história do pensamento cristão

TILLICH, Paul. “História do Pensamento Cristão”. 3ª edição, São Paulo: ASTE, 2004.

*Abaixo está uma resenha que fiz quando estudava no Mackenzie, indico também um texto sobre a importância do assunto:

https://flaviogoliveira.wordpress.com/2013/01/30/a-importancia-da-historia-do-pensamento-cristao/

O livro de Paul Tillich é edição de suas aulas ministradas no Seminário Teológico Unido de Nova York, em 1953. Esse primeiro dado vem a ser muito importante para a compreensão da abordagem ao assunto proposto: A história do pensamento cristão. Notamos que sua ênfase não está tanto na história como no pensamento em si. Não há grande preocupação com datas e outros personagens históricos (embora existam), mas sim com o desenvolvimento do pensamento e sua relevância, tanto para a época de cada formulação como para a teologia das épocas seguintes, além do relacionamento com a filosofia em todo o processo.

Essa característica também explica o pouco rigor acadêmico no texto, visto que o autor não se preocupa em fornecer as fontes citadas e nem em escrever de forma impessoal, pelo contrário, afirma suas posições em concordância com algumas linhas de pensamento, enquanto critica outras, usando o pronome pessoal na primeira pessoa. Entretanto, tudo isso é feito inteligentemente de maneira crítica e também com finalidade didática, pressupondo que seus alunos (e leitores) já conheçam a matéria. Por esse mesmo motivo também encontramos várias correlações com o pensamento da época e regiões ligadas ao autor, o que traz enorme relevância ao leitor contemporâneo. Tillich não apenas apresenta a história do pensamento cristão, mas dialoga com ela.

A obra é introduzida com o conceito de dogma, demonstrando que se trata de “pensamentos que se tornaram expressões da vida da igreja”. Sendo assim, o dogma é necessário e natural à vida da igreja, embora tenha recebido enorme reação nos últimos quatro séculos, segundo Tillich, pela obrigação da aceitação da lei eclesiástica como lei civil. Apesar disso, o autor afirma que o dogma (a doutrina, ou a teologia sistemática) é necessário e inevitável para a vida da igreja, em especial em meio ao mundo secular; mas que também a dúvida o é, pois “quando se considera o sistema respostas definitiva e final, ele se torna pior do que qualquer prisão”. Dessa conceituação vemos a importância do assunto a ser estudado.

O primeiro capítulo apresenta conceitos e contextos, em voga na época do surgimento do cristianismo, os quais, de certa forma, prepararam o mundo para o mesmo, assim como para sua formulação teológica. É importantíssimo, ao meu ver, que o autor comece dessa maneira, pois se vamos falar sobre o pensamento cristão, devemos entender, primeiramente, que isso não surgiu do nada e que sempre há relação da teologia com o pensamento secular.

O segundo capítulo, sobre o desenvolvimento teológico na igreja é o mais extenso do livro, tratando desde os pais apostólicos até a vida e o pensamento de Agostinho. Segundo o autor, os pais apostólicos “mostravam-se mais na linha de certo conformismo cristão desenvolvido aos poucos do que da posição de vanguarda manifestada por Paulo em suas cartas”. Nesse período a preocupação maior era com conteúdos mais compreensíveis aos pagãos e as experiências espirituais de êxtase já tinham quase desaparecido. Tillich afirma que “essa época foi extremamente importante por preservar o que era necessário para a vida das congregações”.

Daí o autor passa para o movimento apologético, o qual é considerado o “nascedouro de uma teologia cristã mais elaborada”. Visto que agora o cristianismo “precisava se expressar em forma de resposta a certas acusações particulares”. Essas respostas visavam tanto o Império Romano, no sentido de tentar impedir perseguições a uma religião considerada como subversiva; e à própria filosofia grega, que via o cristianismo como pura tolice.

Comprovando a tese de que essa época produziu uma teologia cristã mais elaborada, Tillich apresenta as principais discussões, em especial contra o gnosticismo, os principais nomes dos apologistas e hereges e os assuntos mais concorridos. Demonstrando, assim, a grande quantidade de heresias a serem combatidas, não apenas em ameaças externas, mas, principalmente internas. Aqui também é interessante vermos o relacionamento do cristianismo com a filosofia.

Das muitas controvérsias surgem os primeiros concílios da igreja cristã para definir assuntos disputados e condenar os hereges. Apesar disso já encontramos a divisão no cristianismo representada pelas escolas antioquena e alexandrina, representando as tendências ocidentais e orientais respectivamente.

O capítulo termina com a Vida e Pensamento de Agostinho, cuja influência, segundo Paul Tillich, “estende-se não apenas pelos próximos mil anos, mas sobre todos os períodos desde então”.

O mundo medieval é o assunto do terceiro capítulo. Segundo o autor, “o problemas básico desse período, também encontrado no outros, é o da realidade transcendental, manifesta e materializada numa instituição particular, numa sociedade sagrada específica, dirigindo a cultura e interpretando a natureza”. O autor apresenta o escolasticismo, o misticismo e o biblicismo como as principais atitudes cognitivas ou teológicas da época. E dentro do escolasticismo são apresentadas tendências filosóficas  do pensamento teológico da época e que eram opostas umas as outras: dialética e tradição; agostinianismo e aristotelismo; tomismo e escotismo; nominalismo e realismo; panteísmo e doutrina da igreja.

É muito interessante a descrição do autor sobre as forças religiosas medievais, considero-a de muita importância para o entendimento do desenvolvimento do pensamento teológico da época. Tllich cita a hierarquia, a qual “representava a realidade sacramental da qual dependiam a existência da igreja e do estado e a cultura como um todo”; o monasticismo, o qual “representava a negação do mundo sem quaisquer concessões”; o sectarismo, “que expressava o desejo de grupos especiais por ideais de consagração, de santificação e de santidade”; superstições populares do dia-a-dia; e a experiência real com o demônico. Essas considerações preparam o leitor para sua reflexão sobre a igreja medieval, principalmente em seu relacionamento com o Estado; e a importância dos sacramentos, vistos como representantes da objetividade da graça de Cristo, presente no poder objetivo da hierarquia. Então são citados quatro expoentes da teologia nesse período: Anselmo de Cantuária, Abelardo de Paris, Bernardo de Claraval e Joaquim de Fiori. Estranha-se nesse ponto o fato do autor apenas mencionar Hugo de São Vitor e, ao mesmo tempo, considera-lo o teólogo mais influente do século doze. Sendo ele tão influente, deveria ganhar espaço no livro como os nomes anteriores.

Tillich considera o século treze o mais importante da idade média, segundo ele “o destino inteiro do mundo ocidental foi definitivamente decidido nessa época”. Essa afirmação, aparentemente exagerada, é argumentada, de maneira especial, em face do conflito entre as correntes teológicas de influência agostiniana (os franciscanos) e os de influência aristotélicas (os dominicanos). Tanto pelo que proporcionou esse conflito como as conseqüências dele. Segundo o autor, esse conflito é a causa fundamental da secularização do mundo ocidental. Ele ainda sugere a descrição desse século em três etapas, representadas por: Boaventura, Tomás de Aquino e Duns Escoto.

O capítulo termina apresentando os pré-reformadores, os quais já surgiram num período diferente da alta idade média, onde os princípios leigos começaram a adquirir importância e o biblicismo a prevalecer sobre a tradição da igreja. Um caminho já preparado pelo nominalismo e o misticismo germânico.

No quarto capítulo, ao invés de tratar da Reforma Protestante (o que seria a seqüência cronológica), Paul Tillich prefere falar da Contra-Reforma primeiramente. O autor não deixa claro porque essa decisão, mas podemos inferir que ele quer continuar tratando da igreja romana, agora dividida, demonstrando as modificações que houveram nela depois da Reforma. Segundo o autor, essa infeliz divisão no cristianismo tornou a igreja romana estreita e fechada em virtude da resistência que ela demonstrou em relação ao protestantismo. Isso é demonstrado facilmente pelas doutrinas do Concílio de Trento e da própria teologia oferecida por este, em especial a questão do pecado, justificação, dos sacramentos e da infalibilidade papal. Esta foi decidida apenas no Concílio Vaticano primeiro em 1870, mas demonstra algo que já vinha desde Trento.

Ainda é citado o jansenismo, como um forte movimento de retorno ao agostinianismo original, o qual ainda hoje (época em que o livro foi escrito) é visto em católicos mais progressistas e que vivem sob ameaça de excomunhão ou de condenação de silêncio. O Probabilismo também é citado como um tremendo relativismo ético da igreja católica. E autor encerra o capítulo fazendo algumas considerações sobre o catolicismo de sua época, demonstrando a tendência dessa igreja em se tornar cada vez mais estreita e excludente.

Agora o autor começa a falar sobre a Reforma Protestante dando grande ênfase à pessoa de Martinho Lutero, não apenas como produtor do luteranismo, mas como o homem que produziu a ruptura com o sistema romano. Essa ruptura é caracterizada principalmente pelo modo como se passou a ver a relação do homem para com Deus, não mais através do gerenciamento de uma instituição, mas de modo pessoal e direto, passando a ter-se, inclusive, certeza desse relacionamento. Tillich descreve a teologia de Lutero apaixonadamente, fala sobre a crítica de Lutero à igreja romana e sobre seu conflito com Erasmo e com os evangélicos radicais; então fala sobre as doutrinas de Lutero, as quais evidenciam o motivo desses conflitos: As Escrituras – como critério da verdade apostólica e verdadeira por tratar de Cristo e sua obra; Pecado e fé – sendo o pecado a falta de fé, e esta como o único meio de justificação; A idéia de Deus – o qual está além de tudo e em tudo, até mesmo agindo criativamente nas forças demônicas; Doutrina de Cristo – “Cristo é Deus para nós, nosso Deus, Deus relacionado conosco”; Igreja e Estado – a igreja vista na distinção entre visível e invisível e os Estado como a providência que faz existir o poder. Essa doutrina é considerada o ponto fraco de Lutero e também da Reforma como um todo.

Tillich apresenta Zwinglio mais em contraste com Lutero que por si próprio, visto que aquele dependia, em parte deste. Zwinglio foi muito influenciado pelo humanismo, continuando, inclusive, amigo de Erasmo, com o qual Lutero rompeu. Isso vai determinar muito da diferença de pontos de vista entre Zwinglio e Lutero, as quais Tillich descreve de modo bem elucidativo.

Calvino é visto através de suas doutrinas: a Majestade de Deus, o qual é radicalmente transcendente; Providência e Predestinação, a primeira como a crença de que Deus governa o mundo de tal maneira que todo o movimento depende dele e a segunda como a providência relacionada ao fim último do homem; Vida Cristã – vista como cumprimento da lei de Deus, uma idéia vista inclusive como um ascetismo intramundano; Igreja e Estado – semelhante ao entendimento de Lutero, entretanto a igreja invisível era vista como corpo dos eleitos, e o Estado com a função de ajuda ao povo, crendo-se que se poderia chegar ao estabelecimento de uma teocracia; e, por fim, a Autoridade das Escrituras – a qual deve ser obedecida acima de qualquer outra coisa, pois contém a “doutrina celestial”.

O último capítulo fala sobre o desenvolvimento da teologia protestante. Tillich afirma que não é possível oferecer uma história da teologia protestante, mas apenas mostrar várias correntes em seu desenvolvimento. É citada, então a ortodoxia: “a corrente surgida imediatamente depois da reforma”, da qual toda teologia atual depende, de um modo ou de outro. Ele afirma que até mesmo a teologia liberal tem essa dependência, embora no sentido de contrariá-la. Fala-se, inclusive, da importância política da teologia ortodoxa.

Como princípio desse pensamento, o autor lista: Razão e Revelação – enfatizando a importância da filosofia na teologia; e a questão do Principio Formal e princípio material – sendo o primeiro a Bíblia e o segundo a doutrina da justificação, discute-se aqui a inter-relação entre os dois.

A outra corrente citada é o Pietismo. Movimento que vem de uma das doutrinas da ortodoxia, a ordus salutis, enfatizando seu último estágio: a união mística. Essa corrente pode ser entendida como “a reação do lado subjetivo da religião contra o lado objetivo”. Ela enfatizava: a ética social; missões estrangeiras; teologia prática e bíblica, enfatizando a exegese; pequena igreja dentro de uma maior; a santificação; e o misticismo. O puritanismo é citado rapidamente nesse ponto, o que, ao meu ver, deveria receber um espaço maior como influência na teologia protestante.

E, por último, cita-se o Iluminismo, dando-se ênfase às fontes do mesmo. São elas: o socianismo, a autonomia humana, a harmonia, o conceito da tolerância e o deísmo inglês.

O final do livro parece deixar o assunto em aberto para uma nova discussão. Parece que ele apenas indica um caminho para se falar sobre a teologia protestante. Demonstrando que não é algo acabado, nem que se possa colocar conclusivamente na História do pensamento cristão.

Vejo a obra em questão como necessária a todo estudante de teologia, como complementação de seus estudos. Como citamos anteriormente, Paul Tillich não se preocupa tanto com a parte histórica em si, mas em especial com o desenvolvimento do pensamento cristão. Nesse sentido, percebemos também que ele fala a pessoas que já possuem algum conhecimento de história e teologia, não explicando muitos conceitos.

Mas é de grande importância justamente essa ênfase que ele dá em sua obra, no sentido de dialogar com a história, de entendermos o contexto de cada etapa do desenvolvimento do pensamento cristão, das reações surgidas e dos novos conceitos que surgem daí. É muito importante, também, notarmos o relacionamento da teologia com a filosofia, o que nos desafia a entendermos esse relacionamento e trabalharmos nele com o equilíbrio necessário.

Também essa obra, assim como o estudo dessa matéria em si, nos esclarece muitas coisas com relação ao nosso modo protestante de pensar e, também, com relação a outros pontos de vista, como o católico, por exemplo. Esse tipo de conhecimento abre nossas mentes e pode nos levar a um diálogo com outras tradições cristãs, e isso é muito salutar, principalmente diante de uma história (e contemporaneidade) de tantas divisões como a do cristianismo.

Assim, afirmo que a leitura do livro trouxe-me grande inspiração para a continuidade do estudo da teologia de uma forma mais madura. Reconhecendo alguns dos caminhos que a fizeram chegar até aqui. E é também um desafio colocado diante de nós com respeito à continuidade dessa teologia em nossos novos contextos que vão surgindo.

Que aquela simples mensagem do homem de Nazaré possa ser entendida e ensinada em todos os tempos e lugares, em toda sua verdade e clareza!

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