. Muita esperança. Meio manhoso. Querendo um colo, querendo consolo. Hoje acordei criança.

Hoje acordei executivo, cheio de idéias, todo agitado, já meio estressado, todo janota, esbanjando arrogância. Hoje acordei executivo.

Hoje acordei marido, cheio de penitência, total dedicação, feira e supermercado, compras da estação, carinhos trocados, jantar a dois. Hoje acordei marido.

Hoje acordei confuso, cheio de medo, todo cercado pelos meus personagens, que no meu senso difuso, não sei se por miragem, mas por certo, do meu eu são imagens. Hoje acordei confuso.

Hoje acordei eu mesmo. Um pouco estudado, também brincalhão, muita carência, bastante esperança, todo agitado, só paciência, cheio de medo. Hoje acordei eu mesmo.

(Flávio Del Nero Gomes, extraído do livro Ser pai: um apelo à responsabilidade, de Rasma V. E. Jakob)

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