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O texto de Mateus 22.15-22 nos mostra Jesus em meio a uma questão político-econômica de sua época, uma questão que também estava ligada à religião judaica. Os fariseus (zelosos da religião judaica) se juntaram aos herodianos (servos do rei Herodes) para tentar fazer com que Jesus cometesse um erro para que pudessem prendê-lo. A pergunta era bem capciosa e qualquer resposta de Jesus iria deixá-lo em complicações. Se Jesus respondesse que pagar tributos ao imperador era algo correto a se fazer, seria visto como um traidor de seu povo; mas se dissesse que era algo incorreto, poderia ser preso imediatamente pelos herodianos.

Como responderíamos a essa pergunta? Provavelmente nos omitiríamos dizendo: só me preocupo com a religião, não me envolvo com política. Mas Jesus, que poderia facilmente ter se omitido, não o fez, pelo contrário, com sua sabedoria respondeu de um modo que colocou a questão econômica em seu lugar e os exortou a pensar sobre o que se daria a Deus.

Assim como Jesus se posicionou dentro de uma questão política de sua época, ainda que numa resposta inesperada, nós, como seus seguidores, devemos fazer o mesmo diante da nossa realidade.

O que se deve levar em consideração no envolvimento do cristão com a política?

Jesus chamou seus discípulos de sal da terra, algo que deve estar misturado ao alimento e, além de conservá-lo, influencia seu sabor. Também os chamou de luz do mundo e enfatizou que uma luz não pode ficar escondida debaixo da cama, mas deve estar num lugar que ilumine. Em Fp 2.15 somos exortados a sermos luzeiros em meio a uma geração pervertida e corrupta, e não nos isolando desta.

Um dos lugares em que mais vemos “escuridão” hoje em dia é na política, e até por isso tememos esse assunto. Na verdade, o problema não é a política, mas sim a “politicagem” dos que pensam apenas em si mesmo e roubam, enganam e corrompem. Mas se é lá que está a escuridão, é lá que devemos iluminar. Principalmente porque, em virtude de decisões políticas corruptas, pessoas que amamos (lembrando que o cristão deve amar a todos) têm sido injustiçadas, pessoas que nem conhecemos, mas que são alvo do Reino (Mt 5.1-12).

Mas uma desculpa comum para não pensarmos nisso tem sido algo assim: “O mundo jaz no maligno mesmo, logo Cristo vai voltar e eu já tenho minha entrada garantida para o céu”. Entretanto todos os textos da Grande Comissão derrubam por terra esse grave erro teológico.

O texto de AT 1.6-11, por exemplo, nos mostra os discípulos preocupados com assuntos que só pertencem a Deus. Então Jesus lhes diz que aquelas questões não diziam respeito a eles, mas o que competia a eles era o testemunho de Jesus para o mundo. É ainda interessante nesse texto que depois que Jesus é elevado aos céus, os discípulos continuam olhando pra cima, então dois anjos aparecem e dizem (numa paráfrase minha): “Por que vocês continuam olhando pra cima? Podem ficar tranqüilos que, do modo como ele subiu, ele vai voltar, enquanto isso vocês têm uma missão a cumprir”. Hoje parece que os discípulos ainda se preocupam mais em ficar olhando pra cima, tentando resolver assuntos que não lhes dizem respeito, do que cumprindo sua missão.

É muito importante considerar que a missão de Cristo não é apenas dizer: “aceite Jesus senão você vai para o inferno”, e nem ter a igreja mais abarrotada de gente possível, mas é fazer discípulos, batizar e ensiná-los a guardar todas as coisas que Jesus ensinou Mt 28. 19,20. E no que Jesus ensinou está incluído: a dignidade do ser-humano, o perdão, o amor, a honestidade, a sabedoria, a preocupação para com o próximo, etc. Ainda nestes ensinamentos encontramos o texto de Mt 25.31-46 onde Cristo lista uma série de atitudes que devem ser tomadas por quem é dele: pão ao que tem fome, água ao que tem sede, hospedagem ao forasteiro, vestes ao nu, visita aos doentes e presos; e ele ainda diz que: “sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim me fizestes” (v40). Muitos querem amar a Jesus, mas não querem se importar com o próximo.

A nossa missão é levar o evangelho todo, para o homem todo e para todos os homens.

Esse é o nosso sal que conserva e dá gosto; a nossa luz que ilumina a escuridão, a qual não deve ficar escondida dentro de nossos templos; essa é a responsabilidade que devemos levar adiante.

E temos vários meios para fazer isso, e um deles é a política, pois somos seres políticos (queiramos ou não) e a Bíblia nos diz que devemos nos submeter às autoridades instituídas (Rm 13.1-7; 1Pe 2.11-17).

Esses dois textos geralmente são mal interpretados pelos cristãos. De um lado os mais conservadores os usam para aceitarem as coisas como são e se calarem diante de situações de injustiça feitas pelas próprias autoridades; do outro lado, os mais liberais tentam de tudo para diminuir sua importância para hoje por medo de ter de se submeter a alguma autoridade.

O que encontramos aqui é realmente uma ordem para obediência às autoridades instituídas, mesmo que não sejam cristãs. Mas é importante lembrar que as obedecemos enquanto elas não nos façam desobedecer a Deus, porque é mais importante obedecer a este que aos homens (At 5.29); e é nesse contexto que a autoridade política e religiosa passa a ser vista como a besta nas mãos do dragão em Ap 13. Mas enquanto a instituição política não está nos fazendo desobedecer a Deus, devemos nos submeter a ela.

“Submeter” não significa apenas nos calar e aceitar tudo, e sim nos envolver nela, usar a própria democracia para cumprir a nossa responsabilidade para com o mundo, que é levar a ele os valores do Reino de Deus. Nós temos liberdade de expressão, temos capacidade de mobilização, temos voto e podemos cobrar dos que estão no poder; são meios que a própria instituição humana nos dá. E esses, inclusive, são alguns dos modos de estarmos sujeitos a ela. É claro que, na época dos textos em que nos baseamos, a situação política era bem diferente e essa nossa liberdade de expressão e representação não existia, mas hoje existe e estaremos obedecendo a Palavra se a usarmos para lutar pelos valores que Cristo nos ensinou.

Certa vez, ouvi um diálogo, não me lembro se num filme ou num desenho animado, onde um político poderoso estava tomando uma medida que aumentaria a fome do povo. Quando alguém o advertiu sobre isso, ele respondeu: “Deixe esse assunto para a caridade das igrejas”.

Muitas igrejas têm feito belos trabalhos sociais, o que é algo louvável e que deve ser continuado. Mas fico preocupado se esse tipo de ajuda não acaba deixando o governo acomodado. Por isso sou a favor de continuar com nossos trabalhos sociais, mas, juntamente com eles, lutarmos por uma política diferente, por estruturas que visem a dignidade do ser-humano, por um modo de ensinar a pescar depois de dar o peixe. Nós podemos e devemos usar as autoridades instituídas para alcançarmos objetivos desse tipo.

Nesse ponto talvez alguém possa pensar que estou propondo um novo partido formado por cristãos. Mas não é isso que quero dizer, o meu objetivo é enfatizar o cumprimento da nossa Missão, que é muito mais abrangente, através dos meios possíveis e coerentes com a Palavra. Apenas uma parte dessa Missão está ligada à política, que é a social, e, como vimos, é uma parte importantíssima em nossa responsabilidade para com o mundo.

É por isso que temos que votar, e votar conscientemente. Conhecendo o candidato, suas idéias e até os modos para falar com ele, a fim de cobrarmos ou elogiarmos suas atividades.

Quanto aos candidatos evangélicos, não devemos votar neles só por se dizerem evangélicos ou por darem terreno para nossas igrejas ou coisas do tipo. Mas serão bons candidatos se forem realmente cristãos comprometidos com a missão que Deus nos deu. E através da igreja teremos um bom meio de nos comunicar com eles. Mas havendo falta disso, não precisamos nos constranger em votar num candidato não cristão, mas devemos fazer tudo com consciência do que queremos para nossa sociedade, e não apenas para nós mesmos, afinal temos uma responsabilidade para com o mundo.

E caso alguém ainda esteja pensando que é inútil (ou até errado) o cristão se envolver com política, eu gostaria de citar a parábola das árvores:

 

Certo dia as árvores saíram para ungir um rei para si. Disseram à oliveira: “Seja o nosso rei!”. A oliveira, porém, respondeu: “Deveria eu renunciar ao meu azeite, com o qual se presta honra aos deuses e aos homens para dominar sobre as árvores?”. Então as árvores disseram à figueira: “venha ser o nosso rei!”. A figueira, porém, respondeu: “Deveria eu renunciar ao meu fruto saboroso e doce para dominar sobre as árvores?”. Depois as árvores disseram à videira: “Venha ser o nosso rei!”. A videira, porém, respondeu: “Deveria eu renunciar ao meu vinho, que alegra aos deuses e aos homens, para ter domínio sobre as árvores?”. Finalmente todas as árvores disseram ao espinheiro: “Venha ser o nosso rei!”. O espinheiro disse às árvores: “Se querem realmente ungir-me rei sobre vocês, venham abrigar-se à minha sombra; do contrário, sairá fogo do espinheiro e consumirá até os cedros do Líbano”. (Jz 9.8-15 NVI)

 

Se as árvores que fazem sombra e produzem bons frutos, se negarem a governar, um espinheiro, que não faz sombra e produz espinhos, poderá aceitar; se pessoas que possuem novos valores em seus corações se omitirem, outros se envolverão; se os súditos do Reino de Deus se calarem, outros falarão; se não nos posicionarmos diante da política do nosso país, com base nos valores do Reino, outros valores serão tidos por base. A omissão é pecado (Tg 4.17).

Eu gostaria muito que a igreja de Deus se tornasse um incômodo para os políticos de nossa nação, no sentido de apontar as injustiças e pedir melhores programas sociais; em outras palavras, que a igreja usasse sua voz profética. Oro para que os políticos cristãos tenham essa consciência, que eles ponham em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e não procurem imitar a maioria (Mt 10.25-28).

Não devemos pensar em política apenas em época de eleições, pois o tempo todo se faz política e o tempo todo devemos pensar em nossa Missão. Sendo os candidatos eleitos, devemos cobrar a justiça, a honestidade e o bem comum. E, acima de tudo, como filhos de Deus que somos, busquemos nele a direção para nosso país, oremos pelos novos governantes e falemos do projeto do Senhor para todos. Lembrando sempre que, sem Deus, nós nada podemos fazer (Jo15. 5).

Dessa forma, daremos à política o que pertence a ela e, principalmente, daremos a Deus o que é dele e confiou a nós (Mt 25.14-30).

Que Deus abençoe nosso país e nossas cidades!

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