Tenha como ajudar

Êx 20.15

Furtar é tomar algo de outra pessoa sem ameaça, quando há ameaça à pessoa é chamado “roubo”, em ambos os casos alguém se beneficia com o prejuízo do outro.

De modo geral o mandamento se refere a ambos e até mesmo ao rapto de pessoas. A palavra hebraica ganav – traduzida por “furtar” – é usada algumas vezes até para “enganar”, que literalmente seria “furtar o coração”. Com isso vamos percebendo que o conceito se refere tanto a bens materiais como imateriais. É interessante como em Jr 23.30 Deus fala sobre os falsos profetas como aqueles que furtam as suas palavras, ou seja, falam o que bem entendem em dizem que foi Deus que disse.

É comum os que se considera “pessoas de bem” pensarem que não passam por esse tipo de tentação. Quando alguém quer dizer que é bom logo diz que “não rouba, nem mata, nem faz mal a ninguém”; e com isso até tenta esconder seus “pequenos delitos”.

Entretanto, ao invés de nos escondermos atrás dessas generalizações, é importante pensarmos sobre as influências que podemos ter sobre nossa natureza pecaminosa para que estejamos vigilantes.

A “teoria das janelas quebradas”, desenvolvida em 1982 pelo cientista político James Q. Wilson e pelo psicólogo criminologista George Kelling, fala sobre como a desordem pública, mesmo que seja do ambiente, pode incitar a criminalidade mesmo em pessoas consideradas “de bem” (fonte:http://jus.com.br/artigos/18690/broken-windows-theory-ou-teoria-das-janelas-quebradas). E temos comprovado essa teoria em nossa sociedade.

Não que a desordem seja a única explicação para a criminalidade, mas não deixa de ter grande influência, especialmente em quem se acha imune. Vivemos num país onde o termo “ladroagem” é muito usado, desde um jogo de futebol aos altos escalões da política. Com isso, ao mesmo tempo em que todos se vêem como vítimas – e nunca causadores – também sempre têm a desculpa de seu delito ser “menor” que dos grandes corruptos.

Viver nesse meio pode nos influenciar em certas ocasiões ou, no mínimo, nos deixar indiferentes a delitos que consideramos menores e até mesmo ao comodismo diante da injustiça social. João Calvino, comentando sobre este mandamento, diz o seguinte:

Todos os meios utilizados pelos homens para enriquecimento com prejuízo de outros, afastando-se da sinceridade cristã, que deve ser mantida com carinho, e agindo com fingimento e astúcia, enganando e prejudicando o próximo – os que assim procedem devem ser considerados ladrões. Embora os que agem desse modo muitas vezes ganhem na defesa de sua causa diante do juiz, Deus não os considerará como outra coisa senão ladrões. Porque ele vê as armadilhas que as pessoas da alta sociedade de longe armam para pegar gente simples em suas redes; ele vê os pesados impostos e taxas que os grandes da terra impõe aos pequenos, para oprimi-los; ele vê como são venenosas as lisonjas utilizadas por aqueles que querem destruir o próximo por meio de mentiras e outras formas de falsidade. Essas coisas geralmente não chegam ao conhecimento dos homens.

É contra tudo isso que o mandamento é colocado, ainda que em palavras tão curtas. E deve fazer parte de nossa ética, tanto pessoal quanto social.

estenda a mãoE, mais ainda, devemos obedecer a esse mandamento de modo positivo. Quando apenas se diz “não furtarás”, alguns podem até se acomodar em não fazer isso – o que é bom – mas a Bíblia traz algo ainda mais profundo na prática desse conceito, que deve ser vivenciado por quem está em processo de santificação. Em Efésios 4.28 encontramos o seguinte:

Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com o que acudir o necessitado.

É mais que não furtar, é trabalhar e fazer com as próprias mãos o que é bom. Ao invés de usar as mãos para prejudicar alguém, usá-la pra fazer o bem. É notável que o conceito não para aí, como se bastasse enriquecer-se de modo lícito, mas fala do ganho pessoal e honesto como uma oportunidade e capacidade de ajudar quem esteja necessitado.

Há realmente um grande problema em nossa sociedade com relação à criminalidade, formada por necessidades reais, injustiça social, “janelas quebradas”, egoísmo, maldade, enfim: o pecado e suas conseqüências. Aqueles que crêem são chamados a serem sal e luz nesse mundo, não apenas deixando de fazer algumas coisas, mas agindo de forma altruísta em meio a essa loucura, “para que vejam vossas boas obras e glorifiquem ao Pai que está nos céus” (Mt 5.16b).

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