Tags

, ,

Romanos 8.18-27

O sofrimento é experimentado por todas as pessoas indistintamente e de formas diferentes. Temos problemas “desde que o mundo é mundo”, mas dificilmente conseguimos entender e, menos ainda, aceitar.

Essa dificuldade geralmente é jogada para Deus e torna-se um dos principais obstáculos à fé para muitas pessoas, afinal, se Deus é todo poderoso e amoroso, porque permite o mal que leva ao sofrimento?

A resposta geralmente se dá em termos de castigo, correção e ensino da parte de Deus, e isso pode ser experimentado por muitos fiéis em diversas ocasiões. Entretanto, muitos dos males que vemos ao nosso redor e no mundo como um todo são totalmente absurdos e não parecem ter qualquer propósito. Vemos, por exemplo, sofrimento de crianças inocentes e torna-se muito difícil a explicação do castigo ou do ensino para elas, enquanto os responsáveis parecem não ter qualquer “correção”.

As catástrofes naturais, as doenças, os acidentes, a morte atingem todos os tipos de pessoas que estiverem na ocasião, boas ou más, crentes ou incrédulos. Assim também uns e outros perdem emprego, são violentados, perdem entes queridos, etc.

Quem não crê em Deus usa essas situações não apenas para descrer, mas para torná-lo alvo de sua rebeldia. E sua rebeldia contra Deus parece ser sua única reação possível ao problema do mal, visto que crendo ou descrendo o problema continua.

Quem crê tem a tendência de buscar Deus em meio a isso tudo para conseguir livramentos dos problemas que causam o sofrimento, mas como parece algo que acontece para poucos e só em determinadas situações, muitos começam a criar sistemas para que essas “bênçãos” aconteçam mais vezes, esse sistema acaba enfatizando os méritos de cada um e leva a atitudes insanas de barganha com Deus e competições.

Já os que crêem que os males sempre são castigos e correções diretas e específicas da parte de Deus correm o risco de desconfiarem de seu caráter, pois não sabem se podem esperar dele o bem ou o mal, o amor ou a ira; no fundo acabam pensando que, por causa de sua Soberania, Deus poderia negar-se a si mesmo. Assim também correm o risco de pensar que Deus não as ama de verdade, que não se importa realmente com elas, mantendo sua fé apenas para não receberem algo pior. Como dizia uma expressão antiga: “se está ruim com Deus, imagine sem ele…”.

Mas se aprofundarmos mais nas Escrituras, teremos outra visão sobre a realidade e nos lembraremos de uma atitude da vida cristã pouco comentada: a esperança.

A realidade sujeita à vaidade

Sofrimento é o intervalo inevitável entre a aniquilação merecida e a redenção graciosa. (Ariovaldo Ramos)

No texto base, Paulo começa dizendo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada a nós. O sofrimento, embora real, não é o centro da preocupação e nem a palavra final na história. Há uma verdade maior a ser considerada.

Deus criou todas as coisas para o bem e as considerou boas, entretanto a humanidade escolheu o conhecimento do bem e do mal no lugar do que era bom para Deus. Essa situação era impossível e redundaria em morte, o que podemos entender como extinção; entretanto, ao invés disso, é anunciada a esperança de salvação, da volta à origem (esse conceito está mais explorado no artigo “A graça eterna” aqui no blog: https://flaviogoliveira.wordpress.com/2012/03/12/a-graca-eterna/).

Toda a Criação, então, passa a existir nas conseqüências da nova situação, que no Gênesis são descritas em termos de sofrimento, dor, e fadiga. Há também a expulsão da humanidade do paraíso, o lugar de todas as bênçãos. Mas é interessante que mesmo essa expulsão já pode ser vista como sinal da Graça divina, pois o objetivo é que o homem não vivesse eternamente naquelas condições (Gn 3.22).

Assim, a condição da existência agora é a tensão entre a não extinção e a esperança prometida. A existência carrega em si as conseqüências da separação com o Criador, é como uma sobrevida que possa conter e dar forma à promessa para a própria Criação.

Por isso é dito que “a criação está sujeita à vaidade”, porque vive numa situação que é passageira e não final, esperando também que seja redimida junto com a redenção final dos filhos de Deus, redenção que tem por objetivo trazer de volta a criação a Deus.

Enquanto isso, nossa existência é marcada pelas limitações, pela dor, pelo pecado, por tudo aquilo que não deveria ser. Sofremos as conseqüências do pecado, de nossa maldade e da maldade que já é estrutural no mundo como um todo, de modo que, ainda que não sejamos agentes diretos de alguns males, participamos deles como um todo.

Note, por exemplo, como os males podem ser “desculpados” jogando-se a culpa na sociedade, nas autoridades, no sistema, nos pais, etc. No final das contas pode-se dizer que ninguém é culpado, o que seria o mesmo que dizer que todos são, pois é como uma grande rede, da qual fazemos parte até involuntariamente.

Mas Deus permanece no mundo mantendo-o com sua graça, apesar das conseqüências inevitáveis da criação sujeita à vaidade. Nessas condições é que ele vai se revelando, salvando, se relacionando e anunciando a esperança; apesar de toda rebeldia e oposição, a palavra final é dele.

Dores de Parto

Vivemos então num paradoxo entre o que é e o que deveria ser; entre a beleza e o absurdo; entre o bem que queremos fazer – e não conseguimos – e entre o mal que evitamos – mas que fazemos; entre a imagem de Deus e as trevas do pecado. Como ser plenamente feliz desse modo?

Por outro lado, como temos o conceito de felicidade, de bondade e de justiça plenas se nunca vivemos isso? Será que a existência do mal é a prova de que Deus, como fonte de todo bem, não exista? Ou o contrário?

Sobre isso ouvi certa vez a seguinte argumentação: o peixe se sente molhado? A resposta era que não, pois a água é o habitat natural do peixe, o ambiente em que vive. Nós nos sentimos molhados por que a água não é nosso habitat natural, vivemos num ambiente seco. Da mesma forma, por que o mal nos incomoda se aparentemente ele é a realidade em que vivemos? Se o mal fosse nosso ambiente, como a água é para o peixe, estaríamos habituados com ele. Mas não, apesar de nossa experiência constante com o mal, ele nos incomoda, vemo-lo como absurdo. O que demonstra que, no fundo, pertencemos a outro ambiente.

Por isso toda a criação geme e suporta angústias até agora. Gemido e angústia sim, mas não de desespero, pelo contrário, de expectativa. São dores comparadas às dores de parto, ou seja, dores que carregam em si a expectativa de algo novo e bom: a verdadeira realidade dos filhos de Deus.

Essas dores de parto também indicam que, por mais dolorosas que sejam, não são finais, pelo contrário, passageiras, que também é o sentido do termo vaidade. E assim entendemos que a própria dor é sinal de esperança e não de desespero.

Mais forte ainda é o sofrimento para aqueles que já têm em si as primícias do Espírito, que indica “os primeiros frutos” daquilo que Deus nos dará plenamente. Nesse caso temos maior certeza da realidade de Deus e, por isso mesmo, mais consciência a respeito da vaidade e do absurdo do sofrimento atual. Foi, por exemplo, por isso que Jesus chorou a morte de seu amigo Lázaro (Jo 11). Ele sabia da salvação, sabia de sua ressurreição e, por isso mesmo, chorou a situação terrível da morte em nossa realidade e pela qual ele mesmo passaria.

Esperança e Fé

Paulo, então, afirma que nossa Salvação está justamente na esperança. Termo este já quase esquecido em nossa religião e cultura de modo geral. A grande ênfase tem sido o aqui e agora, o utilitário, o prático. Por isso muitos usam a fé com a intenção de obter resultados sobrenaturais imediatos. A idéia é trazer todas as bênçãos para esta existência sujeita à vaidade e tentarem de certo modo, transformá-la em céu. Mas quem espera por aquilo que está vendo? Se já virmos o que esperamos, então não precisamos de esperança e, se não há esperança, não precisamos de fé.

O vento é o ar em movimento, aprendemos isso desde o ensino fundamental, da mesma forma, a esperança é a fé em movimento. A fé é aquilo que nos liga a Deus, que nos dá a certeza dessa realidade oculta (Hb 11.1). Conforme desenvolvemos essa fé a cada momento doloroso da vida, temos esperança (Rm 5.3-5). Por isso a paciência é também fruto do Espírito (Gl 5.22).

Mas como manter a fé e a esperança numa vida tão dolorosa? Como ter certeza sobre essa realidade oculta que faz com que nossa dor seja dor de parto? Como viver a cada dia nesse paradoxo insano de nossa existência?

A resposta está na oração. Nessa comunicação da nossa finitude com a eternidade de Deus. Nesse contato com a verdadeira realidade pela qual esperamos.

Entretanto, nem mesmo orar nós sabemos. Muitos gostam de enfatizar que o poder está na oração ou na pessoa que ora, mas nem isso conseguimos fazer corretamente, pois nossas vidas aqui estão na vaidade, nas nossas respostas às dores, nas expectativas limitadas, em nossos desejos egoístas que nem sequer reconhecemos.

Mas Deus, em seu amor, nos envia o Espírito Santo para nos dar vida e viver em nós. Embora nossa realidade externa ainda não esteja transformada, nosso íntimo recebe a eternidade de Deus em seu Espírito. Ele é quem intercede por nós quando queremos orar, ele é quem identifica nossa real necessidade e nos responde com aquilo que precisamos. Nossa oração não expressa poder, pelo contrário, ela expressa nossa fraqueza, e nessa fraqueza é que o Espírito nos ajuda de acordo com a vontade de Deus.

Tudo o que fazemos é chorar como crianças recém nascidas pelo genuíno leite espiritual (1 Pe 2.2). A criança recém-nascida sente muitas dores e necessidades, mas nem mesmo é capaz de reconhecê-las – e menos ainda dizê-la – tudo o que faz é chorar. Sabe que há uma mãe amorosa que identifica e supre suas necessidades e, então, se aquietará (reflita sobre isso no Salmo 131).

Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo tenham ânimo! Eu venci o mundo.

(Jesus, em João 16.33)

Anúncios