A imagem acima mostra bem como o ódio se forma em nossos corações, gostaria de refletir sobre seus elementos:

A ignorância

Tudo começa com a grande quantidade de ignorância que carregamos em nossas mentes. Calma, não estou ofendendo ninguém, mas todos devem saber que há muito mais coisas que não sabemos do que as que sabemos. Inclusive quem tem mais conhecimento tem ainda mais certeza disso.

Muito dessa ignorância vem das próprias coisas que gostaríamos de conhecer, pois muitas não são facilmente acessíveis e outras nem nos serão. É essa ignorância que leva tantos a estudarem, explorarem a desenvolverem as ciências e o conhecimento de maneira geral – para diminuição da ignorância. Mas sempre se descobre que há mais a ser buscado.

Há também aquela que opta por ignorar o conhecimento que se poderia ter, ou pior, aquela que acha que já tem todo o conhecimento que precisaria. A pessoa com essa ignorância se fecha para tudo o mais, trazendo para dentro dela apenas aquilo que arbitrariamente aprova e excluindo sumariamente as outras coisas.

No meio evangélico é até comum o uso do versículo: “Fujam da aparência de mal” (1 Ts 5.22). “Ignorando” seu contexto, dão a seguinte idéia: “eu não tenho conhecimento sobre o assunto, mas me parece mal; e se tem aparência de mal, devo fugir”. Assim, toma-se decisão baseado na ignorância (disfarçada de base bíblica).

Entretanto, o fato de não se conhecer sobre o assunto, na maioria das vezes, não leva a pessoa a buscar conhecê-lo; ou, pelo menos, a ter uma atitude neutra até obter mais dados. Não; ou prefere-se julgar, condenar e rotular o assunto, ou apenas continuar ignorando-o até ter que tomar uma atitude com relação a ele. Neste caso, geralmente volta-se à primeira opção e o círculo vicioso é instaurado, dando mais poder à fórmula.

O medo

A ignorância sozinha poderia ser inofensiva, bem usada poderia ser um motivador para se conhecer mais, como já dissemos. Mas então surge o medo, aquela sensação de perigo iminente diante do desconhecido.

O medo em si também é uma reação necessária para não nos metermos em encrencas, ajuda-nos a nos preservar, se usado com sabedoria. Entretanto, aplicado à ignorância, acaba fomentando todos aqueles sentimentos que poderiam simplesmente ficar em repouso. Isso porque, em virtude do medo, o que ignoramos já não são apenas assuntos que ignoramos, mas ameaças para nós.

Viver nesse mundo não é fácil, há vários motivos para sentirmos medo e também vários tipos de medo, desde sofrer violência física a ser humilhado em público. Já sofremos dores de vários tipos e hoje queremos evitá-las, temos medo delas. Não sabemos de onde elas virão da próxima vez, mas o medo continua latente, e até aumentado diante desta incerteza.

Esse medo nem sempre é racional, nem sempre tem motivos claros. Muitas vezes é o medo de sermos expostos, de estarmos numa situação da qual não temos controle. Temos medo de sermos magoados pelo outro, de sermos feitos de bobo. Temos medo até de Deus – talvez o medo mais profundo – e nem sempre sabemos o que podemos realmente esperar dele (a confissão positiva está aí para comprovar essa insegurança). Um ditado antigo até dizia: “se está ruim com Deus, imagine sem ele”. Essas coisas servem de exemplo para vermos o quanto o medo é difícil de definir e se encontra no mais profundo de nossa alma.

Então começamos a nos “defender”, ainda que não saibamos exatamente de quê, visto que não definimos exatamente nosso medo. Então desconfiamos, fugimos, excluímos, etc. Mas ainda não parece suficiente, pois o perigo está ao redor, em algum lugar, pronto a nos atacar a qualquer momento. Então achamos melhor atacar antes que ele nos ataque, seja lá o que for.

Todo esse movimento cria, então, uma fagulha, depois uma chama até um fogo alto, o qual vai atuar diretamente na ignorância, a qual também é “inflamável”, pois aumenta o fogo do medo. Aí já dá pra se calcular o estrago que se irá fazer. O julgamento, condenação e rotulação da ignorância ganham proporções bem maiores.

O ódio em si

De modo bem simples, podemos entender ódio como aquilo nos afasta dos outros ou afasta os outros de nós. O amor une, o ódio separa.

No relato bíblico, assim que a humanidade se torna “conhecedora do bem e do mal” (estranho que esse conhecimento tenha produzido mais ignorância), homem e mulher – até então uma só carne – sentem vergonha um do outro e se cobrem; ao sentirem a aproximação de Deus, se escondem; ao serem questionados, jogam a culpa no outro; e, em pouco tempo vêem um filho matando o outro por disputa religiosa. É uma grandiosa explicação sobre nossa condição, especialmente se reconhecermos que também somos Adão, Eva, Caim e Abel.

Há vários tipos de ódio, variados pelas intensidades dos medos e da quantidade de ignorância. O ódio mais assustador e condenado é aquele explícito, violento e injustificável. Contra esse a opinião pública se levanta e ele é condenado pelo ódio que gerou nas pessoas, ódio este considerado “justo”. Mas será que existe ódio justo?

Já ódios menos intensos são mais facilmente disfarçados e, por isso mesmo, aceitos. É fácil disfarçar nosso ódio com a capa da busca por justiça; ou com a fantasia de se ensinar uma lição; ou com a máscara do zelo religioso, como se Deus precisasse ser defendido ou ajudado.

Exemplos históricos como a Inquisição, o Nazismo, o Comunismo e o Islamismo extremista mostram o quanto o ódio pode ser justificado, aceito, propagado e, ainda assim, mortal.

A verdade é que estamos cada vez mais afastados de Deus e do próximo, entretanto cada vez com mais explicação e justificação (do nosso ponto de vista, claro). Com isso aumenta-se o racismo, o preconceito, os grupos fechados, as agressões, as novas divisões das igrejas, etc. Só que ultimamente com um disfarce a mais, o do “politicamente correto”.

Até mesmo aqueles que carregam o discurso da tolerância e da liberdade de expressão acabam se contradizendo diante dos que pensam diferente deles em algum ponto.  Acabam não tolerando estes, impedindo sua expressão e, assim, voltam ao componente inicial da fórmula.

Difícil ver uma saída desta situação enquanto o medo estiver aquecendo e a ignorância estiver aumentando.

Desmantelando a fórmula

            Jesus chega a esse mundo de ódio, denuncia seus disfarces e ainda tem a coragem de ordenar o amor. Não qualquer amor, mas um amor sacrificial como o que ele mesmo mostrou e, mais surpreendentemente ainda, aos inimigos. Chegou até a dizer que amar apenas a quem nos ama não é nada demais. Seria exagero da parte dele? Ou uma utopia? Ou talvez algo com sentido figurado?

Na verdade é uma mensagem que não faz sentido nenhum diante do modo como vivemos nossas vidas, nossos relacionamentos, nossas estruturas sociais, etc. É algo tão chocante ao nosso medo e ignorância que faz com que esses elementos se agitem mais ainda, afinal, como posso amar alguém a quem temo? Alguém de que não sei o que esperar? Alguém que reconheço, a princípio, como uma ameaça?

Provavelmente por isso essa mensagem radical de Jesus não tenha alcançado tanta intensidade no próprio cristianismo institucional; o qual, com razão, é duramente criticado por isso. Entretanto o cristianismo autêntico, aquele que realmente segue a Cristo, entendeu que não é esse o Caminho de Jesus (esse cristianismo não é tão reconhecido pelos críticos).

Mas o que realmente ensinou Jesus sobre o amor e o ódio? Como ele resolveria o problema dessa fórmula tão arraigada na pessoa e em seu contexto? Seria apenas uma ordem impraticável? Ele não atacou apenas o ódio em si, mas foi também nas suas bases: ensinou-nos a superar a ignorância e o medo.

Acabando com a ignorância

Quando, por exemplo, ele está sendo humilhado na cruz, consegue pedir ao Pai para que perdoe essas pessoas pelo seguinte motivo: “eles não sabem o que fazem”, ou seja, são ignorantes. Quando alguns discípulos têm seu ódio efervescido, a ponto de quererem mandar fogo do céu sobre alguns opositores, Jesus lhes exorta: “vocês não sabem de que espécie de espírito vocês são, pois o filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los” (Lc 9.54,55). Ou seja, eles ignoravam a missão e o modo de trabalho de Jesus, usando sua própria fé como instrumento de consumação de seu ódio. Jesus ensinou-lhes que essa ignorância não tinha lugar entre eles. Mais tarde chamou-os de seus discípulos de amigos, pois compartilhava de sua verdade com eles, não deixava-os numa servidão ignorante (Jo 15.15).

Ainda somos chamados a sermos criteriosos, a conhecer tudo e reter o que é bom (inclusive esse é o contexto do “fugir da aparência do mal” que citei acima), de modo que em nossas mentes esteja “tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor” (Fp 4.8); não necessariamente com rótulo religioso.

Acabando com o medo

Jesus também por tantas vezes lhes disse: não temam! Afirmou que seriam odiados e perseguidos pelo mundo, mas que, ao invés de temerem, deveriam ter bom ânimo, pois ele havia vencido o mundo, ou seja, superado tudo isso. Seu apóstolo, João, chegou a firmar que “no amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor” (1Jo 4.18). Quantas de nossas reações são expressões de nossos medos? De medos que nem sempre reconhecemos, mas que projetamos em alguém ou alguma situação?

Jesus ainda disse para que não temesse os que podiam matar o corpo, mas sim aquele que poderia matar tanto o corpo quanto a alma; e então o evangelho todo mostra que este, que poderia matar o corpo e a alma, é quem morreu por nós. Vamos ter medo do quê, ou de quem, então?

O amor superando o ódio

Uma das histórias mais desconcertantes de ódio na Bíblia é a do profeta Jonas. Ele foi mandado pra Nínive pra anunciar sua condenação e destruição, entretanto todos na cidade acabam se arrependendo e Deus acaba lhes perdoando. O surpreendente é que o profeta não aceita isso e fica furioso com Deus. Dá pra acreditar? Dá, infelizmente creio que muitos cristãos agiriam da mesma forma ainda hoje. Entretanto Deus se mostra profundamente amoroso e, inclusive, reconhecendo a ignorância daquele povo. Ele diz, encerrando o livro: “Nínive tem mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos rebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?”

No evangelho vemos esse mesmo amor de Deus estendido a todo o mundo. Nele o medo e a ignorância se acabam, pois sabemos que ele nos ama e que o próximo, por pior que o consideremos, é apenas outro pecador como nós. Se o ódio nos separava de Deus e do próximo, agora o amor nos une.

A fórmula do amor

Agora podemos simplesmente jogar fora a fórmula do ódio e passarmos a usar a do amor. No lugar de ignorância passamos a agir com sabedoria, ouvindo mais antes de falar, conhecendo antes de julgar, ou seja, “tirando a trave de nossos olhos antes de querer tirar o cisco do olho de alguém”.

Podemos conhecer de tudo, embora nem tudo convenha, mas é preciso conhecer para se saber se convém ou não. Conhecer também o contexto do outro, sua história, suas dificuldades, suas limitações, pode ajudar muito para nos relacionarmos e até deixar de vê-lo como uma ameaça, ainda que não concordemos com muita coisa nele. Pois não é questão de concordar com tudo no outro, mas de conhecer ao certo, reconhecer o que há de bom e não ver o ruim como ameaça simplesmente.

No lugar do medo passamos a colocar o amor. Sim, esta foi a sugestão de João ao dizer que no amor não existe o medo. Ai invés de nos proteger de uma ameaça, nos abrimos e vamos em direção ao outro. Talvez alguns sintam medo de alguma influência maligna da parte desse outro – ainda por causa da ignorância – mas como foi dito acima, medo de quê realmente?

Na fórmula do ódio, o medo aquece a ignorância e destila o ódio. Na do amor, o amor aquece a sabedoria e destila… puxa, pensei em tanta coisa aqui que nem sei qual exatamente escrevo como produto da fórmula do amor, mas creio que palavras como: compaixão, convivência, paz, compartilhar, verdadeira justiça, etc. – caibam muito bem.

E você, o que acha?

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