Certa vez soube de uma pessoa que havia abandonado a igreja dizendo que não voltaria até que alguém lhe respondesse a seguinte questão: Se Deus sabia que o homem iria pecar, porque colocou aquela maldita árvore no jardim?

Misericórdia X Graça

De certo modo, todas as religiões entendem que há algo errado e que precisa ser restaurado. Muitas sugerem uma auto-limpeza pelo desenvolvimento de cada indivíduo; já as religiões monoteístas enfatizam a ação misericordiosa de Deus; mas somente o cristianismo, entre elas, fala a respeito da Graça de Deus.

Provavelmente você tenha estranhado essa diferenciação entre “misericórdia” e “graça”, por serem termos muitos próximos e geralmente entendidos como sinônimos. Entretanto a diferença é crucial para entendermos a ação de Deus de forma mais ampla.

Na misericórdia, Deus, soberanamente assentado em seu trono, decide não destruir o pecador. Entretanto não há garantia alguma de se ele usará ou não essa misericórdia, o que leva a pessoa a buscar essa misericórdia a qualquer custo.

Na graça, Deus desce de seu trono e sai em busca do pecador, dando prova disso na cruz (Rm 5.8). É um ato de misericórdia sim, entretanto ativo da parte de Deus e com toda a garantia. A graça ensina que Deus se identificou com a humanidade, se comprometeu conosco.

Questionamento

Apesar de toda essa prova de amor, muitos podem se questionar:

Mas por que havia a possibilidade do pecado?

Por que aquela árvore foi colocada no meio do jardim do Édem?

Se Deus é perfeito e criou tudo bom, como o mal pôde surgir?

Onde estaria a Graça nisso tudo? Ela só surgiu para reparar o estrago?

Uma das principais respostas a essas difíceis perguntas é a de que o homem, pela liberdade com que Deus o criou, poderia escolher o mal. É uma boa resposta, mas ainda temos a impressão de que Deus teria sido pego de surpresa pela atitude do homem, ou que, se ele sabia o que iria acontecer, não deveria ter colocado essa possibilidade. E, até mesmo, como poderia haver o mal para ser escolhido?

O que é o pecado?

Para entender a necessidade e a obra da graça, vamos primeiramente rever o que é o pecado. O que teria sido tão grave que levou uma das pessoas da trindade à morte?

Imagine que um belo rio corrente seja desligado de sua nascente. O que acontecerá a ele? Tornar-se-á água parada, suja e, então se secará. Ainda poderá, antes disso, desenvolver a proliferação de animais nocivos, como o mosquito da dengue.

Essa é a situação da humanidade afastada de Deus. Assim como a escuridão é a ausência de luz e o frio é a ausência de calor, assim o pecado (o mal) é a ausência de Deus. O pecado original foi nossa declaração de que não precisávamos de Deus, só de nós mesmos.

Homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus, tendo inteligência, capacidade de escolha, criatividade, domínio sobre as obras de Deus, etc. Um ser com o qual Deus queria se relacionar e amar. Não poderia ser infinito, pois apenas Deus é assim e, até por definição do termo, não é possível haver dois infinitos. Exatamente por ser limitado, sempre havia mais para onde ir. Então vemos que o cerne da “oferta” da serpente à Eva era que, se comessem do fruto proibido seriam como Deus: conhecedores do bem e do mal.

Ser como Deus faria com que não mais precisassem dele e, assim, viveriam por conta própria, por seus próprios julgamentos e capacidade, entretanto distantes da fonte da vida. Eles realmente se tornaram como Deus nesse sentido: conhecedores do bem e do mal (Gn 3.22), entretanto não infinitos; por isso não sabiam o que fazer com todo esse conhecimento, daí vêm os tantos males que encontramos dentro do que chamamos de pecado.

Logo na ocasião já havia a promessa de salvação pelo descendente da mulher. A Graça já provava que a situação decaída da humanidade não era final e nem mesmo determinante, por isso Deus tirou também a árvore da vida do meio deles, para que não comessem dela e vivessem eternamente naquela situação (Gn 3.22). Seu plano eterno era outro.

A salvação seria um plano “B” de Deus?

Mas será que Deus foi pego de surpresa por essa nova realidade e precisou arranjar um plano B? Por que eles não morreram imediatamente, como foi prometido caso desobedecessem?

Veja estes textos: 1 Pe 1.19,20; Ap 13.8; 2 Tm 1.9,10; Tt 1.2,3.

Todos eles apontam para a mesma verdade: que o sangue de Cristo já era conhecido desde antes da fundação do mundo, ou seja, muito antes que o homem pecasse. O evento histórico de Cristo viria efetuar aquilo que já era realidade na eternidade!

Deus sabia que existência do ser humano à sua imagem e semelhança, entretanto finito, o levaria a querer ir além da sua existência e finitude e, assim, seria extinto, morto. Mas esse era o preço a ser pago pela liberdade, relacionamento e amor. É então que Deus, na pessoa do Filho, decide pagar esse preço, recebendo nele a conseqüência da arrogância humana.

Assim, a existência do homem só foi mantida porque o sacrifício já havia sido feito. A humanidade não foi extinta ao pecar porque o perdão já havia sido declarado, o perdão já havia sido declarado por que a justiça havia sido feita.

O tempo agora seria o espaço entre a manutenção da existência pela Graça até a restauração definitiva pela Graça. A história dos homens seria contada agora por sua situação de “conhecedores do bem e do mal”, receberiam os males de suas próprias escolhas, entretanto o Deus gracioso continuaria preservando sua Criação – o que conhecemos como “providência” – e chamando pessoas a que se arrependessem e voltassem a ele – o que chamamos de “salvação”.

A graça salvadora viria salvar e educar a viver segundo a sabedoria de Deus, não segundo nosso conhecimento do bem e do mal (cf. Tt 2.11-14)

A resposta final é o amor

Por que Deus se daria a todo esse trabalho se ele sabia das conseqüências, inclusive para ele mesmo? Respondo com outra pergunta: por que tantos hoje querem ter filhos, mesmo sabendo das dificuldades desse mundo? E se nós, que somos maus, sabemos dar boas dádivas aos nossos filhos, quanto mais nosso Pai que está no céu (cf Mt 7.11)

A árvore estava no jardim por que a liberdade era inevitável, apesar de suas conseqüências terríveis. Deus tomou essas conseqüências para si mesmo e deu a graça da existência para todos. Fez isso simplesmente porque nos amou e queria que soubéssemos que o sentido da existência está no amor. Quem vive no amor, vive para sempre, quem continua rebelde ao amor original de Deus, seca:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida terna. João 3.16

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