Efésios 6.10-20

Na carta aos Efésios, Paulo procura fortalecer a fé dos leitores falando sobre a gloriosa obra soberana de Deus em Cristo e no modo como isso alcançou cada pessoa. Tendo essa fé reafirmada, fala sobre as atitudes que vêm justamente como conseqüência da fé nessa obra maravilhosa.

Ele fala sobre a vida que receberam em Cristo, sobre a união entre pessoas de povos diferentes, sobre o projeto de Cristo para a igreja e sobre vários deveres práticos e morais dos crentes, inclusive quanto ao relacionamento familiar e entre servos e senhores. Para concluir a carta ele começa dizendo “quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder” (6.10).

É como se sintetizasse o significado dos preceitos que foram passados e aplicasse esse significado a outras situações que apareceriam. Para isso usa uma ilustração muito vívida para eles, usando a situação de guerra e da necessidade de uma preparação total como a que os soldados tinham.

A batalha

Antes de tudo – e até como preparação pra tudo o que virá – devemos ser fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Essa expressão “no Senhor” nos mostra onde devemos conectar nosso cabo de energia. Se conectarmos nas circunstâncias, perderemos a energia assim que elas mudarem; se conectarmos em nós mesmos, ficaremos esgotados; e em outros encontraríamos as mesmas fraquezas; mas  se estivermos em Deus, encontraremos sempre renovação de nossas forças pela força dele (Is 40.30,31). Comece pensando sobre onde seu cabo de energia está conectado.

Essa batalha pode nos trazer muitas surpresas, por isso é descrita como ciladas – armadilhas – do diabo. Não se trata de algo simples e fácil de resolver, por isso a ênfase na firmeza.

Seria mais fácil, a exemplo da guerra comum, que o inimigo fosse simplesmente outro homem, de outra etnia, assim, quem fizesse parte do outro grupo seria eliminado e tudo estaria resolvido. Não. Aqui o nível é mais profundo, é contra o que motivam tais homens a fazerem o que fazem. Nossa luta é contra “as forças espirituais do mal”, aquelas mesmas que, como ele já havia descrito, atuam nos filhos de desobediência e já havia atuado neles também (2.1-3).

Alguns tratam o termo “espiritual” como se referindo a alguma outra dimensão, ou até mesmo um mundo à parte com seus próprios embates e que, de alguma maneira refletem no nosso. Entretanto a Bíblia sempre mostra essa luta como algo ligado à nossa natureza pecaminosa e às conseqüências de nosso pecado. É interessante que a palavra traduzida para “espírito” – com relação aos seres humanos – é psiquê, que também é traduzida por mente, alma; ou seja, se refere a algo bem profundo em nós mesmos, ao mesmo tempo em que é visto como um poder que domina este mundo como um todo.

Seria difícil descrever todas essas ciladas malignas e tudo o que envolve essa batalha, mas Paulo sabe que a armadura provida por Deus é suficiente para resistir ao que quer que seja e a qualquer dia mau.

A ênfase não está na salvação ou na vitória final, mas em se manter firme e inabalável enquanto vivemos dentro do domínio maligno, mas já libertos dele. Não há falsas promessas de inexistência de lutas, mas de capacitação para passar por todas elas.

As peças da armadura

Não são dados detalhes sobre a batalha e os perigos em si, a idéia é que as atitudes que caracterizam as peças da armadura estejam na vida dos que lutam. Todas as peças devem ser usadas, e assim vemos também as atitudes que devem ser encontradas na vida do crente.

armadura de Deus 2

Cinto da verdade – Além de segurar as outras peças da armadura, o cinto dos soldados também ajudava na sustentação do próprio corpo. A verdade de Deus é a firmeza para nossa vida e para todas as atitudes da vida cristã. A verdade liberta e também nos dá um coração limpo, honesto e irrepreensível.

Couraça da justiça – A justiça é a verdade posta em prática. A couraça protegia o tórax dos soldados, justamente onde estão os principais órgãos vitais. Essa proteção vem de uma verdade que é buscada nas situações da vida e que procura estabelecer a justiça. É o oposto da hipocrisia.

Calçado do evangelho da paz – Os soldados precisariam andar muito e se mover com habilidade e firmeza, assim como aqueles que devem ser sal e luz neste mundo tenebroso. Estes precisam da preparação que o evangelho da paz lhes concede. Podemos ver tanto a preparação no sentido de ensino do evangelho, como do preparo que o evangelho para encararmos a vida de frente. Como disse C.S. Lewis: “Eu acredito no Cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor.”

O escudo da fé – Entre as ciladas do inimigo estão os “dardos inflamados”, ou flechas pegando fogo. Talvez elas não perfurassem a armadura, mas por estarem pegando fogo, iriam queimando e, assim corrompendo a própria armadura. As peças da armadura podem ser corrompidas pela dúvida e pelo medo, entretanto a fé servirá como um escudo para esse perigo.

Capacete da salvação – Sobre a cabeça deve estar a esperança da salvação, a esperança da salvação final, daquele dia em que a justiça será plena e teremos nossas lágrimas enxugadas. Essa certeza da obra de Cristo – na qual fomos salvos, estamos sendo salvos e seremos salvos – faz com que toda a luta tenha sentido e valha à pena, pois temos a certeza de que, no Senhor, o nosso trabalho não é vão (1 Co 15.57,58)

A espada do Espírito – A luta é real, para isso precisamos nos proteger, mas também atacar. Deus coloca em nossas mãos a mesma arma que Cristo usou para derrotar Satanás no deserto: sua Palavra. O próprio Jesus, na ocasião, não se utilizou de poderes sobrenaturais, mas do conhecimento profundo acerca da vontade de Deus. Essa é nossa principal arma.

A oração

A oração deve estar o tempo todo firmando, consertando e colocando em nós as peças da armadura. Essas atitudes são nos dadas por Deus por meio da fé e do Espírito que habita em nós, a oração é o meio para nos mantermos em comunhão.

Não é uma oração apenas para nós mesmos e para nossa própria armadura, mas para todos os irmãos.

Cada um de nós trava lutas específicas, e outras lutas travamos em conjunto, mas todos estamos juntos. Que vitória teria um soldado sobrevivente sozinho se todo seu exército fosse destruído? Por isso devemos nos fortalecer em oração, orar pela armadura dos outros e servirmos nós mesmos de proteção em tempos de fraqueza.

O próprio apóstolo pedia oração por ele, não porque se considerasse derrotado por estar preso, mas para que não tivesse medo de proclamar o evangelho.

Proclamamos o Evangelho com nossas posturas diante da vida e até mesmo da morte. Somos fracos, mas nos fortalecemos naquele que nos amou.

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