Serás Fiel aos seus compromissos

Êx 20.14

Adulterar é ser infiel, ou seja, fazer uma aliança – ou compromisso – e descumprir a sua parte e, assim, trair a confiança da outra parte.

Muitos até entendem isso e ainda consideram a infidelidade como um delito grave de certa maneira. Todos os que já foram traídos sabem o quanto isso é doloroso e reclamam da infidelidade do outro, mas dificilmente vêem suas próprias infidelidades da mesma maneira. Na verdade, nossa tendência é relativizar a aliança, ou compromisso, que fizemos. Dessa forma, o que mais vemos são pessoas evitando assumir compromissos sérios, ou assumindo somente compromissos mais leves e que não exijam muito – os quais também não garantem muito.

E assim percebemos que o conceito de aliança, como um compromisso sustentado simplesmente pela palavra de quem o fez, vai desaparecendo de nossa cultura. Timothy Keller, em seu livro “O significado do casamento”, diz o seguinte:

Os sociólogos argumentam que, na sociedade ocidental contemporânea, o mercado se tornou tão dominante que o modelo de consumo caracteriza cada vez mais os relacionamentos que, historicamente, eram alianças, inclusive o casamento. Hoje em dia mantemos os vínculos com as pessoas enquanto elas suprem nossas necessidades por um custo aceitável. Quando deixamos de lucrar com a relação – ou seja, quando o relacionamento parece exigir de nós mais amor e apoio do que estamos recebendo – saímos dele para “minimizar o prejuízo”. Essa abordagem também é chamada “utilitarismo”, um processo pelo qual as interações sociais são reduzidas a relações de troca econômica. Desse modo, até mesmo a idéia de “aliança” está desaparecendo de nossa cultura.

Apesar das explicações que possam vir desse modelo de consumo – o qual usamos para basear nossos relacionamentos – o sétimo mandamento nos chama a sermos fiéis às nossas alianças e compromissos. Como sintetizou Jesus: Seja o teu “sim”, “sim”, e o “não”, “não”; o que passar disso vem do maligno (Mt 5.37).

Esse conceito visa primeiramente o casamento, que é a aliança mais explícita que fazemos ainda hoje diante de tantas testemunhas. Fazemos um compromisso de fidelidade para com a pessoa que ficará mais próxima de nós pelo resto da vida, mas mesmo assim temos grande dificuldade de cumprir e, com o enfraquecimento do nosso conceito de aliança, vamos caindo cada vez mais. Ao mesmo tempo, creio que o mesmo conceito e a mesma dificuldade se aplicam a outros relacionamentos onde fazemos aliança ou assumimos compromisso: com Deus, com a família, com bons amigos, com a igreja, etc.

Nossa natureza, na verdade, é oposta à aliança por ser grandemente egoísta. E, assim, o adultério é um problema muito mais profundo em nosso ser. Foi nesse sentido que Jesus desmascarou aqueles que até gostavam de apedrejar adúlteras ao dizer: Vocês ouviram o que foi dito: Não adulterarás. Mas eu lhes digo: qualquer um que olhar para uma mulher e desejá-la, já cometeu adultério em seu coração (Mt 5.27).

O divórcio até foi permitido pela Bíblia, mas como uma concessão pela “dureza dos corações” (Mc 10.5), o que demonstra como é profundo o problema. E sendo um problema muito mais profundo, e ligado à nossa natureza egoísta, devemos levar isso mais a sério e buscar a transformação de nosso ser através de Cristo. Se temos dificuldades pra entender o conceito de aliança, e mesmo para cumprir com nossos compromissos, precisamos rever nossa natureza e caráter.

Nesse ponto creio que muitos perguntarão sobre situações diversas, casos difíceis onde a outra parte tenha quebrado sua parte e outros tipos de dificuldades. Creio que muitos casos devam ser tratados individualmente, e que as “durezas de corações” sejam algo sério a serem considerados, mas é preciso tomar cuidado para não valorizar mais as exceções do que a regra, o que nos levaria à perda da idéia de aliança.

De modo positivo, cumprir este mandamento significa ser fiel à sua própria palavra – e podemos aplicar isso a todos os relacionamentos. É poder encarar as próprias responsabilidades sem precisar se esconder delas. É ser aquilo que tanto esperamos dos outros.

mesmo brigadosAliança é uma combinação extraordinária entre lei e amor, como diz Timothy Keller. As regras e responsabilidades dão forma e segurança ao que foi expresso pelo amor; e o amor dá sentido e profundidade a tais regras e responsabilidades.

Se não tivéssemos o compromisso de cumprir nossas promessas, jamais seríamos capazes de preservar nossa identidade; seríamos condenados a vagar desamparados e sem rumo pelas trevas do próprio coração solitário, presos às suas contradições e ambigüidades. (Hannah Arendt)

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