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Este pequeno trecho bíblico – que representa grande parte da mensagem dos profetas – nos orienta numa profunda visão da política, com esperança e crítica.

Isaías 32.1-8

Eis aí está que reinará um rei com justiça, e em retidão governarão príncipes (v.1)

A esperança anunciada pelo profeta é de um rei que reina com justiça e de príncipes que governem de maneira correta. Essa promessa se refere ao Messias de forma geral, mas também ao tipo de governo que Deus deseja para seu povo, o que nos permite ampliar a aplicação desses princípios às autoridades constituídas, tanto por esperança como por denúncia.

O povo já estava cansado de viver o oposto do governo justo e Deus também era contra isso, pois não fora para isso que ele constituiu autoridade e o próprio povo.

A promessa de salvação da parte de Deus é dada também em termos práticos e sociais. Para que todos entendessem também qual é a vontade de Deus para o poder público e, assim, aqueles que vivessem pela esperança, já vivessem de acordo com o que esperavam; o mesmo serve pra nós (cf. Mateus 5.6).

Cada um servirá de esconderijo contra o vento, de refúgio contra a tempestade, de torrentes de águas em lugares secos, e de sombra de grande rocha em terra sedenta (v.2)

Na vida social e política, a função dos líderes (e também de cada cidadão) deve ser a de servir de apoio e segurança nas dificuldades diversas que podem vir ao povo. Algo que é até óbvio: na ocasião do vento, precisa-se de um esconderijo; na tempestade, de um refúgio; em lugar seco, torrentes de águas; na terra sedenta (ensolarada), grande sombra.

Essa, inclusive, foi a sabedoria de José, no Egito, na ocasião do sonho do faraó prevendo fome (Gênesis 41). Sabendo que haveria escassez, aproveitou a época das “vacas gordas” para preparar a nação para tal.

Entretanto não é essa a sabedoria que o povo estava vendo em suas autoridades, assim como atualmente também não estamos. Como ironizou Herbert Vianna na música “Lourinha Bombril”: “caboclo presidente trazendo a solução: livro para comida e prato para educação”.

Os olhos dos que vêem não se ofuscarão, e os ouvidos dos que ouvem estarão atentos (v.3)

Quando a autoridade está agindo contrariamente a seu dever, precisa esconder suas ações. É melhor que ninguém veja, não perceba e, muito menos, fale.

Por isso o sistema injusto procura impedir a visão dos que vêem, seja pela censura direta ou pela ofuscação da visão daqueles que pretendem ver. Ofuscam a visão jogando outros interesses menores, discursos demagógicos e até mesmo entretenimento. De modo que ainda que a visão seja óbvia, fique ofuscada, como se não estivesse vendo o que devia ver.

Assim, aqueles que deveriam ao menos ouvir as denúncias dos que vêem – sejam autoridades ou o povo acomodado – acabam nem sequer se preocupando em ouvir, não querem nem saber.

Mas a esperança é que os que vêem possam ver claramente e, assim, contribuir com sua visão. E que os que precisam ouvir dêem atenção.

O coração dos temerários saberá compreender, e a língua dos gagos falará pronta e distintamente (v.4).

Esta situação confusa – onde o óbvio é ofuscado e onde ninguém quer saber – produz muitas pessoas de coração temerário, ou seja, precipitado, ansioso e perdido, ainda que com interesse em compreender. Pessoas que pensam compreender os problemas, mas que acabam focando questões secundárias e propondo soluções parciais e paliativas. Há aqueles também que só buscam melhoras para o grupo específico a que pertencem.

Outros ficam sem voz, ou com voz fraca e temerosa, para falar o que gostariam, ou deveriam, e assim têm pouca ou nenhuma influência na situação.

A promessa indica sabedoria para que se possa compreender, para que mesmo o coração precipitado possa ser ponderado e sábio (Tiago 1.5-8).

Também indica que as pessoas poderão falar clara e prontamente, sendo respeitados ouvidos como cidadãos.

Ao louco nunca mais se chamará nobre, e do fraudulento jamais se dirá que é magnânimo.

Porque o louco fala loucamente, e o seu coração obra o que é iníquo, para usar de impiedade e para proferir mentiras contra o Senhor, para deixar o faminto na ânsia de sua fome, e fazer com que o sedento venha a ter falta de bebida.

Também as armas do fraudulento são más; ele maquina intrigas para arruinar os desvalidos, com palavras falsas, ainda quando a causa do pobre é justa (v. 5-7).

Dessa maneira o louco e o fraudulento serão vistos como realmente são; e não mais como nobres e magnânimos. A versão da Bíblia na Linguagem de Hoje traduz “louco” como “sem-vergonha” e “fraudulento” como “malandro”, o que faz muito sentido.

Quando tudo está encoberto ou ofuscado, os valores também são trocados e não há clareza para se julgar. É aí que muitos maus acabam sendo vistos como bons (cf. Isaías 5.20).

O profeta denuncia que o que o louco (ou sem-vergonha) faz é falar loucamente, fala muito, mas seu coração é injusto e impiedoso. Pode até falar de Deus, mas o que fala é mentiras proferidas contra ele, pois na prática faz o que é contra Deus: deixa o faminto com fome e o sedento com sede. Jesus considera isso um crime contra ele mesmo (Mateus 25.31-46).

O fraudulento (malandro) é denunciado como aquele que “maquina intrigas para arruinar os desvalidos”. Que usa o próprio sistema, a própria burocracia e até mesmo as leis (ou suas “brechas) para fazer com que a justa causa do pobre e do desvalido seja arruinada. De modo que aqueles que deveriam ser protegidos pelas autoridades – como foi dito acima – acabam sendo vítimas das próprias autoridades.

Mas o nobre projeta coisas nobres, e na sua nobreza perseverará (v. 8).

Mas aquele que é realmente nobre – honesto e justo – projeta coisas nobres. Realmente vê, pensa e sugere soluções. Leva a sério sua função (como descrita no v. 2) e trabalha por isso. Não apenas com palavras vazias como do louco, mas com projetos que realmente identifiquem os problemas e que sejam melhorias possíveis e reais. Que não sejam “soluções” que apenas ofusquem mais a visão ou que apenas fechem as bocas de alguns, mas que sejam realmente “nobres”, no melhor sentido da palavra.

Quem for realmente nobre terá que perseverar nessa nobreza, pois tudo conspira contra ela. Terá que se manter firme diante dos mais diversos ataques, ofuscações e censuras. Terá que ter força interior para realmente ir em frente,verdadeira motivação e ideologia para continuar.

É aí que a fé torna-se fundamental. Não fé como fuga da realidade ou como “ópio do povo”, mas como o que nos mantém no caminho da justiça, projetando coisas nobres e permanecendo nelas.

Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. (Mateus 5.10)


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