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A ênfase do chamado de Jesus está em seu chamado ao discipulado. Ele vem a esse mundo anunciando o reino de Deus e chama as pessoas a uma atitude: a atitude de segui-lo. Segui-lo em meio a este mundo como ele é – em meio às pressões, contrariedades e mesmo comodidades – não seria nada fácil. Já nascemos imersos na estrutura do mundo, com todos os seus sistemas, cultura, costumes, etc. E, sem perceber, vamos apenas dando continuidade ao que já estava estabelecido antes de nós. Fazemos parte disso e acabamos definindo nossa identidade a partir dessa realidade, queiramos ou não. Mesmo o rebelde ao sistema só pode ser considerado assim “com relação” ao sistema, ou seja, mesmo sendo contrário, não deixa de ser um produto do sistema ao qual se rebela.

Por conta de tudo isso, o chamado ao discipulado feito por Jesus apresenta um preço aparentemente muito alto: negar-se a si mesmo, tomar sua cruz, e segui-lo; sendo que quem ganhar sua vida aqui, acaba perdendo-a, e quem perdê-la por sua causa, acaba encontrando-a (Mc 8.34,35). Um preço alto realmente! Como perder tudo aquilo que faz com que sejamos o que somos?

Mas isso levanta uma boa questão: o que faz com que sejamos o que somos?

Este “eu” a ser negado é esta identidade criada a partir do sistema em que nascemos, do sistema formado pelos pecadores. Carregar a cruz, ao exemplo do próprio Jesus é suportar o julgamento e oposição pela nova situação. E seguir a Cristo é ter um novo objetivo pelo qual se pautar e uma nova identidade com base nele, e não apenas na oposição ao mundo em si.

Pensando por esse prisma, podemos fazer a seguinte pergunta: o preço do discipulado é alto, mas qual o preço de “não” ser discípulo de Jesus?

Não ser discípulo de Cristo é simplesmente ser levado pela correnteza do mundo, é simplesmente manter e passar à frente o mesmo o mesmo sistema e cultura.

E aí nos deparamos com este quadro:

Muitos têm sentido os erros próprios do sistema e da cultura, tem questionado suas bases, contrariado suas verdades e até tentado novos sistemas (mesmo que seja ignorar qualquer sistema). Isso é o que chamamos de pós-modernidade.

O tempo em que vivemos, por falta de outro nome tem sido chamado de pós-modernidade. A modernidade foi caracterizada pelo domínio da razão, da técnica e das certezas em todas as áreas do conhecimento. Esse pensamento trouxe a idéia prática de que se tudo for feito do jeito “certo”, o resultado será certamente o esperado. Nossa época começou a ver as brechas nesse discurso e começou a questionar suas bases, comparar com outras bases, relativizá-las e buscar alternativas, mesmo entendendo que não haja apenas uma correta. Essa mesma atitude pode ser encontrada do estudo da Física à busca da pessoa por uma igreja para freqüentar.

O grande problema da pós-modernidade é que ela até consegue perceber que o sistema está errado, consegue romper com algumas coisas, mas não consegue colocar algo bom no lugar e nem mesmo distinguir bem o que é bom e o que é ruim. E aí entra o outro lado da moeda, é que a pós-modernidade também tem sido chamada de hiper-modernidade, que é quando o antigo sistema pretende auto-afirmar tornando-se mais rígido e radical, ainda que suas bases já tenham sido destruídas.

Pela dificuldade em se lidar com todas essas coisas é que nossa sociedade vai ficando mais:

  • Descrente – não há verdade para se apegar.
  • Pluralista – se não há verdade, tudo é verdade.
  • Midiática – o importante é receber entretenimento e informação.
  • Doente – sem vida, sem valores, sem conteúdo, como visto no quadro acima

Que identidade essa bagunça toda pode formar? Será que vale a pena manter essa identidade e esse sistema? Será que também adianta quebrar sem ter o que construir?

Agora voltamos ao chamado de Jesus entendemos porque, ao mesmo tempo em que parece pesado, é um descanso para as nossas almas (Mt 11.28-30). Pode parecer muito pesado “negar-se a si mesmo, tomar sua cruz e segui-lo”, mas diante dessa realidade tão perdida e vazia a que nossa identidade está ligada, podemos entender como é também um descanso para a alma.

Parece pesado porque envolve negarmos o “eu” que construímos a partir do mundo e que preservamos com tanto cuidado.

Parece pesado porque nos leva a abandonar um sistema que, por mais que reclamemos dele, mantemos e encontramos comodidade.

Parece pesado porque nos faz nadar contra a correnteza.

Mas é no discipulado de Jesus que encontraremos a sabedoria e os princípios para guiarem nossas vidas.

É no discipulado que encontremos o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6). Não nos termos das afirmações ou negações categóricas do hiper e do pós-modernismo, mas em termos essenciais. Aquela essência da vida que tanto uns quanto outros, no fundo, procuram. No sistema atual tem sido difícil dar respostas categóricas, mas bem podemos indicar e seguir o Caminho. Sistemas vêm e vão, mas a essência permanece; e é essa que Jesus veio salvar.

Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra do nosso Deus permanece para sempre (Isaías 40.8).

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