Deus não pode ser limitado a imagens

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Alguém disse que “Deus criou os homens à sua imagem e semelhança e eles, em retribuição, criaram deuses à sua própria imagem e semelhança”.

No primeiro mandamento Deus já proibiu a idéia de se conceber outro deus diante dele – enfatizando sua identidade e obra naquele povo – entretanto fazia-se necessário ser mais específico quanto a uma prática comum da religiosidade humana: a produção de imagens religiosas e o culto a elas.

Essa produção de imagens vem diretamente da imaginação e dos anseios de quem as faz e de quem as usa, e por isso não é capaz nem mesmo de representar Deus, que é invisível, eterno e infinito. Assim, a imagem só pode representar, no máximo, a pessoa que a cultua, ao que o salmista ironiza: “Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e quantos neles confiam” (Sl 115.8).

Nesse ponto deve-se também fazer uma distinção com relação à arte, não há como negar a beleza de esculturas, pinturas e tantos outros tipos de expressões artísticas. A diferenciação deve ser feita justamente na intenção e no uso de tais imagens, ou seja, elas devem ser vistas como realmente são: expressões da imaginação e dos anseios humanos. Não há como negar que a beleza é exaltada também na Bíblia, especialmente a beleza da própria natureza. Até mesmo a arca da aliança – e de outros itens que fariam parte do culto a Deus – deveria ser feita com beleza e arte, inclusive com significados profundos, mas nunca como objetos de adoração.

Mas há uma grande diferença entre a beleza proporcionada pela expressão artística e a adoração através de uma imagem. Não se trata apenas de uma questão estética, mas de verdadeira fé, confiança e busca.

O segundo mandamento está diretamente ligado ao primeiro, o qual enfatiza que Deus é único, tanto por seu ser como por sua obra, e nada pode substituí-lo ou mesmo representá-lo. Entretanto, infelizmente, essa substituição vem acontecendo desde os primórdios, como reflexo do não reconhecimento da glória do Deus único, como disse Paulo: “e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis (…) Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém.” (Rm 1.23 e 25).

Ou seja, o problema central está na questão da fé e da confiança e onde elas são colocadas. Se o foco não estiver no Deus que “É” e que “Salva”, estará em outras coisas; e essas “outras coisas” é que realmente são representadas por imagens e ídolos em geral.

Por exemplo, no episódio do bezerro de ouro (Êx 32), embora o povo tivesse visto aquela grande manifestação de Deus e tenha sido salvo por ele, sentiu medo do deserto, impaciência pela volta de Moisés e desconhecimento sobre o Deus que os havia libertado. Esses sentimentos ruins levaram-nos a buscar algo que lhe trouxesse a sensação oposta, e de alguma maneira aquela imagem lhes proporcionava essa sensação, independentemente tanto da realidade do Deus verdadeiro quanto do ídolo criado. Acabava sendo só uma questão de sensação.

Por isso mesmo é que a idolatria atual não se limita a imagem de outros deuses, na verdade a cultura ocidental e pós moderna já não tem muito daquele tipo de idolatria antiga (embora ainda tenha), mas nem por isso deixou de trocar a glória de Deus por outras imagens ou ídolos mais próximos de suas ansiedades.

Nesse sentido, as novas “imagens de escultura” podem ser muito diferentes e variadas, muitas inclusive sem a aparência religiosa em si, mas mantendo a mesma intenção daquelas antigas. Assim, até mesmo a Bíblia enquanto livro, a denominação religiosa, os entretenimentos, o carro, o dinheiro, artistas e tantas outras coisas podem se tornar ídolos no mesmo sentido daqueles ídolos antigos ao que o mandamento diretamente se referia.

Qualquer coisa que substitua a glória de Deus em minha vida – e que, na prática, leva minha confiança pra outro lugar – se torna um ídolo.

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