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Tiago 4:1-10

brigando pelo que é certoCada vez mais, em nossos dias, vemos igrejas brigando interna e externamente, não é raro vermos muitas se dividindo ou pessoas saindo frustradas do meio delas por causa de outras que buscam ter poder dentro da igreja de maneira ilícita. É interessante que todos concordam que existe um problema, mas a culpa é sempre do outro e dificilmente alguém fala de si mesmo, por isso, quando se tenta resolver os problemas com essa ótica, acabamos frustrados ou iludidos por uma resolução superficial.

Toda carta de Tiago é bastante prática e direta, é uma grande exortação às comunidades para que tenham uma religião verdadeira, uma religião que se mostra no viver na sociedade. Ele escreve tudo isso de uma forma muito direta e até agressiva, e, por isso, é muito relevante para nossas igrejas hoje, que continuam tendo os mesmos problemas tratados na carta. Tiago exalta a fé verdadeira, as obras, a humildade; condena a hipocrisia, a religião inativa, a acepção de pessoas, a maledicência, o amor às riquezas, e também o egoísmo da busca dos próprios prazeres, que causam as contendas dentro da igreja, que é o tópico que pretendo levantar neste sermão.

Vejamos alguns tópicos necessários para esse tratamento.

Nossas brigas têm origem (v1-3).

Quando nos consultamos com algum médico, somos questionados por ele sobre o que sentimos, quando começou, se já sentimos isso antes, e muitas outras, dependendo do problema e do médico; depois ele faz uma série de exames, vê se estamos com febre, mede a pressão sangüínea, ouve o batimento cardíaco e pede outros exames conforme a necessidade, e só então, depois de fazer o diagnóstico, ele passa a tratar a doença.

Nós temos muitos problemas na igreja, problemas que a deixam doente, em muitos casos são como câncer que chega a matá-la e não conseguimos entender por que isso acontece. Por que brigamos se somos uma comunidade de paz (Rm 12:17-21)? Por que há tanta fofoca se devemos ser prontos para ouvir e tardios para falar (Tg 1:19)? Por que damos tanto mau testemunho dentro e fora da igreja, de maneira que muitos novos convertidos chegam a ficar desiludidos com aquela que lhes anunciou Jesus?

Quando percebemos isso, procuramos consertar de várias maneiras, mas esquecemos de nos voltar para a raiz do mal, tratando de nossas brigas apenas superficialmente (sem muito sucesso), pois a verdadeira origem de nossos desentendimentos é muito dolorosa de se lidar.

Mas o texto nos mostra claramente qual é essa origem, isto é, os prazeres que militam em nossa carne. A palavra grega usada aqui para prazeres é h&donon, de onde tiramos hedonismo, que é a “concepção de vida segundo a qual o prazer é a finalidade, o bem supremo da vida”[1]. Por aqui já começamos entender porque brigamos: nosso egoísmo afirma que nós estamos certos, que nossa opinião é a melhor, que nós devemos ter mais, que não podemos ser humilhados, que nós somos melhores que os outros, coisas essas que nos dão muito prazer, consciente ou inconscientemente.

Por isso também nos frustramos, cobiçamos para satisfazer nosso desejo de ter, mas nada conseguimos. Não temos porque não pedimos a Deus, o doador de todas as coisas, mas queremos obter pela nossa inveja e até matar por isso. Pedimos e não recebemos porque queremos apenas o que nos dá prazer: dinheiro, carros, casas, glória, prosperidade, etc – coisas que dizem respeito somente a nós mesmos, nem ao próximo nem a Deus; coisas que não seriam erradas pedir se não fossem para nos esbanjarmos em nossos próprios prazeres, para nos sentirmos melhores que os outros, tornando-nos, assim amigos dos valores mundanos, além de nos distanciar e até nos fazer desconfiar do próximo (às vezes até de Deus).

É dessa maneira dura que Tiago nos apresenta a origem das contendas na igreja e é assim que devemos também procurar entendê-la, sem tentar “tapar o sol com a peneira”, mas sermos humildes o suficiente para vermos que somos pecadores por natureza e necessitamos de Deus para nossa santificação, mesmo conhecendo a Jesus e freqüentando uma igreja, que era também a situação daqueles à quem a carta se endereçava.

Nossas brigas e sua origem são condenadas (v4-6).

Depois de apresentar-nos o problema e sua origem, Tiago nos exorta a abandonar a amizade do mundo chamando-nos de infiéis, moicalidez no original, que se traduz melhor por adúlteras, nos levando ao sentido da infidelidade religiosa de Israel no Velho Testamento.

Aqui, quando se fala em mundo, não devemos ver mundo como a realidade das coisas criadas por Deus, ou as pessoas que nele habitam e, assim, nos alienarmos a ele, mas devemos vê-lo no aspecto moral de mundo, suas paixões, valores, glórias, etc.

Hoje se fala que o mundo está entrando na igreja quando a questão é instrumentos musicais, tipos de música, usos e costumes novos, principalmente quando se trata de coisas trazidas por jovens; mas aprendemos no texto e em outros, que o mundo na igreja é bem mais que isso, é a assimilação dos valores mundanos pelos crentes, é a prática das obras da carne citadas por Paulo em Gálatas 5:19-21: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a essas; quando encontramos essas coisas dentro da igreja, vemos que realmente muitos têm se tornado amigos do mundo, constituindo-se, assim, inimigos de Deus.

Deus nos ama e se preocupa conosco, chega a ter ciúmes, zelo, por nós. Quer nosso bem, mas se ira com o mal, se ira quando não entendemos que Ele próprio se humilhou por nós e que nos ordenou o amor de uns para com os outros. Ele veio nos libertar do pecado e de suas obras, viu o mundo morto e nos trouxe vida, vida nova, diferente, que diferencia do mau caminho em que o mundo anda. Por que, então, voltarmos a andar por ele?

Deus resiste aos soberbos, aos orgulhosos, que insistem em buscar o reconhecimento do mundo mesmo na igreja, que insistem em andar no caminho antigo, que querem agir lá dentro sem se sujeitar à Sua vontade, aos Seus exemplos e mandamentos, que aprendem sempre sem chegar ao conhecimento da verdade (IITm 3:7). Ao invés disso, Ele dá graça aos humildes (Mt 5:3), àqueles que não se consideram os maiores (Mt 18-4), que sabem que dependem da graça de Jesus (porque sem Ele nada podem fazer [Jo 15:5]), que o obedecem e guardam suas palavras, deixando, assim, de ser inimigos e tornando-se amigos de Jesus (Jo 15:14). E aqui começamos aprender a solução para nossas brigas.

Nossas brigas têm solução (v7-10).

Nesses versículos vemos uma série de verbos que nos dão a solução para esse problema tão destruidor para a igreja, são eles: sujeitar, resistir, chegar-se, purificar, limpar, prantear, humilhar-se e, por fim, exaltar.

O que vemos em primeiro lugar é a sujeição a Deus e só então a resistência ao diabo. Muitos têm procurado lutar contra o diabo, resisti-lo, repreendê-lo, ou mesmo lutado contra esse mal na igreja. Entretanto, têm deixado de lado a sujeição a Deus, a obediência, a dependência, de onde vem a força para que possamos resistir eficazmente ao diabo, de maneira que ele e toda sua influência maligna fuja de nós, porque Deus é que tem o poder para nos libertar; e mesmo assim, percebemos que temos uma carga de responsabilidade nesse processo, e devemos lutar contra as brigas em nossa igreja, confiando que o poder está em Deus.

Então o texto continua a argumentar a resolução de nossos problemas usando aqueles verbos citados acima:

  • Chegarmos a Deus, mudarmos de rumo, para que fiquemos com Ele e passemos agirmos como Ele quer.
  • Purificar as mãos (Is 1:15-16), deixarmos de fazer o mal, limpar o coração.
  • E, numa atitude mais interior, chorar, transformar nosso risoem pranto. Issoparece ser muito pesado, parece que Deus nos quer tristes, mas não, o nosso pecado nos traz tristeza e por isso devemos nos arrepender e chorar, nos humilhando diante de Deus, que nos traz felicidade sim, mas é uma felicidade santa e verdadeira, e não uma felicidade hipócrita que faz-nos rir como se nada estivesse acontecendo, Deus quer que enxerguemos a triste realidade do nosso pecado.
  • E, então, depois do devido arrependimento e humilhação, Ele nos exaltará. Essa é a verdadeira exaltação que podemos ter (Lc 14:11), aquela que Deus nos traz, que ele nos trouxe na cruz. O que “já tem” sua própria glória “não precisa de Deus”, se basta a si mesmo, enganando-se, por isso Deus exalta os humildes, que sabem que são nada e que só podem confiar nele (Hb 2:5-18).

A solução para nossos problemas de relacionamento dentro da igreja é a humildade diante de Deus (II Cr 7:14) e para com os outros (Jo 13:14).

Conclusão:

Não podemos negar que temos problemas de relacionamentos, brigas e até divisões na igreja, e se queremos resolvê-los, devemos conhecer suas origens, receber a repreensão que a Palavra de Deus nos dá e nos arrepender e humilhar diante de Deus, pois essa é a verdadeira solução.

Que Deus abençoe nossas igrejas!


[1] FILHO, Isaltino Gomes Coelho Tiago, nosso contemporâneo, p. 107.

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