A vigilânciacobra atacando passasrinho

Precisamos vigiar por que os dias são maus, como afirmou Paulo em Efésios 5.15-18. A idéia é ficar atento para o modo como se vive; não se deixando entorpecer por nada, pelo contrário, sóbrios e conscientes procurando compreender qual é a vontade do Senhor mesmo em meio a essa loucura do mundo em que vivemos.
Essa tarefa é mais difícil do que se imagina, pois os “cuidados desse mundo” são muitos e nos obrigam viver para eles. “Cuidados desse mundo” não se referem apenas a coisas ruins, mas tudo o que precisamos – ou queremos – cuidar, de modo que nada mais importe. Foi esse o termo que Jesus usou ao interpretar a parábola do semeador, explicando por que a planta que cresceu entre os espinhos murchou (Mt 6.22), na versão NVI a tradução é: “a preocupação desta vida e o engano das riquezas”.
Já vivemos num sistema tão consumista que quase não conseguimos sair, já temos uma propaganda tão infiltrada em nossas mentes que achamos mesmo que o que queremos é o que precisamos, sendo que até os ideais de liberdade, prazer e realização nos são vendidos pelo mundo. Ao mesmo tempo, esses valores parecem nossos porque realmente nos agradam, porque se identificam com nosso egoísmo, por mais disfarçado que esteja.
Outro grande fator que nos leva a abandonar a vigilância é a tristeza, o cansaço, o desânimo. Coisas tão comuns em nosso tempo que até já popularizamos um nome: depressão. Uma doença que derruba a cada vez mais pessoas (que eu mesmo tenho tratado já há algum tempo). A Bíblia mostra o abandono da vigilância por este motivo quando mostra que nem os discípulos mais íntimos de Jesus conseguiram acompanhá-lo em oração (Lc 22.46). Vê-se ali uma situação tão angustiante em que eles, dominados pela tristeza, chegam a dormir. Quem já passou por depressão sabe o que é isso.
Esse fator está diretamente ligado ao anterior, por que muitas de nossas tristezas vêm de frustrações. Frustrações justamente por não se conseguir alcançar tantos “sonhos” impostos a nós pela nossa cultura. A julgar pela quantidade de sonhos, projetos e imposições em geral, não é difícil percebermos o quanto as frustrações e tristezas são numerosas. Quem ganha com isso é o egoísmo e o interesse de quem nos vendeu tais sonhos.
Essa mentalidade sonho/frustração é tão forte e comum que atualmente tem se confundido com o próprio evangelho. Numa breve olhada nas redes sociais da internet, como o facebook, notamos que as mensagens dos evangélicos se resumem à certeza da realização de sonhos e consolos às frustrações, consolos esses que apenas reafirmam que tais sonhos ainda serão realizados (por exemplo: Deus não demora, capricha).
É interessante como, nessa breve análise, podemos notar uma tentação que vem em dois extremos, numa ponta a busca por auto-realização, na outra a frustração pelo fracasso. Em outras palavras, por um lado deixamos de vigiar por estarmos muito ocupados em nos realizar; por outro deixamos de vigiar justamente por estarmos tristes com nossos fracassos.
O que se perde nesta falta de vigilância é compreensão da vontade de Deus para a vida como um todo; a dimensão social, onde somos irmãos uns dos outros; a busca por uma efetiva vida cristã em santificação, sabedoria e amor ao próximo; a verdadeira alegria da salvação (cf. Sl 51.12); e tantas outras coisas que fazem parte do que o Evangelho realmente tem para nós e para mundo.
E para isso basta deixar de vigiar, pois é algo tão envolvente e “natural” atualmente que já está em nós sem nos darmos conta.

A oração

A oração é o instrumento para ficarmos em contato com Deus e, assim, vigilantes tanto na realidade quanto na sua vontade. Ela também nos faz conhecer a nós mesmo (Sl 139) ao mesmo tempo em que nos faz transcender para além de nosso egoísmo.
Mas a oração usada com as intenções do que falamos acima, com a motivação rasa do esquema sonho/frustração, acaba mais atrapalhando do que ajudando. Isso por que faz com que ela se torne a fonte para se conseguir o que o tal do sonho enlatado exige, ao mesmo tempo em que acaba parecendo inútil quando se frustra. Aí, o problema, que já é sério, aumenta, pois agora a culpa é de Deus.
Ainda que não se jogue a culpa em Deus diretamente, começa-se a desconfiar dele; não expressamos, mas vamos deixando nossa fé fraca, afinal, será que Deus nos ouve mesmo? Também se pode sentir que nós somos os culpados, que não temos jeito e que, por isso, Deus não gosta de nós.
No caso de continuar esperando em Deus, outro tipo de comportamento tem surgido para a oração, um sentimento de dependência que beira ao comportamento da criança mimada, incapaz de qualquer ação ou reação em resposta a Deus e extremamente exigente. Para exemplificar, Caio Fábio comentou certa vez que Jesus curou o paralítico e lhe disse: levanta, toma teu leito e anda; segundo ele alguns cristãos atuais ainda exigiriam que Jesus os carregasse e levasse o leito até sua casa.
A solução está em se compreender a oração em termos de intenção e confiança.
com JesusPrimeiro devemos saber que a oração, como a fé, não é um fim nela mesma, mas tem um objetivo: Deus. Não é o tamanho da fé ou a força da oração, mas o Deus que ouve a oração. Não é o que se pede ou o quanto se espera, mas o relacionamento com Ele. Não é pensamento positivo, mas confiança no plano de Deus, o qual não é apenas para a pessoa, mas para o mundo todo e sua história.
Parece-me que um dos grandes equívocos sobre a oração vem de uma má interpretação da famosa parábola sobre o juiz iníquo e da viúva persistente (Lc 18.1-8). Nela se vê a persistência da viúva em importunar o juiz até conseguir o que precisa, visto que ele não quer ajudá-la, pois, como enfatiza a parábola, ele não respeita nem a Deus e nem homem algum. Realmente a viúva mostra uma grande persistência, e a atitude dela é um exemplo para nós.
O problema está em comparar o juiz iníquo da parábola com Deus. O juiz não respeitava ninguém, mas Deus é quem ama e prometeu justiça aos seus escolhidos, ou seja, ele não é alguém que não quer fazer justiça e que, por isso precisa ser importunado, mas alguém que se preocupa realmente conosco.

Por causa desse equívoco percebo muitos cristãos que tratam a oração como se fosse um sacríficio, uma obrigação. Vejo campanhas de oração que mais se parecem com uma greve desesperada.
Agora pense sobre qual o caráter do Deus a quem você ora. Para que você o busca? Para estar com ele ou para ver se ele lhe arranja algo “mais importante” que essa comunhão? É uma força sobrenatural que precisa ser liberada ou o “Deus conosco” revelado no Emanuel?
Se pensarmos no caráter de Deus – e no seu plano revelado a nós – veremos a oração como um meio para estarmos em comunhão com ele, como uma motivação para participarmos desse plano, como uma forma de colocarmos nossa vida em favor dele, e não ele em favor de nossa vida.
A oração pode mudar muita coisa realmente, mas em nossa vida, em nosso comportamento, em nossa fé e esperança. Não nos tornará alienados, perdidos em nosso sonhos e frustrações, mas nos deixará sensíveis a ação de Deus e, assim, ficaremos vigilantes.
Creio que é isso que este belo hino antigo aplica em nosso cotidiano:

1  Bem de manhã, embora o céu sereno
Pareça um dia calmo anunciar,
Vigia e ora: o coração pequeno
Um temporal pode abrigar.

Bem de manhã, e sem cessar,
Vigiar e orar!

2  Ao meio-dia, quando os sons da terra
Abafam mais de Deus a voz de amor,
Recorre à oração, evita a guerra,
E goza paz com o Senhor.

3  Do dia ao fim, após os teus lidares,
Relembra as bênçãos do celeste amor,
E conta a Deus prazeres e pesares,
Depondo em suas mãos a dor.

4  E sem cessar, vigia a todo instante,
Pois o inimigo ataca sem parar;
Só com Jesus, em comunhão constante,
Podemos sempre descansar.

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