Não cobiçarás coisa alguma do teu próximo

Êx 20.17

Parece que já encontramos a ideia da cobiça nos mandamentos anteriores, especialmente no que fala sobre o furto. Mesmo o falso testemunho e o homicídio poderiam ser frutos da cobiça. Por isso poderíamos até pensar que fosse desnecessário ressaltá-la num mandamento separado.

rainha espelhoEntretanto, os outros mandamentos sociais se referem a atitudes, mas o décimo trata da intenção do coração, do desejo que pode levar aos outros. Isso é tão sério que Jesus afirma que não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que sai do coração, porque é lá dentro que surgem os pecados (Mc 7.18-23). Paulo ainda afirma que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores” (1 Tm 6.10).

No pecado original encontramos a cobiça como o fator decisivo para a atitude de Eva. Gênesis 3.6 descreve essa tomada de atitude da seguinte maneira: Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu, e deu também ao marido e ele comeu.

Em nenhum momento a serpente obriga Eva a comer o fruto, ela simplesmente dá a sugestão de que eles poderiam ser como Deus era. Somando-se à própria aparência do fruto, foi essa cobiça que tornou aquele fruto desejável.

Podemos até reconhecer que somos limitados e finitos, mas não gostamos nada disso, principalmente quando vemos que o outro foi mais além que nós. Também temos a tendência de nos definir em comparação com as outras pessoas, por isso nos achamos inferiores quando outros têm mais que nós e superiores quando outros têm menos.

Esse sentimento é profundo e enraizado em todas as pessoas, mesmo nos que parecem muito ricos. Nossa sociedade e cultura fermentam bastante a nossa própria cobiça criando até uma hierarquia entre os que têm mais ou menos – e sempre queremos subir de “posto”. Pensamos que as posses representam méritos que conquistamos e que nos definem diante das outras pessoas. Isso acontece até mesmo com valores não materiais, como prestígio, conhecimento ou piedade, mas que não deixam de ser vistos como méritos. Assim começamos a pensar que aquilo que o outro tem deveria pertencer a nós, afinal, merecemos aquilo – até mais que ele.

E, ainda, a cobiça frustrada gera também a inveja, que é o desgosto por o outro ter aquilo que não temos. Sentimo-nos até injustiçados, como se as posses definissem nossa condição e até mesmo nosso ser. E isso leva-nos a um problema mais profundo ainda: quem somos? Será que as posses definem nossa identidade?

ainda não somosNossa dificuldade em dar essas respostas tem sido a força do consumismo, da opressão, da corrupção, dos roubos, de brigas e até mesmo da teologia da prosperidade. A cobiça acaba sendo a força motivadora de muitas pessoas, enquanto a inveja é a frustração dessa motivação; por isso fazem parte do mesmo mal.

Mas Jesus afirmou que “a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15). Ou seja, as posses nunca podem tomar o valor da vida.

Alguém pode sugerir que a cobiça pode ser boa para o desenvolvimento humano desde que não prejudique ninguém. Entendo que se possa dizer que outra pessoa sirva de inspiração para lutarmos por uma vida melhor, mas ainda permanecem as idéias de nos definirmos com base nos outros, e de que as posses indiquem o que é uma vida melhor. E isso, embora pareça sutil, ainda indica o problema que nos leva à cobiça e à inveja: a perda do valor da vida por causa do pecado.

O antídoto para a cobiça é o coração transformado que busca sua identidade e seu valor em Deus. A partir daí se pode respeitar o que é do outro e valorizar aquilo que temos. Não são as posses que nos dão nosso valor, mas nós as utilizamos conforme as necessidades. Com isso também não julgamos o outro pelo que tem ou não tem, mas procuramos vê-lo por aquilo que é e por aquilo que pode ser; e até trabalharmos para isso.

Assim, ao invés de relacionamentos degenerados pela cobiça e pela inveja, aprenderemos a nos relacionar e a viver em comunhão, “De maneira que, se um membro do corpo sofre, todos sofrem com ele; e se um deles é honrado, com ele todos se alegram” (1 Co 12.26).

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