Lei ou graça? Fé ou obras?

Essas questões são importantes e complexas, por isso mesmo tendem a ser mal interpretadas, criando extremos de um lado e de outro. Ao longo de história cristã, variam como um pêndulo entre tais extremos, de acordo com as ênfases e interpretações das épocas e movimentos dentro delas. De modo geral podemos ver as seguintes características dessa variação:

  • Quando a ênfase está na lei há grande busca pela justiça, pela obediência e pelas atitudes corretas; mas acaba levando também ao medo, às condenações, à hipocrisia, à meritocracia e às próprias “brechas” da lei.
  • Quando a ênfase está na graça há o sentimento de liberdade, de aceitação, de humildade e de amor; mas também começa a se deturpar para a irresponsabilidade, para mesquinhez, para inatividade e até mesmo a indiferença com a justiça.

Mas será que esse conflito e esses extremos são necessários?

Desde a Reforma Protestante temos enfatizado a graça como única causa para a salvação, vendo a obra de Cristo como completa e suficiente para isso, como deixam claro especialmente as cartas de Paulo na Bíblia. Mas como fica a lei de Deus dentro dessa realidade? Ainda temos que obedecê-la ou não faz mais sentido? Qual seu valor se Cristo já a cumpriu na cruz?

Em Romanos 7 Paulo fala da função da lei até o sacrifício de Cristo e surpreende a todos, mostrando que ela serviu para expor o pecado do homem, especialmente daquele que tenta obedecê-la. Não que a lei fosse má, pelo contrário, ele afirma que a lei é santa, justa e boa, entretanto o pecado é capaz de usar algo com essas maravilhosas características, para seu mau propósito. Com isso ele mostra que o problema do homem é muito mais profundo que não conseguir obedecer a lei: ele é, na verdade, incapaz disso.

Paulo teve muita experiência com isso, foi um fariseu exemplar e corajoso, chegou a perseguir cristãos por serem hereges; e experimentou profundamente a frustração de desejar cumprir rigorosamente e não conseguir. Por isso descreve de maneira tão vívida a experiência que tantos ainda tinham: a de querer fazer o bem, mas de encontrar em seus membros uma força que os impede.

Todos nós conhecemos essa experiência, mas a nossa saída, na maioria das vezes, é ignorar qualquer lei, mesmo que seja a da consciência. O antídoto para o sentimento de culpa tem sido o de não se ter expectativas e abandonar a busca pelo certo. Como li em algum lugar: “hoje é considerado pior você apontar o mal do que praticar o mal”.

Entretanto, Paulo, diante dessa realidade terrível, reconhece sua miséria e faz a pergunta certa: quem me livrará do corpo dessa morte? Pois o salário do pecado é a morte.  É como se a lei levasse, antes de tudo, ao caminho do arrependimento; levasse a reconhecer a boa vontade de Deus, e deixasse claro que, por melhor que a consideremos, não é nossa vontade interior.

Não se trata de remorso, ou seja, ficar remoendo os pecados cometidos; nem mesmo de ficar se culpando ou justificando suas culpas; mas é o reconhecimento de nossa triste situação diante de Deus e de sua vontade, que é santa, justa e boa; o reconhecimento de nossa própria confusão interior.

Nesse momento, a única coisa a se fazer é receber a graça de Cristo; é reconhecer que ele morreu em nosso lugar e nos livrou “do corpo dessa morte”. É isso que significa “arrepender-se e crer no Evangelho”.

Quem não se importa com a lei – e menos ainda com sua incapacidade de cumpri-la – não se arrepende, diria que não tem do que se arrepender; quem acha que cumpre a lei, mesmo com alguns deslizes, também não se arrepende, pois considera que tem acertado na maioria das vezes; e quem não se arrepende não sente que precisa de Cristo nem de sua graça, sente-se auto-suficiente.

Mas aqueles que se arrependem e crêem se entregam a Cristo, e para eles já não há mais condenação, como o próprio Paulo argumenta na continuação do texto (Rm 8.1). Cristo já recebeu a condenação da lei pelo pecado: ele morreu pelo pecador.

Assim, aquele que está em Cristo está liberto daquilo que fazia com que a santa, justa e boa lei de Deus se tornasse algo ruim; e ela agora terá outro propósito para ele.

Em Tito 2.11 e 12, Paulo diz que “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente”. Ou seja, a mesma graça que salvou o pecador de sua incapacidade de obedecer a Deus, é a mesma que agora quer educá-lo a viver no mundo em que se vive: de modo sensato, justo e piedoso.

É nesse sentido que a lei, e toda a Escritura, servirão de referência, de “luz para o caminho”, como diz o tão conhecido Salmo 119.11.

Bíblia_coração_evangelhoNão se trata mais de uma obediência mecânica e contra a vontade, como Paulo tão bem descreveu em Romanos 7, mas de uma nova vida que tem um novo caminho, caminho este que é indicado pela Escritura e mesmo pelo uso certo da lei. E a lei não será mais um teste pra ver quem conseguirá se salvar, mas a referência do caminho de quem agora segue a Cristo.

É somente pela graça de Cristo que entendemos para que serve a lei de Deus. Por isso não deve haver conflito, como aquele sugerido no início, mas caminhada, discipulado e santificação.

Assim, cresçamos na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo (cf. 2 Ped 3.18).

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