A pessoa que pensa em Deus já carrega consigo vários conceitos pré-estabelecidos durante sua vida, conceitos tanto sobre Deus mesmo como sobre valores que serão relacionados a ele.

Cada pessoa tem uma história, uma vivência, uma identidade, uma estrutura emocional, etc. Vive dentro de uma sociedade que já possui uma história, religião, conceitos, preconceitos e tantas outras coisas que interferem diretamente em sua vida. Tudo isso influencia, também diretamente, as concepções que a pessoa adotará quanto aos seus valores e crenças, ainda que seja para negar tudo isso.

Deus conhece tudo isso melhor que ninguém e – mesmo com todas as dificuldades que esses preconceitos possam representar – procura revelar-se assim mesmo às pessoas em seus próprios contextos.

A obra reveladora de Deus em Cristo se mostrou especial em sua encarnação. Jesus limitou-se a tornar-se um humano dentro de um contexto histórico, social, político, religioso, etc. Foi através dessa atitude que iluminou a vida de tantas pessoas, inclusive em épocas e lugares tão diferentes, apesar de não alterar diretamente os contextos em que os humanos vivem.

Ao mesmo tempo, todas as pessoas já fazem parte da Criação de Deus, a qual ele mantém, sustenta e onde se revela. Essa Criação é a essência do ser-humano, todos são imagem e semelhança dele e, por isso, Deus nunca é um total estranho para suas criaturas, por mais que haja rebeldia da parte destas para com Ele.

Por isso, quando pretendemos falar sobre Deus com as pessoas, não devemos achar que sejam folhas em branco a serem escritas, assim como nós também não somos, mas que já carregam em si muitas informações. Informações que às vezes são até desconhecidas delas mesmas, mas que podem tanto atrapalhar quanto ajudar nessa reflexão.

O relacionamento de Jesus com a mulher samaritana, em João 4.1-42, é um grande exemplo do modo como Deus quer se revelar às pessoas e como elas percebem isso.

Contextos

De início notamos um contexto histórico antigo em que tanto a mulher quanto Jesus estavam inseridos, um contexto que na ocasião fazia com que pertencessem a países diferentes que se odiavam, apesar de terem a mesma origem.

Há muito tempo o Reino de Israel havia sido divido em dois, norte e sul, a capital do norte se tornou Samaria e a capital do Sul foi Jerusalém. As diferenças políticas se misturaram às religiosas e os problemas nesse sentido foram aumentando, de modo que na época de Jesus já havia um ódio bem “fermentado” por ambas as partes. Quem nascesse nesse contexto já levaria consigo o ódio ao outro mesmo sem saber por quê.

Apesar disso, circunstâncias da época levaram Jesus a passar por lá, mesmo sabendo que poderia receber hostilidade da parte deles também. Na verdade, creio que Jesus já tinha isso em mente e viria a ensinar algo essencial quanto a esses sentimentos humanos.

Ali Jesus se encontra com a mulher e, também pelo contexto moral em que ele estava, podemos nos surpreender com suas atitudes. Os mestres judeus não ensinavam mulheres, deveriam aprender em casa com o marido. Imaginem uma mulher samaritana que já havia tido cinco maridos e na ocasião estava com um homem que não era seu marido! Não é à toa que os discípulos se admiram quando voltam de suas compras.

Uma mulher de personalidade forte

jesus e a samaritanaEssa mulher demonstra uma personalidade forte e até irônica, muito parecido com o modo como muitas pessoas conversam atualmente.

Talvez tenha se acostumado a um estilo de vida onde não fosse muito bem vista, tanto que estava indo buscar água num horário que geralmente as mulheres não iam. Talvez tivesse adotado uma postura defensiva com relação às pessoas que poderiam falar mal de sua vida amorosa e, por isso, estava sempre com uma resposta na ponta da língua. Temos também a impressão de que ela não baixava a cabeça para judeus, conhecia bem suas diferenças e tinha orgulho de sua nacionalidade e religião.

Sua conversa com Jesus, a princípio, foi cheia de ironias de sua parte. Quando Jesus lhe fala sobre uma outra água, ela responde dizendo que ele nem sequer tem corda, não tem lugar para guardar a água e não pode ser maior que Jacó, o patriarca que teria cavado aquele poço. Quando ele diz que com a água que ele oferece ela nunca mais teria sede, sua resposta é até sarcástica: então me dê dessa água para que eu não mais tenha sede e nem precise mais vir buscar.

Fica claro que ela não estava nem entendendo e nem se importando com o que Jesus estava lhe falando, não fazia sentido para ela e até dá a impressão de que ela já estivesse de saída e sem dar a água a Jesus.

Então ele fala sobre seu marido, isso faz com que ela responda que não tem um; ao que Jesus mostra conhecer sua situação bagunçada. Com isso ela se surpreende com aquele homem (que até então ela não sabia quem era). Entretanto prefere fugir do assunto jogando uma questão retórica que acabaria com a conversa com um judeu ali mesmo: Qual o lugar certo de adoração?

Qual o lugar certo de adoração?

Essa pergunta é muito freqüente ainda hoje, inclusive mais intensa, pois já temos muitas religiões e divisões em cada uma delas. Ela acaba servindo para acirrar diferenças entre crentes e também para manter na ignorância quem não quer saber sobre o assunto.

A mulher percebeu que Jesus era um profeta, um mestre ou algo assim e tratou logo de ir direto ao assunto que tanto os dividia. Não que ela quisesse realmente saber, mas com a pergunta traria à tona a velha discussão e suas conseqüências: não chegariam a lugar algum, pois cada um defenderia seu lado, se distanciariam e, assim, seria menos um para falar de sua vida amorosa. Vemos que a coisa não mudou muito até hoje.

Jesus não havia perdido seu foco em nenhuma das provocações anteriores da mulher e agora, quando se torna mais direta, ele também consegue chegar onde realmente queria. Seu objetivo era mostrar a essência tanto de Deus quanto de quem o busca. Essa essência não está no local, ou no contexto histórico ou mesmo na religião, mas no espírito, isto é, na maior profundidade da pessoa, em sua essência.

Essa resposta foi tão profunda que fez com que a mulher finalmente refletisse e, nessa reflexão, encontrasse uma esperança que já carregava consigo. Não que ela já tivesse concordado com as palavras de Jesus, mas notou que aquilo era profundo e que cria que viria aquele que finalmente os tiraria da dúvida: o Messias. Sua antiga esperança se reacendeu pelas palavras que ouviu, embora ainda não tivesse lhe dado todas as respostas.

Assim, depois de terminar toda hostilidade disfarçada em ironia e sarcasmo, Jesus se apresenta a ela como sendo o Messias que ela esperava. Interessante que ele nem precisou lhe dar provas disso, pois suas palavras se identificaram com as profundas esperanças que a mulher carregava. Esse é o momento onde tudo faz sentido. Nessa hora a mulher até deixou a água que havia ido buscar e foi anunciar a outros amigos que compartilhavam de sua esperança.

Quem havia semeado aquela esperança?

Então chegaram os discípulos com a comida que haviam comprado. Surpreenderam-se ao ver Jesus conversando com uma mulher, mas não falaram nada sobre isso. Imagino que tenham se surpreendido novamente quando ele não quis comer, pois àquela hora todos deviam estar famintos.

Jesus se mostrava pensativo e afirma que sua verdadeira comida era mais importante ainda que aquela: era realizar a obra para a qual havia sido enviado. Essa obra de anúncio e salvação às pessoas em seus contextos, com suas complicações e esperanças.

A atitude de aceitação por parte da mulher foi admirável, de modo que Jesus passou a falar aos discípulos sobre o trabalho que tinham a fazer, que em comparação com a agricultura, era agora de ceifa. Ele lhes afirmou: “eu vos enviei para ceifar o que não semeaste; outros trabalharam e vós entrastes nos seu trabalho”.

Quem havia semeado a esperança no coração daquela mulher e de seus pares? flor na terra secaComo essa esperança havia sido preservada mesmo em meio a tantos contextos complicados, inclusive de ódio e rejeição? Por que, no momento em que ouviu a palavra essencial, a mulher aceitou tão pronta e disposta a anunciar aos outros?

Ali Jesus mostrava que seu trabalho e o dos discípulos não seria apenas informação, mas de colher aquilo que já havia sido semeado. Iriam passar por todos os preconceitos e hostilidades e encontrar a esperança nos corações das pessoas, ali sua mensagem encontraria aceitação.

Por isso Jesus declarava de forma até surpreendente para o senso comum das religiões em geral: Se alguém ouve as minhas palavras, e não lhes obedece, eu não o julgo. Pois não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo (Jo 12.47). A preocupação maior de Jesus é salvar, não julgar. Não ignorando as complexidades e erros das pessoas, mas primeiramente passando por cima de tudo isso e salvando sua essência, para, a partir de lá, salvar tudo o mais. Uma salvação de dentro pra fora, a limpeza interior do copo para depois a exterior.

Um relacionamento pessoal

Muitos dos amigos daquela mulher creram em Jesus pelo testemunho que ela deu. Ainda que ela tivesse tentado fugir da conversa sobre sua vida pessoal, era esse o ponto que ela usava para pregar aos outros. Mas pode-se dizer que essa fé só se consumou quando se encontraram com o próprio Jesus. Deixaram isso bem claro ao dizerem: Já agora não é pelo que disseste que cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que verdadeiramente o Salvador do mundo.

Aquelas pessoas também carregavam seus contextos e suas complicações, mas uma esperança também havia sido semeada anteriormente em seu ser mais profundo. Poderiam até ter se surpreendido e crido no que a mulher lhes falara, mas foi quando se encontraram com Jesus em suas esperanças mais profundas que reconheceram quem ele era.

É assim que encontramos e nos relacionamos com Jesus, é assim que pregamos Jesus e falamos de seu relacionamento com os outros.

Anúncios