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“Quando você experimentou pela última vez a ação do ‘Espírito Santo’? Esta pergunta deixa-nos em apuros. […] Bem diferente soa a pergunta: Quando você sentiu pela última vez o “espírito da vida”? Aqui podemos responder com nossas próprias experiências da vida diária e falar das satisfações e dos impulsos que sentimos.

(Jürgen Moltmann)

O Espírito Santo de Deus é o Espírito da vida, aquele que pairava sobre a face das águas antes mesmo de haver luz; aquele que foi soprado nas narinas do homem e fez dele alma vivente; aquele que revelou a mensagem de Deus aos profetas; aquele que esteve sobre Jesus em todo o seu ministério e continua sobre sua igreja.

Mas quando falamos sobre Espírito Santo, geralmente pensamos em algo estritamente religioso, mais ligado a alguma liturgia de culto religioso. Por vivermos numa correria tão grande em tantos lugares obrigatórios, deixamos até de contemplar a vida em suas formas mais simples e mais amplas. Com isso acabamos nos fechando em mundos limitados onde o centro é nosso próprio eu; quer consideremo-nos beneficiados ou vítimas. Por isso só consideramos a experiência do Espírito como algo extraordinário e incomum, achando impossível sua manifestação naquela vida que consideramos tão medíocre.

O Salmo 104 é um belo exemplo de como a presença de Deus é fundamental em toda a vida na Terra e não somente como uma experiência religiosa. Nessa bela – poesia que até utiliza conceitos próprios da época em que foi escrita – vemos tanto uma desmistificação da natureza quanto a presença vivificante e renovadora do Espírito de Deus em toda ela. O homem aparece na poesia apenas ao final, como parte e não como centro dela. E é pelo todo que o salmista louva a Deus. Viver no Espírito significa viver em favor da vida, do amor, de algo muito além de nós mesmos.

O Espírito Santo é o que nos impulsiona para a vida, para o amor ao próximo e para além de nós mesmos – valores tão repetidos no meio cristão. Caso contrário, tudo o que buscaremos serão: nossa própria solidão, nossa incerteza quanto ao futuro, nosso ego… Achamos que estamos nos sustentando e nos preservando quando, na verdade, estamos nos fechando numa bolha que nos isola cada vez mais da vida. Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á… (Mc 8.35) Esta é a outra força que encontramos no mundo por causa do pecado: o impulso para a morte, para a vida sem sentido, para a não importância da vida do outro e até da nossa mesmo. É isso que nos faz inutilmente “correr atrás do vento”, como diz o autor de Eclesiastes.

É interessante que a palavra “espírito” também significa “vento”. Mas uma coisa é correr atrás de algo que não se vê e não sabe para onde vai, e outra é TEMPLO-DO-ESPÍRITOser movido por ele a partir de dentro. Não que o termo em Eclesiastes se refira ao Espírito Santo, mas a utilização da mesma palavra em situações tão opostas no dá uma boa indicação sobre o que realmente estamos buscando.

É essa correria sem sentido que faz ser inútil acordar de madrugada e comer o pão pelo qual duramente trabalhamos durante o dia, como diz o Salmo 127. 1 e 2. É essa correria que nos leva tantas vezes a tantas frustrações, como se nada tivesse valor. Desprezamos a vida hoje para desfrutarmos dela amanhã, mas quando chega amanhã, o amanhã já é hoje… e não encontramos o vento, que deveria estar nos impulsionando desde o início.

A questão, então, não é tanto o que você faz, mas qual espírito lhe move.

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