Tenho visto vários carros usando um cromo com esses dizeres e fico pensando sobre seu propósito. Dá pra afirmar que se trata uma resposta antecipada de católicos aos evangélicos que insistem em “evangelizá-los”. Muitos destes entendem evangelizar católicos como fazê-los deixar práticas como, por exemplo, sua grande veneração à Maria.

De qualquer modo, é interessante notar como o cristianismo católico, ao querer se afirmar, acaba enfatizando sua veneração à Maria e não sua ligação com Cristo e sua obra.

Historicamente os cristãos sempre deram grande valor à pessoa de Maria, a mãe do Redentor, o que é justíssimo fazer a essa mulher “bem aventurada em todas as nações”, como lhe afirmou o anjo. Entretanto – por argumentos muitos mais sentimentais que bíblicos – esse grande valor conferido a ela acabou se tornando em algo muito maior que o declarado a princípio. Maria começou a ser vista com títulos, até então, reservados apenas ao Salvador. Embora seja vista como “co”- redentora, acaba sendo muito mais invocada que o próprio Redentor. Tornando-se, assim, o centro da maior parte da fé católico-romana.

É claro que não vêem nenhum problema nessa ênfase, pois olham seu papel como mãe e agraciada por Deus e sentem que isso seria uma participação natural na obra de seu filho, o qual também sentiria assim. Enfim, um argumento muito mais emocional que bíblico ou teológico (o qual também não é minha preocupação neste texto).

O catolicismo romano se considera cristianismo acima de tudo, sendo assim, será que deveria ter essa ênfase na hora da auto-afirmação?

Sou cristão, amo Cristo

Como protestante, acabei pensando logo em uma resposta que também os chamaria, como cristãos, a colocarem o foco certo em sua auto-afirmação, então pensei na frase: sou cristão, amo Cristo. Frase que tenho certeza que os católicos romanos concordam.

A Reforma protestante, como o próprio nome indica, foi uma tentativa de se reformar o cristianismo da época trazendo de volta ao centro a obra de Cristo e sua Palavra, mas acabou se tornando um movimento cismático. A ênfase do protestantismo tornou-se a suficiência de Cristo na salvação dos que crêem, a qual é recebida apenas pela fé nele, e apenas nele.

O protestantismo passou a usar argumentos bíblicos e teológicos de modo mais racional e, por isso mesmo, acabou tornando-se radical com relação ao que julga ser verdade absoluta. Com isso acabou também se julgando muito e se dividindo muito dentro dele mesmo. Procura sempre enquadrar a todos na verdade que professa e nem nota que ele mesmo professa muitas verdades distintas. Por isso mesmo vive em confronto com a igreja católica romana, não aceitando seu argumento emocional e usando um forte argumento racional (como disse acima, não é meu foco neste artigo).

Mas é nesse ponto mesmo que vemos o grande problema do cristianismo: brigas e divisões. O cromo ao que estou me referindo já uma “réplica”, o que eu pensei em sugerir já seria uma “tréplica” que, provavelmente, geraria outra resposta (nem sei qual o nome depois de “tréplica”).

Assim, cristãos estariam se afirmando de um lado e de outro, exaltando seus ícones e defendendo suas verdades – em vez de praticá-las.

Sou cristão, amo o próximo

O mais interessante é que nem Jesus e nem sua mãe pediram para ser defendidos ou afirmados.

Maria ordenou que fizessem tudo o que Jesus dissesse (Jo 2.5), e Jesus mandou amar como ele amou (Jo 15.12). Jesus afirmou que “não veio parar ser servido, mas para servir” (Mt 20.28), ou seja, não estava preocupado com o que fariam por ele ou para ele, mas com o que ele mesmo faria por nós. Mesmo assim, vendo que muitos queriam servi-lo, ensinou que estariam servindo-o quando servissem a “um de seus pequeninos” (Mt 25.31-46), E Maria, depois de ver a morte e ressurreição de seu filho, permaneceu humildemente em oração com os outros discípulos (At 1.14), naquela reunião que viria a se tornar a primeira igreja cristã.

Sendo assim, o que é que deve caracterizar o católico ou o protestante?

O que o cristão confessa quando precisa se auto-afirmar?

Confesso que fiquei um tempo pensando num cromo de carro que respondesse aos dos católicos, como deve ter pensado também que fez tal cromo. Mas num desses dias senti como se Deus me dissesse: e por acaso eu te chamei para fazer cromos? Ou pra impor sua verdade e fé? Meu mandamento é o amor.

Foi então que me lembrei que ser cristão é amar e ser amado por Deus sobre todas as coisas, e que esse amor é expresso ao próximo do modo como Cristo o expressou a nós, pois esse é o cristianismo que o próprio Cristo nos ensinou, e isso quando o termo “cristão” nem sequer existia. João, seu discípulo, pegou até mais pesado ao dizer: como você diz que ama a Deus, a quem você não vê, se você não ama o próximo, a quem você vê?(1 Jo 4.20).

Não estou pensando aqui que amar seja concordar com tudo o que dizem; não considero inútil o pensamento teológico e mesmo os debates, pelo contrário, gosto das doutrinas em que creio. Mas se nosso cristianismo tivesse seu foco primário no amor ao próximo, nossos pensamentos e debates seriam bem diferentes.

Por fim, não é com cromos ou discussões que seremos cristãos, mas com amor ao próximo, com uma fé que nos leve aos pequeninos de Jesus. Por isso, o melhor cromo para caracterizar um cristão seria: sou cristão, amo o próximo.

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