Serás a favor da vida

Êx 20.13

Esse talvez seja o mandamento mais conhecido dos dez. Muito citado quando alguém quer mostrar que é bom – ou que não é tão mal – ao dizer: eu nunca matei, nem roubei, nem fiz mal a ninguém, etc.

O conceito do “não matarás” também implica em grandes questões éticas como a pena de morte, o aborto e a eutanásia. Questões importantíssimas e polêmicas que devem ser debatidas. Entretanto, meu objetivo neste artigo é enfatizar a essência do mandamento e aplicá-la a situações mais cotidianas das nossas vidas. Creio ser importante proceder assim, pois às vezes as pessoas se escondem atrás de grandes questões polêmicas e, assim, deixam de ver o mandamento em seu próprio cotidiano. Ao mesmo tempo, quando um conceito bíblico é aplicado constantemente no dia a dia, fica mais fácil aplicá-lo a questões maiores e mais específicas.

O termo utilizado no versículo dá a idéia primeira de assassinato, e isso tinha especial importância para um povo em formação, com mentalidade maldosa e com poucas referências sobre vida e morte.

Essa mentalidade maldosa ainda é comum hoje, pois vem do nosso pecado individual e estrutural do mundo. São tantos crimes de assassinato e tanta ênfase da mídia sensacionalista que acabamos ficando insensíveis. Também encontramos fortemente a nós o desejo de vingança e há momentos onde realmente desejamos a morte de alguém. Parece pesado falar assim, mas pense, por exemplo, em filmes onde o vilão é morto depois de ter maltratado tanto o herói. Perceba o quanto aquela morte nos alivia.

Não quero entrar agora no mérito de tal morte ser justa ou não, mas apenas indicar esse sentimento dentro de nós, até porque as justificativas para tal ato vão variar de acordo com o conceito de justiça de cada um e, assim, a maioria dos assassinos pode oferecer justificativas para seu crime. E mesmo que não cheguemos às “vias de fato”, temos esses sentimentos e possíveis justificativas dentro de nós; distorcidos pelo pecado.

Assim, o que vemos é que o grande problema do assassinato está justamente dentro de nós. Por isso mesmo é que Jesus amplia esse conceito no sermão do monte, apresentando a raiz do assassinato: o ódio (Mt 5.21,22; 38-48).não matarás

Mesmo a ideia da vingança justa do “olho por olho e dente por dente” é substituída pela atitude pacífica; e acredito que esse se devia ao fato de sermos maus para realmente agirmos com justiça, especialmente na hora da vingança. A atitude pacífica também não é uma atitude de fraqueza, como geralmente se supõe, mas de força para ser capaz de oferecer a outra face; força para “agir” ao invés de apenas “reagir”. E assim, especialmente nesses textos de Mateus, vemos que Jesus vai substituindo as idéias de ofensa, vingança e ódio – ainda que considerados justos – pela ordem do amor ao próximo e, inclusive, ao inimigo. Ele vai à raiz do “não matarás”.

Por isso, o cumprimento positivo do mandamento está no amor, ou seja, não é simplesmente deixar de matar, mas agir em favor da vida. Agir por meio daquele que veio para que tivéssemos “vida, e vida em abundância” (Jo 10.10). Assim, cumprimos o mandamento tendo justamente o sentimento oposto a tudo isso: o amor (Rm 12.9-21).

Ser contra a morte é ser a favor da vida e fazer por ela tudo o que pudermos. Como disse João Calvino falando sobre este mandamento:

“Decorre disso que o mandamento determina que façamos o possível para conservar a vida do nosso próximo, empregando fielmente os recursos necessários. Para isso devemos providenciar para o próximo o que lhe for conveniente, e evitar ou impedir o que lhe for prejudicial. Além disso, devemos ajudá-lo e socorrê-lo quando estiver em perigo ou em dificuldade.”

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