Mateus 4.1-11

Nossa vida é repleta de escolhas, a todo o momento estamos optando por algo, do mais banal ao mais crucial, nem sempre sabemos qual é essa importância e nem qual a escolha certa. Isso é verdade no curso de nossa vida e também em nossas decisões morais. Para estas estamos até acostumados a pensar naqueles desenhos que mostram duas consciências, uma vestida como um anjo e outra como um demônio. Ali vemos claramente o bem e o mal, a verdade e a mentira, o certo e o errado; entretanto, com o passar do tempo começamos a encontrar questões que não são tão claras, às vezes temos até que optar entre duas verdades, o que é mais difícil ainda.

Nesse texto encontramos um dos principais episódios da vida de Jesus, uma prova difícil que Ele teve que enfrentar. Era um momento de total privação e aridez: 40 dias no deserto, uma prova que simbolizava os 40 anos que o povo hebreu passou no deserto.

Nesse episódio Jesus também vivencia uma situação real que, de uma forma ou de outra, se relaciona com situações que enfrentamos, as quais acabam se aparecendo com um deserto árido e sem esperança. Um deserto onde nossos sentidos ficam confusos, onde nossas prioridades são postas à prova, onde a fé parece uma miragem, onde nossas necessidades básicas são transformadas em tentações. Numa situação dessas é difícil pensar, decidir e responder de maneira correta. Uma coisa é afirmar algo quando tudo está bem e estamos confortáveis, outra coisa é quando passamos por um deserto.

Jesus era verdadeiramente homem, com certeza já estava debilitado e esfomeado diante da tentação de satanás. O tentador chega a Jesus de maneira muito inteligente, ele não traz consigo propostas absurdas ou, mesmo aparentemente, pecaminosas, mas traz verdades ligadas às necessidades sofridas. Era verdade que Jesus estava com muita fome e que, como Filho de Deus, tinha poder para transformar aquelas pedras em pães; era verdadeira a citação do Salmo 91.11-12; era verdade que satanás tinha poder sobre aqueles reinos e poderia fazer um acordo com Jesus; mas, às vezes, a verdade não é suficiente.

LOBO-EM-PELE-DE-CORDEIROQuando a Verdade Não é Suficiente?

1)      Quando ela se coloca na frente da Palavra de Deus (1-4).

Jesus estava faminto e tinha poder para fazer aquela transformação. Com essa atitude ele poderia até “envergonhar” o diabo, provando que era filho de Deus.
Nós também temos muitas necessidades e podemos fazer muitas coisas para supri-las. Essa, inclusive, tem sido uma grande motivação em nossas vidas.
“Não havia nada de errado em fazer um milagre e alimentar-se, ele mesmo faria um milagre para alimentar multidões. Em nenhum lugar está escrito que não se deva se alimentar, e Deus não é carrasco para fazer seu próprio filho passar fome”. Argumentos assim nos parecem muito convincentes.
Mas havia uma verdade maior, a de que o homem não vive só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8.3). O momento de jejum estava ligado ao relacionamento de Jesus com o Pai; o pão viria depois.
É verdade que necessitamos de pão, assim como de outras coisas. Mas, acima disso, é verdade que vivemos da Palavra de Deus (Mt 6.33; 1Co 6.12).

2)      Quando ela distorce a Palavra de Deus (5-7).

O diabo é muito esperto, quando viu que Jesus citou um texto bíblico, tratou de basear sua tentação em outro (Sl 91.11-12).
A própria Bíblia é considerada “a mãe de todas as heresias”. Ela é o livro mais vendido no mundo e lida e interpretada por todo tipo de pessoa e religião, umas com boa intenção, outras nem tanto.
Muitas vezes ela é usada mais para justificar pensamentos e práticas pré-estabelecidas que para determinar tais pensamentos e práticas. Assim ela é distorcida e usada para qualquer propósito.
Muitas pessoas buscam poder e reconhecimento desesperadamente, e um dos caminhos que mais saciam essa busca é o religioso. Jesus foi desacreditado pela maioria em seu tempo, uma atitude dessas poderia reverter esse quadro. Aparentemente não havia nada de errado e tinha até “base bíblica”.
Mas Jesus sabia que a proteção divina estava ligada à confiança do crente, e não à tentação por parte deste. Ele não se limitou ao versículo apresentado fora do contexto, mas foi mais fundo no conceito contido ali. Então sua resposta foi outro texto bíblico, mas com o conceito certo: “Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Dt 6.16). Confiar em Deus é uma coisa, tentá-lo é outra.

3)      Quando ela contraria a Palavra de Deus (8-11).

Por fim vem a investida mais direta do diabo. Ele apresenta os reinos do mundo, todos dominados por ele: o príncipe desse mundo (Jo 14.30); e propõe um acordo a Jesus: uma mera adoração por tudo aquilo.
Imagine quantas pessoas já sonharam em fazer um acordo desses, quantas até tentaram!

É interessante que até o diabo sabia o preço de uma alma, e por isso ofereceu todos os reinos do mundo, entretanto Jesus sabia melhor ainda e sabia que todos eles não eram nada diante da adoração a Deus. Quantos se vendem por bem menos?
Jesus poderia pegar um atalho que não passaria pelo sofrimento da cruz. Ele poderia até enganar o diabo e, depois que recebesse os reinos, fazer um governo de paz, amor e justiça.
A tentação pelo poder, ainda que seja para fazer o bem, é ainda muito forte no mundo, levando pessoas a abrirem mão de seus princípios (alguns abrem mão por muito menos).
Jesus nem discute se aqueles reinos pertencem mesmo ao diabo, nem pensa sobre o que poderia fazer com eles. Para Jesus só importa o mandamento, o princípio: Adoração só a Deus (Dt 6.13).

É nesse momento que Jesus expulsa Satanás de sua presença e, pelo poder de Deus, é o que devemos fazer também: sujeitar-nos a Deus e resistir ao diabo (Tg 4.7).

Conclusão

O que vemos é que a verdade, quando não é suficiente, se torna mentira, se torna “lobo em pele de cordeiro”. É necessário que conheçamos a Palavra de Deus e sua Verdade (Jo 8.32) para provar as “verdades” que surgem, mesmo quando passamos por momentos difíceis.

Jesus não usou nenhum poder sobrenatural pra vencer o diabo, apenas a sabedoria das Escrituras, a mesma que está disponível a nós.

Ao final de tudo os anjos vieram e serviram a Jesus, cremos que Deus nos mandará também salvação e consolo, do modo como nos apresenta corretamente o Salmo 91.11-12.

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