Em nossa cultura brasileira há um grande interesse por novelas. Mesmo que muitos digam que não gostam, a audiência delas é muito grande e, mesmo sem assistir, acabamos sabendo dos dramas de personagens que estão ali.

Há um fascínio sobre o drama de outras pessoas e seus comportamentos e escolhas, histórias que se parecem com nossos dramas pessoais, mas contadas com certo glamour e exageros.

Na Bíblia também há muitos dramas humanos, dramas também simples e muitas vezes sem graça – como consideramos nossos próprios dramas por tantas vezes, mas que acabam se tornando muito especiais, como os nosso também podem.

A história de Ana, mãe do grande profeta Samuel, poderia ser apenas mais um drama triste de uma mulher com uma rival, carregando em si uma limitação física e sonhando retribuir o amor dentro dos padrões de sua cultura. Ainda seria mal interpretada, julgada e, ainda assim, esperançosa.

É então que aparece o personagem principal da história e aquele melancólico drama humano se transforma numa história de grande consagração a Deus.

1Sm 1.1-28

O drama de Ana

Naquela época e cultura era comum e permitido que o homem tivesse mais de uma esposa, em especial quando esta não podia lhe dar filhos.

Ana se sentia mal consigo mesma por não poder gerar filhos e, para piorar, a outra gerava muitos filhos a Elcana, o marido; e Penina fazia questão de menosprezá-la e irritá-la.

Mesmo assim seu marido a amava, mais do que a outra que gerava muitos filhos, mas ela se sentia mal por não poder retribuir esse amor de maneira prática, de acordo com sua sociedade e cultura.

Gerar filhos era muito importante porque, além do relacionamento familiar, os filhos representavam a continuidade do nome do homem e até o sustento na velhice. Por isso, embora Elcana a amasse, e procurasse tranqüilizá-la quanto a isso, ela se sentia mal consigo e pelas provocações de Penina.

O voto de Ana

Elcana, marido de Ana e Penina, era temente a Deus e sempre cumpria suas obrigações religiosas junto de suas mulheres e filhos. É bem provável que hoje a atitude religiosa dele seja julgada como mera obrigação, mas o texto dá a  entender que, embora a religiosidade da época fosse desenvolvida de modo diferente, ele levava muito a sério.

Podia até ser que Ana, por causa do corações atribulado, fosse pra lá um tanto sem vontade, mas foi justamente essa obrigação que lhe deu a oportunidade da oração intensa e honesta que ela teria naquele local.

Ana estava atribulada, e buscou mais do que simplesmente cumprir uma obrigação, ela colocou sua aflição de modo humilde diante de Deus. Ali era o lugar certo para “derramar sua alma” (termo muito sugestivo usado pela versão revista ae atualizada no v. 15).

Ao que tudo indica, a sinceridade não era algo comum naquele santuário, pois o próprio sacerdote chegou a interpretar a atitude de Ana como embriaguês. E imagine como Ana poderia ter ficado ofendida e abandonado todo o seu propósito, jogando a culpa naquele sacerdote insensível com uma atitude, no mínimo, infeliz.

Entretanto Ana não desistiu por isso, mas explicou-se a Eli, foi abençoada e se alegrou, antes mesmo de receber a reposta a seu voto. Sua verdade e seu propósito eram maiores que seu orgulho, por isso, ao invés de se frustrar, explicou a verdade de modo firme e sincero.

O sacerdote Eli voltou atrás e, até num gesto de desculpas, abençoou-a. E Ana, então, saiu dali já mais alegre e aliviada, voltando inclusive a comer, coisa que a depressão não estava mais a deixando fazer.

Antes mesmo da resposta de sua oração, ela se alegrou. Só o fato de por sua angústia pra fora – ser ouvida e reafirmar sua esperança – já fez muita diferença em sua vida.

O cuidado para com Samuel

Ana terminou suas obrigações religiosas junto à sua família, mesmo com todas aquelas dificuldades. Mas, com certeza, o sentimento no final foi bem diferente.

Quando voltaram para casa, fizeram sua parte também, tendo normalmente a relação sexual, e foi nesse momento que Deus lembrou-se dela e seu pedido e, aproximadamente 9 meses depois, lá estava Samuel, cujo nome significava exatamente o que havia acontecido:  “do Senhor o pedi”.

Ela, então, cumpriu com suas obrigações de mãe em primeiro lugar. Era momento de cuidar daquele filho tão esperado, amamentá-lo e cuidar de todas as suas necessidades, como bem faz toda mãe.

No ano seguinte ela nem foi ao templo com sua família, ela não estava sendo relapsa com sua obrigação religiosa, especialmente agora que havia recebido a bênção, mas estava justamente valorizando e cuidando daquilo que Deus lhe dera, preparando também para devolver a Ele mesmo.

Não deixou Deus de lado pelo filho nem o filho por causa de Deus, mas servia a Deus cuidando do filho que seria consagrado a ele; e cuidava do filho como um presente de Deus.

As boas práticas religiosas são realmente muito importantes, como dissemos até sobre a história dela mesma, mas é preciso entender que Deus é o Deus da vida como um todo, que está presente em todos os processos e que deve ser cultuado em todos os momentos, inclusive nas coisas corriqueiras do cotidiano. Não que isso substitua por completo os momentos de culto comunitários, mas, na verdade, uma coisa deve complementar a outra.

Esse cuidado continuou mesmo depois de sua consagração no templo (2.18-ana da um presente para Deus 121). E Ana ainda teve outros filhos e filhas depois de Samuel.

A consagração de Samuel

Ana volta ao templo no devido tempo para levar seu filho e ofertá-lo a Deus. Sua alegria a levou a ofertar até mais do que o exigido. Não era por obrigação ou por imposição da parte de Eli (que nem falara nada sobre isso), mas puramente um modo de demonstrar sua alegria e agradecimento, até por que, na verdade, entregaria algo muito valioso ainda.

Voltou lembrando que havia orado e recebido o que pedira. Talvez o sacerdote nem se lembrasse mais, pois já fazia alguns anos, mas ela fez questão de ir lhe lembrar.

Então, conforme havia prometido, entregou seu filho ao serviço daquele tabernáculo, para ser treinado e se formar também um sacerdote ou algum tipo de auxiliar. Samuel era ainda criança, o que podemos imaginar que fosse uma situação bem emocionante para a mãe, entretanto, por sua fé, ela sabia que estava fazendo o melhor para ele e também sendo fiel à sua promessa. Ela viu essa entrega não como um sacrifício, mas como algo devolvido a Deus (1.28 e 2.20). E esse é o sentido de toda oferta que se pretender entregar a Deus.

Samuel se tornou sacerdote, juiz e profeta. Foi personagem principal na transição do período dos juízes para a monarquia na História de Israel e ungiu os dois primeiros reis daquela nação.

Aquele simples drama melancólico de Ana se tornou em algo muito importante para ela e para toda uma Nação e para todo o povo de Deus. Não que todos os dramas tenham um final tão grandioso assim, mas é em Deus que nossas vidas e dramas diversos encontrarão seus sentidos e valores especiais.

E isso não tem nada a ver com clichês de novela, mas com vida real, que só é real mesmo com o Criador dela.

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