Há um ditado que diz que “um povo sem história é um povo sem futuro”. Realmente, não reconhecer a história onde de seu desenvolvimento – seus valores, erros e acertos – acaba levando um povo ao desprezo por si mesmo e à repetição dos mesmos erros, levando-o a lugar algum.

Infelizmente tenho visto esse desprezo à história também no povo cristão, o que é bastante preocupante em vários sentidos

Uma das principais atitudes tem sido a de total desprezo com relação à história. Trata-se a Bíblia como se ela tivesse sido escrita ontem e apenas e diretamente para quem a está lendo hoje, ignorando assim uma longa tradição de desenvolvimento e aplicação dos textos bíblicos. Esse tipo de atitude costuma afirmar que não precisa ou que não gosta de “teologia”, crendo que está meramente expondo o conteúdo das Escrituras e, com isso, acaba caindo em dois erros que nem percebe: primeiro – como aprendeu e ler e expor a Bíblia a partir de alguém, que também aprendeu com alguém – e assim por diante, está necessariamente usando teologia e tradição sem nem mesmo conhecê-las, considerando-as óbvias e misturando-as ao próprio texto bíblico; em segundo lugar, já que não interpretam e nem fazem teologia, mas apenas expõem o conteúdo da Palavra de Deus, consideram o que falam como a própria Palavra de Deus e, sendo assim, seu ensinamento irretocável e obrigatório.

Entre os que se consideram reformados, tem havido uma preocupação maior com a história do cristianismo e de suas doutrinas. Mas infelizmente a grande maioria é extremamente seletiva, lendo apenas os textos ligados à Reforma Protestante e considerando os outros meramente como alvo de apologética. Acabam vendo a história do cristianismo como iniciada no livro de Atos e depois dando um salto até o ano de 1517 com as teses de Lutero. Assim acabam ignorando até mesmo a tradição em que os reformadores declaradamente se basearam, bem como seu diálogo e contestação, diretamente ligados à sua própria época e contexto. Também acabam ignorando a necessidade de diálogo tanto com a história quanto com a época atual. Às vezes dão a impressão que a teologia correta é a da “máquina do tempo”, onde todos entram e voltam para o século 16.

Oponentes do cristianismo usam particularidades de sua história para tentarem desmerecê-lo, mas geralmente o que fazem é encontrar acontecimentos pontuais e/ou gerais e darem sua interpretação com base nos valores atuais, o que conhecemos como “anacronismo”. Tendo pouco conhecimento geral e uma forte intenção contrária ao cristianismo, acabam também usando sua história sem muita precisão. Um dos principais exemplos disso é o modo como consideram o imperador Constantino. Para muitos esse imperador é praticamente o fundador do cristianismo, tendo determinado sozinho quais os livros que entrariam na Bíblia, os dogmas principais e toda a eclesiologia da igreja (que grande teólogo seria Constantino se isso fosse verdade!).

Esses são alguns poucos exemplos de como o conhecimento da história do cristianismo e, em especial, do modo como o pensamento cristão se desenvolveu, é um estudo importante para o cristão.

O estudo desse assunto nos ensina como a mensagem do Evangelho de Jesus foi se relacionando com as culturas, sociedades, épocas e filosofias pelas quais passou. Ensina também como esse relacionamento ajudou a produzir respostas e definições importantes para que o cristianismo se estabelecesse diante das outras instituições da história. E ensina também o quanto o dogma, em muitos casos, tornou-se prejudicial para a própria igreja, tirando justamente seu dinamismo e contextualização diante dos lugares e épocas pelos quais passou e passa. Ensina até mesmo como muita coisa foi distorcida – tornando-se até contrária ao próprio cristianismo – e, ainda assim aceito e perpetuado.

Aprender isso nos leva a querer ver nosso cristianismo e nossa teologia em nossa própria época. Muitos cristãos acham que essa tentativa de contextualização e relevância para a época atual é perniciosa em si mesma, estes se esquecem de que o cristianismo deve sempre ser como o fermento misturado à massa e, querendo ou não, está sempre em relacionamento com a cultura, sociedade e época em que os cristãos vivem. E, ainda mais, a mensagem de Jesus “é” para cada cultura, sociedade e época em que os cristãos estejam e, por isso mesmo precisa estar em relacionamento com elas. Caso contrário, tornar-se-á apenas mais uma seita alienante e alienada que, sem contato com a história, apenas repete respostas feitas a perguntas de outras épocas e lugares.

Com isso quero incentivar a todos que gostam de se aprofundar na mensagem cristã em geral, que a pregam, estudam, ensinam – e até mesmo aos que criticam – a que conheçam mais de suas histórias e seu relacionamento com cada sociedade e cultura. Vivemos numa época de total descrédito de um lado e extrema alienação de outro, precisamos tomar as mesmas atitudes de nossos irmãos do passado e apresentar uma mensagem consistente e coerente para nossa época. Pois a mensagem em si é uma só, mas a as pessoas que a recebem – e mesmo as que a pregam – mudam.

Para isso poderia indicar vários livros, mas começar indicando “A história do pensamento cristão”, de Paul Tillich, do qual faço uma resenha aqui no blog:

https://flaviogoliveira.wordpress.com/2013/01/30/historia-do-pensamento-cristao/

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