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duas questões

Imagine que de repente você apareça diante de Deus em pessoa e pronto a responder qualquer pergunta sua. O que você perguntaria?

Provavelmente houvesse um primeiro momento de acanhamento e até mesmo susto, mas então as perguntas começariam a surgir: Por que teve que ser assim? Por que levou meu parente querido? Por que o Senhor permitiu? Se era pra ser assim, então porque começou daquele outro jeito? Por que o Senhor não se mostra mais claramente? Qual o sentido disso tudo? Isso só pra uma idéia de perguntas gerais e típicas que provavelmente você faria, além de muitas outras que só seu íntimo conhece.

Também seria muito provável que logo as perguntas assumissem um tom de “colocar Deus contra a parede”, exigindo explicações e soluções.

Imagine, então, Deus lhe interrompendo e dizendo que vai responder a todas as suas perguntas… – assim que você responder aquelas duas que ele já lhe havia feito desde o início.

Que perguntas?

Essas perguntas foram feitas à humanidade como um todo, simbolizada e representada nas figuras de Adão, Eva, Caim e Abel. E, justamente por esse caráter, se refere a todos nós.

A 1ª pergunta: Onde estás?

Deus criou todas as coisas como expressão do seu poder e do seu amor e, de maneira especial, a humanidade. Com esta Deus dividiu sua imagem e semelhança e sua própria criação, deixou que eles a nomeasse, cuidassem, usufruíssem e dessem continuidade. De maneira especial, entregou-se a si mesmo em relacionamento direto a eles. Era total harmonia entre Deus, humanidade e criação.

Um dia, como era de seu costume, Deus desceu no fim do dia para passar um tempo com seus filhos. Com certeza o momento mais significativo e esperado por qualquer ser-humano. Mas naquele dia, pela primeira vez, Deus teve que perguntar ao homem:

– Onde estás? (Gn 3.9).

A resposta foi surpreendente e, ao mesmo tempo, fria, distante, triste…

Em toda aquela harmonia entre eles, Deus e a criação, havia a remota possibilidade de se tornarem independentes sendo donos de seu conhecimento sobre o bem e o mal. Era a única coisa proibida se quisessem manter harmonia, afinal, essa opção seria independência e individualismo.

A tentação se deu em termos de instigar desconfiança, sugerindo que Deus só havia proibido porque tinha medo que, ao comerem, eles se tornassem como ele: conhecedores do bem e do mal. Essa desconfiança os fez considerar que poderiam ser deuses e, se isso era verdade, pra que continuar sendo menos que isso?

Essa atitude os levou a uma nova situação onde aqueles que eram interdependentes passaram a se ver como independentes, pior ainda, passaram a ter vergonha um do outro. Homem e mulher, até então nus, honestos e transparentes um para com o outro, agora se viam com vergonha do outro, o outro agora era uma ameaça.

O homem, até então também nu, honesto e transparente diante de Deus, sentiam que devia se esconder dele.

E assim permanecemos até hoje, nos escondendo de Deus como se ele fosse uma ameaça. Uma ameaça à nossa nudez, ao que realmente somos ou ao que queremos ser.

Fugimos, nos escondemos, inventamos roupas, mas ainda nos sentimos nus e envergonhados. Criamos esconderijos, fantasias, aparências, novos deuses, religiões, desculpas, justificativas, etc. Arranjamos álibis, jogamos a culpa em outros e mesmo no próprio Deus – usando aquelas perguntas que citamos no início. Até nos enganamos por algum tempo, mas logo a fantasia começa perder a graça e começamos a inventar outras.

Mas a verdade é que Deus continua perguntando onde estamos, e nem mesmo sabemos o que responder…

A 2ª pergunta: Onde está o teu irmão?

É curioso que a primeira atitude dos novos seres humanos – agora conhecedores de bem e do mal – de um para com o outro tenha sido a vergonha mútua e, em seguida, a acusação.

Para piorar, acabamos encontrando o assassinato de um de seus filhos pelo outro e por motivo banal. Não que a adoração que pretendiam fazer a Deus fosse banal, mas o fato de Deus haver se agradado da oferta e Abel e não de Caim foi apenas um modo de mostrar como ele queria que fosse feito. O próprio Deus chega a procurar Caim e dizer-lhe isso, afirmando que ele seria aceito se fizesse direito.

Mas não, Caim já era “conhecedor do bem e do mal” e reconheceu que aquilo era mal, que ele não poderia ser rejeitado e que o irmão dele não poderia ser melhor que ele. Acabou considerando bom o seu ciúme, e pareceu-lhe bom acabar com a vida de seu irmão e dissimular seu feito. Por que será que esse novo “conhecimento” levou-o a algo tão terrível?

Deus, então, procurou-o e perguntou:

– Onde está o teu irmão? (Gn 4.9)

Pergunta direta e forte que, aparentemente, deveria produzir algum tipo de remorso nele, mas, ao invés disso, foi respondida com frieza e indiferença: Acaso sou eu tutor do meu irmão? Além de mentir sobre o que fizera, ainda deixou claro que não tinha nenhuma responsabilidade pelo irmão, que este devia cuidar de sua própria vida e que ele era indiferente a isso.

Frieza e dissimulação acabam representando o modo como tem sido os relacionamentos interpessoais desde então. Vemos a imensa desigualdade social em todo o mundo e o máximo que conseguimos fazer é culpar o sistema, o governo, os políticos e outras coisas impessoais, esquecemo-nos que tudo isso é formado por pessoas, pessoas como eu e você, juízes do bem e do mal.

Deus continua nos perguntando por nossos irmãos, e nossa resposta tem sido: indiferença. Sim, temos momentos bons, gostamos de quem gosta de nós, ou de quem precisamos, mas não pensamos duas vezes em quebrar até esse relacionamento se julgarmos algo nele como “mal”.

Talvez Caim quisesse mesmo era matar Deus por ter preferido a oferta de seu irmão, mas como isso era impossível, voltou-se contra este. No fundo, a nossa fuga de Deus nos faz fugir também do próximo. Nosso “conhecimento do bem e do mal” acaba tendendo para o mal porque queremos o bem sempre pra nós; e o mal, mesmo “sem querer”, acaba sobrando pro próximo. Nós também recebemos o mal “sem querer” do próximo e a bola de neve continua rodando e crescendo.

Tentativas de respostas

pessoas na interrogaçãoEssas perguntas estão no íntimo de cada ser humano e todos, de alguma forma, estão tentando responder – sem sucesso; continuam fugindo e mostrando-se indiferentes.

Uns se esforçam em responder a primeira e parecem até responder, mas acabam deixando de lado a segunda, ou apenas considerando-a com frieza, como algo para ser visto depois. Procuram responder fortemente “estou aqui”, mas acabam fazendo isso em tom de arrogância com relação ao seu próximo e até mesmo com relação a Deus, mesmo que não percebam. Tornam-se bajuladores de Deus, mas enganam-se apenas a si mesmos, pois “se alguém afirmar: ‘eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso” (1 Jo 4.18).

Outros se esforçam em responder a segunda e fazem boas ações ao próximo, mas acabam não se importando muito com a primeira pergunta. Muitas dessas ações são boas de fato, especialmente a quem as recebe, mas a indiferença e até a frieza ainda se mantém. Pode-se até fazer o bem a alguém próximo que nos ajude ou que, pelo menos, não nos ameace. A estrutura do mal no mundo, os inimigos que criamos até mesmo sem querer e até os males que recebemos não nos deixam ser tão bons quanto gostaríamos. Mais ainda, percebemos que a indiferença ao irmão vem também de nossa fuga de Deus, por isso mesmo é necessário respondermos a primeira pergunta para responder a segunda, pois “ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá” (1 Co 13.3).

A resposta

Então Jesus vem como aquele descendente da mulher que pisaria a cabeça da serpente, que incitou aquelas atitudes e assim traria de volta aquilo que se havia perdido. Vem para desfazer aquilo que a serpente havia provocado, vem para transformar o coração e levar as pessoas de volta à harmonia com Deus, entre ela e com a criação toda.

Responde a primeira pergunta colocando-se totalmente nas mãos do Pai. Mantém-se fiel, ora constantemente e ensina suas verdades.

Mesmo diante da maior angústia, onde chaga a pedir o cálice fosse passado, coloca a vontade de Deus acima de tudo.

Mesmo nos sofrimentos da cruz – e dentre esses, o pior: o abandono do Pai – chega ao fim dizendo: está consumado… nas tuas mãos entrego meu espírito.

Reforçou o grande mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento”.

Responde a segunda pergunta ao buscar e salvar o perdido, trazendo as bem-aventuranças para os improváveis, relacionando-se com pecadores e excluídos em geral, do mesmo modo que se relaciona com religiosos e ricos, sem deixar de pregar a essência da vida eterna, doesse a quem doesse.

Mesmo na cruz é capaz de pedir perdão pelos que o torturavam, pois não tinham idéia do que estavam fazendo.

Reforçou a continuação do grande mandamento: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Mas deixou ainda um novo mandamento: “que nos amássemos como ele nos amou”.

Em Jesus as respostas foram dadas.Cruz Tato

Crer em Jesus é responder corretamente a Deus.

Crer em Jesus é viver na prática o relacionamento com Deus e com o próximo.

 

Onde estás?

Onde está o teu irmão?

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