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(baseado em palestra do Rev. Ariovaldo Ramos) 

Origens

Temos a tendência de nos ver como “estanques”, isto é, achamos que temos nosso início e fim em nós mesmos. Isso no leva a pensar sobre nós mesmos sempre de modo individualista onde o outro é visto como um obstáculo à minha realização.

Mas a criação do homem foi em conjunto e para serem um. O que foi criado à imagem e semelhança de Deus foi a unidade humana (Gn 1.26-28).

Essa unidade é pela sexualidade (Gn 2.18-25). Tudo o que Deus criou foi classificado como “bom”, a única coisa considerada “não boa” era que o homem vivesse só. Então Deus, da mesma essência do homem, cria a mulher e é aí que os dois são identificados. A sexualidade lhes deu identidade e formou uma espécie.  Eles são diferentes e independentes e, por isso mesmo, se completam.

Sexualidade não é o ato sexual, mas é o que nos atrai um aos outros: simpatia, empatia, etc. É o que nos leva a nos relacionar, o que nos faz ser pessoas integrais e independentes e, ainda assim, nos completar, de modo que precisamos uns dos outros.

Antes da queda não havia nenhum problema, um era extensão do outro, um dava identidade ao outro, não tinham do que se envergonhar. Mas assim que o pecado surgiu, a primeira reação deles foi a de esconder as genitálias, sua intimidade. Pode-se dizer que a queda foi também sexual, pois a unidade foi quebrada (Gn 3.7).

Assim quando um passou a ver o outro como alguém de quem tinha que se proteger, instalou-se a crise na sexualidade e, conseqüentemente na identidade: “não sei mais quem eu sou, não sei mais quem você é e não sei mais como devemos nos relacionar”.

Quando chegam à conclusão de que têm que se esconder do outro, pra quem irão se mostrar? Onde a identidade aparecerá? O que se buscará?

Conseqüências

A nova situação os levou a se esconderem um do outro e também de Deus. Agora escondidos, procurariam um substituto para o outro e um substituto para Deus em suas vidas. O estado descrito em Gênesis levou-nos à idolatria, conforme Paulo nos diz em Rm 1.18-32. Idolatria é ter conhecimento de Deus, mas dar sua Glória a qualquer coisa que não seja ele mesmo.

Nossa sexualidade está em disfunção desde a queda. Nós nos tornamos todos idólatras: o tempo todo tentando ser nossa própria referência de bem e de mal. Agora escondidos em nosso próprio egoísmo, simplesmente fomos entregues às nossas paixões, como demonstra o mesmo texto de Romanos.

Nessa disfunção, ignoramos a identidade do próximo e o vemos apenas como alguém que vem a nós geralmente como uma ameaça, como um obstáculo; ou como alguém que possa ser usado em nosso favor de alguma maneira. O outro também nos vê dessa maneira e, assim, todos nós perdemos a identidade.

Por isso, as disfunções sexuais não são vistas apenas em comportamentos reconhecidos como eróticos, mas também no desejo de se manipular pessoas, na busca por fama e reconhecimento, no fanatismo extremo a alguma ideologia, na necessidade de ser servido em tudo, etc. De modo geral, encontramos as disfunções sexuais nos relacionamentos que não consideram um ou outro como uma pessoa integral.

Pare por um momento e descreva-se a você mesmo. Como você se vê?

Agora descreva suas atitudes recentes. Será que o modo como você se descreve é compatível com as atitudes que você relata?

É provável que você esteja justificando algumas atitudes para fazer dar certo com sua descrição. É o que normalmente fazemos… Nessa hora as palavras de Jesus nos quebram: “a boca fala do que o coração está cheio”; “Onde está o teu tesouro, aí está também o seu coração”.

O Pr. Ariovaldo Ramos disse sobre isso: “os demônios se divertem vendo-nos tentando proteger as nossas disfunções”.

Salvação

Transformar o problema de nossa disfunção sexual – e suas conseqüências –  apenas em questão moral acaba nos levando apenas a julgamentos, cobranças e imposições. Isso acaba obrigando tantos a serem hipócritas, pois o máximo que podemos fazer com essas tendências é escondê-las para que ninguém julgue; ou justificá-las, ignorando o mal de que fazem parte.

Na verdade estamos lidando com um problema ontológico, ou seja, ligado à natureza humana, e não apenas moral, como se bastasse corrigir comportamentos. Todos os seres humanos podem apresentar qualquer um desses desvios, pois faz parte da natureza caída.

Assim entenderemos que a salvação para isso só pode estar na graça salvadora, na intercessão e na ministração da graça uns aos outros.

A recuperação da identidade humana passa pela recuperação da sexualidade e, conseqüentemente, traz o fim da idolatria. Quando Jesus vem nos salvar, vem resgatar a identidade humana, consertar nossa sexualidade e recuperar nossa identidade pessoal e comunitária.

O grande exemplo de como o conhecimento da própria identidade conduz ás atitudes está na passagem onde Jesus lava os pés de discípulos, inclusive de Judas, que seria o traidor. Jesus, na ocasião, cumpriu uma tarefa extremamente humilhante para um mestre, conforme as convenções da época e, com isso ensinaria uma preciosa lição. Mas para este estudo é interessante atentar para o que o motivou a fazer isso. O texto diz o seguinte: “Jesus sabia que o Pai havia colocado todas as coisas debaixo do seu poder, e que viera de Deus e estava voltando para Deus; assim, levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura (…)” (Jo 13.3-4). Jesus sabia quem era, por isso podia fazer qualquer coisa, mesmo se humilhar.

Nossa verdadeira identidade está em Deus, ele está construindo-a conosco e nos entregará no fim, conforme é dito sobre a promessa da pedrinha branca em Ap 2.17 . O processo até lá é o que chamamos de “santificação”, a qual começa com a Graça de Cristo em nossa vida e nosso sincero pedido de perdão. Pedir perdão, nesse caso, é dizer: o Senhor está certo, eu estou errado e não sei o que fazer com minha sexualidade, não sei minha identidade.

Prática

Deus já nos deu tudo o que tinha pra dar em Jesus. Nós ministramos essa graça uns aos outros. Devemos saber que o problema da sexualidade é universal e não se manifesta apenas em um sintoma. Temos que admitir que temos as paixões, conhecer a origem delas e crer que é justamente disso que estamos sendo salvos. Mesmo os regenerados convivem com essa disfunção, mas têm mais recursos para lidar com isso, estão em santificação pelo Espírito Santo.

Mas não se deve esperar a restauração plena agora, a solução final será na glória. A salvação é um caminho longo e saber disso nos torna muito mais misericordiosos e curativos.

É comum ficarmos irritados com a disfunção que se manifesta no comportamento sexual propriamente dito, mas não nos irritamos com a que se manifesta no comportamento relacional, como narcisismo, busca por poder, submissão extrema, etc. O problema é comum, mas se manifesta de maneiras diferentes em cada pessoa.

Enquanto não encontrarmos descanso no Cordeiro, não vamos para de buscar nossa identidade onde ela não está, e continuaremos a usar os outros para isso.

Assim, a melhor maneira de ajudar-nos uns aos outros e reconhecer que todos nós estamos doentes. Se alguns sintomas não aparecem mais, significa apenas isso, não que não temos a doença.

Para isso uma boa sugestão é a formação de círculos terapêuticos, o qual deve juntar os grupos comuns e voltar a ver Deus como fonte da verdade; ajudar a ter um espaço de confissão e ministração mútua, começando com o pedido sincero de perdão citado acima.

Quando tenho consciência disso começo a identificar o que está incomodando meu coração e começo a deixar de dizer que a culpa é da atitude dos outros. Assim, colocamo-nos diante de Deus sinceramente e buscamos nele nossa identidade, tanto pessoal como comunitária. A partir daí nossos sentimentos, pensamentos e atitudes começarão a ser transformadas.

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