Não dirás falso testemunho contra o teu próximo

passarinho fechando a boca do outro

Êx 20.16

Mentira, falsa acusação, difamação, fofoca: é contra isso que o mandamento se coloca.

Difamar é furtar a maior riqueza que alguém pode ter, conforme o livro de Provérbios: Ter boa reputação é melhor que tirar a sorte grande; ser bem estimado pelos outros é melhor que ter muito dinheiro no banco. (Pv 22.1)

Encontramos essas atitudes em todos os níveis da sociedade, desde as fofocas de um pequeno grupo à “indústria” de boatos no meio político e empresarial.

Nas redes sociais cansamos de ler pessoas reclamando por serem criticadas e tentando se auto-afirmar diante das críticas. Mas sempre como vítimas e nunca como causadoras.

É interessante que todos reclamem disso, todos sofram e se defendam das difamações, entretanto sua prática continua…

Não é estranho? Se todos são contra isso, porque a prática não diminui?

A verdade é que acabamos arranjando muitas justificativas para levantar falsos testemunhos, fingindo que estamos denunciando o mal e buscando a justiça.

Realmente é algo bom e importante denunciar o mal e buscar a justiça. E, quando o testemunho é verdadeiro, ele tem essa função: “julgar pela reta justiça” (Jo 7.24).

Julgar com justiça envolve verdade, conhecimento do caso, provas, responsabilidade, etc. Assim se pode levantar um testemunho verdadeiro e, nesse caso, a intenção que motiva tal testemunho faz toda a diferença.

Mas, ao invés disso, o mais comum é agirmos em meio à desconfiança e à dúvida, apontando mais para os indícios que para os fatos. É comum o ditado: onde há fumaça, há fogo. É verdade, mas será que podemos afirmar quem foi que pôs o fogo? Será que a pessoa, em quem estamos vendo a fumaça, ateou o fogo ou foi queimada? Devemos incriminá-la ou salvá-la?

Muitos até se utilizam do texto de 1 Ts 5.22 para justificar a atitude de julgar sem conhecer, interpretando-o da seguinte maneira: eu não tenho conhecimento suficiente do assunto, mas me “parece” mal, e se me “parece” mal é porque é errado. Entretanto se esquecem que “julgar sem conhecer” é levantar falso testemunho. O próprio texto de Tessalonicenses, anteriormente, diz: “julgai todas as coisas e retende o que é bom”.

E, se não temos base para o falso testemunho que estamos levantando, de onde vem tanto conteúdo? Jesus disse o seguinte: “Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas coisas que tornam o homem impuro. Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias” (Mt 15.18,19). O texto de Tiago 3.1-11 é uma forte repreensão sobre os males que a língua pode causar.fofoca

É preciso ficar muito atento, pois muito do falso testemunho tem feito parte de nossas práticas, até mesmo dentro da igreja. Por exemplo: Nas reuniões de oração, com a idéia de pedir por alguém com problemas morais, acabam expondo tal pessoa com todos os pré-julgamentos, tanto de quem fala quanto de quem ouve. É preciso fazer isso com discrição e com as pessoas certas, num sentido claro de ajudar e não apenas de espalhar. Ziel machado diz uma frase interessante mais ou menos assim: “A fraqueza do meu irmão não é parque de diversões para minha maledicência, mas sim um lugar sagrado onde Deus pode usar para ajudar tal irmão”.

Outro exemplo: todo cristão sabe que Jesus ordenou amar até os inimigos, mas inventaram uma saída para isso: se o inimigo for apresentado como um agente do Diabo, ele deve ser combatido e eliminado, sem sequer direito de resposta. Com esse pressuposto em mente, vão procurando apontar tudo o que não concordam como agentes do Diabo, desde pessoas a instituições. Parecem até heróis da piedade e da justiça, mas acabam apenas levantando falsos testemunhos e nem se dão conta disso. Basta ver como muitas dessas acusações nunca foram provadas e hoje já foram esquecidas ou mesmo retiradas.

Entretanto, como dissemos no início, julgar pela reta justiça e denunciar o mal é uma coisa, levantar falso testemunho é outra. Não devemos nos calar diante do mal e da injustiça, mas devemos fazer isso com justiça, do contrário cairemos no mesmo erro.

De modo positivo, precisamos ter um julgamento justo, verdadeiro e que vise a restauração e a edificação. Se não tivermos certeza para isso, é melhor ficarmos em silêncio, mesmo que seja para saber mais e melhor sobre o assunto.

Somos chamados até mesmo a “abençoar aqueles que nos amaldiçoam” (Lc 6.28), de forma ainda mais ampla: “Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles” (Lc 6.31).

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