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Quantas vezes você já ouviu um crente dizer, como que se desculpando, que havia acabado de ler um romance secular? Você já se cansou de ver os mesmos quadros medíocres de pinturas cristãs? Você tem um sentimento de culpa quando gosta de um filme por sua arte ou por seus atores ainda que reconheça que sua mensagem seja errada?

Uma grande dificuldade para o cristão, de forma geral, está relacionada ao seu relacionamento com a cultura da qual faz parte. Até onde pode se envolver, participar ou mesmo produzir cultura no ambiente em que vive?

Esperava-se do cristão que justificassem tudo na vida pela sua utilidade espiritual ou evangelística. Ou isso poderia afastar os cristãos da vida cristã – diz o autor – com isso, a indústria (e a cultura) cristã acaba produzindo, na maioria, imitações nada criativas, repetitivas e superficiais da música popular – continua.

As atitudes geralmente são de medo e de insegurança, entendendo que a qualquer momento e fé poderia ser contaminada ou destruída. Com esse pensamento, muitos cristãos acabam mais produzindo um gueto do que realmente uma contracultura baseada em sua fé, deixando de ser sal da terra e luz do mundo e até mesmo ignorando a beleza e a criatividade com que Deus dotou o mundo.

Michael Horton procura refletir o assunto definindo, primeiramente, o que é cultura, o que pode ser resumido da seguinte maneira: atividade humana que tem como objetivo o uso, o prazer e o enriquecimento da sociedade. E então começa a buscar na teologia reformada explicações para o surgimento da cultura e sobre o relacionamento de Deus com sua Criação e, dentro dela, a cultura secular.

Para isso ele enfatiza as doutrinas da graça comum e da providência divina, as quais indicam que o mundo pertence todo a Deus e que foi ele mesmo quem dotou os seres humanos com criatividade, raciocínio, arte, etc. Ao mesmo tempo, ele é quem continua cuidando de sua criação e criaturas.

Não se descartam a influência do pecado e das forças malignas, mas aplica-se a obra de Cristo na cruz e a soberania de Deus sobre todas elas, mostrando que a nossa vitória e liberdade estão na obra de Cristo – e não em nossas práticas (cf. Cl 2.16-23). Isso nos livra da insegurança e do medo causado pelo desconhecido e nos leva à segurança de nossa fé. E é justamente essa fé que vai nos levar a ver a graça e a providência do mundo na Criação e mesmo no mundo secular, sem ignorar a influência do mal, pelo contrário, identificando-o do modo certo.´

Ele cita algumas influências da Reforma Protestante na cultura:

Família: passou a ser considerada como um lugar de serviço a Deus em si mesma. Até o prazer sexual do casal passou a ser visto como bom.

Arte: 1º A aceitação do mundo como ele é de fato, criado por Deus, sob o cuidado de Deus, mas quebrado e corrupto (em oposição a todo o simbolismo espiritual da arte católica); 2º Não é necessário “santificar” a arte e exigir que ela sirva aos interesses morais e religiosos da igreja. A criação é uma esfera legítima por direito próprio.

Música: Grandes artistas – como Johann Sebastian Bach, Handel e Mendelssohn – puderam mover-se livremente entre o secular e o sagrado, pois eles se sentiam confortáveis com a realidade sobre a criação e a queda ou sobre a realidade da salvação em Cristo, sem confundir as duas.

Literatura: Surgimento do romance moderno, dos estudos históricos e de uma variedade de explorações literárias.

Ciência: Como estavam convencidos de que a Bíblia é a respeito de Cristo e ela não discorre sobre a ciência, eles não tiveram dificuldade em aceitar a idéia de que grande número de mudanças perturbadoras e transformadoras poderiam ocorrer na compreensão do universo sem que isso destruísse a revelação infalível da Escritura.

Educação: Longe de serem antiintelctuais ou temerosos do estudo secular, os reformadores acreditavam que o cristianismo só poderia florescer em meio a um povo que lesse e fosse culto (pedagogia de João Amós Comênios).

Outra conceituação muito importante é sobre o “secular” e o “sagrado”. Horton sugere que a distinção deve ser mantida, entretanto Deus está agindo nos dois: no secular pela graça comum; e no sagrado pela graça salvadora. Querer simplesmente transformar o secular em sagrado – para que aquele seja aceito religiosamente – ou o sagrado em secular – para que seja mais acessível, seria ignorar a importância de um e até a sacralidade do outro. Horton coloca da seguinte maneira o problema da falta de diferenciação:

O céu é alto demais, portanto, em vez de encontrar Deus onde ele permite que o conheçamos (na revelação) por meio da fé, tentamos trazê-lo para o nosso nível (na experiência) pela especulação.

Se não acharmos que os pagãos tenham algo significativo para dizer ou contribuir para nossa vida, ignoraremos alguns presentes maravilhosos de Deus e acabaremos subestimando os dois reinos ao exigir que as coisas seculares sejam mais do que elas são, e que as coisas celestiais sejam menos do que elas são.

Tendo essa base doutrinária, o autor vai aplicar esses conceitos com relação à arte, ao intelectualismo, à ciência, à literatura de ficção, à música, etc.

É uma reflexão muito importante para todos os que se envolvem nessas áreas e que querem manter sua fé e convicções de maneira firme e livre.

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