Interessante perceber como o conceito sobre deus (ou deuses) – em praticamente qualquer religião – sempre acaba voltando à idéia de uma força sobrenatural que precisa ser controlada. Para isso a religião ensina como aplacar sua ira, para que não se receba nenhum mal, e o que fazer para conseguir seu favor.

Deus é visto sempre como distante, próximo apenas a alguns “iluminados” que podem guiar outros; deixa o mundo à própria sorte, mas, às vezes, resolve intervir em algo mais gritante e logo volta para seu lugar. Nesse caso a função da religião é tentar fazer com que ele intervenha mais e, de preferência, em função dos tais “iluminados”.

Pense um pouco se sua religiosidade não contém muito desses elementos citados…

É comum o próprio cristianismo cair nesse esquema, entretanto o que Jesus e as Escrituras nos ensinam sobre Deus é totalmente diferente (embora muitos textos isolados da Bíblia pareçam dar essa idéia).

Jesus nos ensinou a nos relacionarmos com Deus como filhos. Ensinou que nós permanecemos nele e ele em nós porque Deus nos amou primeiro e provou isso na cruz. Isso é totalmente diferente do sentimento religioso comum.

A parábola do filho pródigo (em Lucas 15.11-31) é uma ilustração maravilhosa de como Deus se relaciona com seus filhos. Só Jesus poderia contar algo tão profundo e até surpreendente ao pensamento religioso comum. Muitas lições podem ser aprendidas nessa parábola, mas quero me concentrar nas características do pai, que representa o próprio Deus:

 

Providência

Na parábola, tudo o que pertence ao pai pertence também a seus filhos, como ele deixa claro ao mais velho. Mesmo diante do pedido absurdo do mais novo, o qual pede sua parte da herança com o pai ainda vivo, este mantém sua postura e lhes divide os bens.

A Bíblia nos diz que Deus é soberano e que tudo pertence a ele. Ele mesmo criou o homem com todas as suas capacidades e o colocou sobre toda a Criação. Por causa dessa soberania, muitos preferem ver Deus como um imperador déspota, mas Jesus o vê como um Pai provedor que ama seus filhos.

Mesmo com o pecado, onde o homem o considerou como morto – para pegar a herança, digamos – Deus continua a abençoá-lo, mantendo suas capacidades e condições para a vida (Mt 5.45), ainda que isso seja usado contra ele mesmo.

Justiça

O filho mais novo logo desperdiçou toda a riqueza que recebera. Não tinha sabedoria para utilizá-los e nem meios para se produzir mais, pois havia rompido com o provedor. Chegando nele a fome, não teve outra opção a não ser se humilhar pela ração dos porcos.

Mesmo nessa situação, que era conseqüência de sua escolha e falta de sabedoria, o filho se lembrava de como seu pai tratava com fartura mesmo os seus empregados. Ele sim era justo. Pensou então em voltar, mas não se atreveu a querer voltar como filho, apenas num relacionamento formal de patrão e empregado.

A humanidade está longe de Deus e colhendo as conseqüências de seus atos até em nível estrutural. Na maioria das vezes até se joga a culpa em Deus por ser mais fácil, mas muitos têm notado que é um problema nosso e anseiam por justiça. Mesmo quem não crê acaba tendo esse conceito de justiça e ansiando por ela. E, assim, mesmo sem saber, estão buscando o que está em Deus.

Quando os crentes agem com justiça, confirmam o caráter do Deus justo em que crêem. Isso é um sinal para quem tem fome e sede de justiça (Mt 5.6).

Amor surpreendente

Depois que o filho reconheceu a humilhação em que se meteu, voltou arrependido para casa, disposto a ser o menor dos trabalhadores de seu pai; e com um discurso decorado na mente, algo que pudesse convencer seu pai de recebê-lo de volta mesmo assim. Muitos ainda tratam seu relacionamento com Deus dessa maneira.

Mas ninguém estava preparado para a atitude que o pai tomou. Ele já estava olhando ao longe, esperando que seu filho voltasse, sabia o que lhe aconteceria e sabia que só voltando poderia sobreviver. Então tem a felicidade de vê-lo ao longe, voltando arrasado. Abandona as regras de etiqueta da época e corre ao encontro do filho abraçando-o e beijando-o. O filho ainda tentou falar seu discursinho decorado, mas o pai estava animado demais para ouvi-lo, só queria que ele voltasse a ser o que era: um filho digno, por isso ordenou que imediatamente trouxessem as roupas, sandálias e anel e preparassem uma grande festa para ele.

Será que conseguimos ver Deus com essa empolgação toda para com o pecador que se arrepende? Será que quando voltamos para Deus sentimos esse abraço ou apenas nos limitamos aos nossos discursos decorados?

Muitos crentes ainda pensam que Deus precisa ser conquistado e acabam não crendo que Deus já os amou primeiro (1 Jo 4.19) e que em Cristo já lhes deu todas as bênçãos (Ef 1.3). Não precisamos “acioná-lo”, só precisamos voltar.

Amor conciliador

Jesus contou esta parábola justamente para aqueles que não conseguiam entender o amor de Deus em encontrar o perdido. O segundo versículo do capítulo mostra a crítica dos fariseus a Jesus por receber e comer com pecadores, o que o levou a contar as parábolas. A primeira fala sobre a alegria em se encontrar uma ovelha perdida, a segunda sobre uma moeda perdida e, agora fala sobre uma pessoa, filho e irmão. As 3 parábolas falam da festa, mas essa vai além e fala de um filho mais velho que se recusa a participar da alegria do pai.

Surpreende novamente a atitude do pai em deixar a festa para também buscar seu filho mais velho, para trazê-lo também à alegria por seu irmão. O irmão mais velho havia sido fiel e trabalhador em todo aquele tempo, mas desenvolveu apenas o rancor, rancor do irmão e rancor do pai, que, segundo ele, nunca reconheceu seu trabalho.

O pai lhe reafirma que tudo que ele tem também é dele. Mas qual valor ele dava a isso? Qual valor nós damos? E então lhe chama ao maior valor que há na vida: ela própria.

O irmão mais velho ainda quis invocar a justiça e apontar para os erros “deste teu filho”, mas o pai muda o tom da conversa e fala sobre “este teu irmão” que estava morto e reviveu. Não era questão de justiça, mas de vida ou morte.

Agora, na parábola, nem se fala sobre algo perdido e ser achado, mas em alguém estar morto e reviver

Uma pergunta final

Diante disso, será correto pensar em Deus da forma como falamos no início, como uma força que precisamos controlar para tentar usar em nosso favor?

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