Amar a Deus com intensidade e ao próximo como a si mesmo

Quando perguntado sobre qual seria o grande mandamento, Jesus respondeu com grande sabedoria unindo os textos Dt 6.5 e Lv 19.18, indicando o amor a Deus com todas as suas forças e o amor ao próximo como a si mesmo. Essa definição – assim como os próprios atos de Jesus – deixa claro que o amor é a marca da fé e das atitudes cristãs. De modo especial, quando vemos que o amor sintetiza todos os mandamentos, entendemos também que estes indicam o conteúdo do amor a ser praticado.

Nosso problema atual é que o próprio conceito de amor é desprovido de sentido e de conteúdo. Geralmente, quando falamos em amor, logo vem toda a influência do romantismo, com sua ênfase na idealização do ser amado e na supervalorização do sentimento causado por essa idealização. Pode até ser bonito e profundo em algumas expressões artísticas e literárias, mas não nos ajuda a lidar com a realidade.

A grande ênfase do amor romântico é a de que o ser amado está ausente e, por isso mesmo, tudo o que se diz sobre ele é baseado apenas no desejo de quem está amando, independentemente da realidade. Por causa dessa cultura – da qual fazemos parte – nem sequer pensamos no que significa amar, qual seu conteúdo ou como se manifesta. Na verdade é até comum se dizer que se você pensar muito, deixa de ser amor.

Temos a tendência de pensar mesmo no amor a Deus e ao próximo apenas como uma idealização, ou como uma obsessão, ou ainda como alguma experiência sentimental intensa – o que torna difícil ver o amor como um mandamento a ser praticado.

Por causa dessa característica vazia com relação ao amor, alguns ortodoxos atuais parecem evitar o termo ou mesmo considerá-lo algo secundário e até perigoso para o que chamam de “verdadeira teologia”.

Entendo que isso seja uma reação aos que se baseiam no conceito vazio de amor para sustentarem práticas e pensamentos deturpados, mas caem em grande erro ao menosprezarem o amor em sua teologia e prática.

Dificilmente quem se diz ortodoxo assumiria que menospreza o amor, pelo contrário, teria um belo discurso para falar sobre o que é verdadeiramente o amor. Entretanto o uso que alguns fazem do amor – tanto em sua teologia, como em sua prática – revela sua dificuldade com o tema.

É precisamente o que aconteceu com o intérprete da lei que tentou colocar Jesus à prova em Lucas 10.25 a 37. Ele se levantou perguntando a respeito da vida eterna, era um modo de perguntar sobre salvação ou mesmo sobre o objetivo final da religião. Sabendo Jesus que se tratava de uma autoridade no assunto, devolveu-lhe a pergunta. A resposta revelou grande conhecimento e profundidade; era, inclusive, a mesma que Jesus usou em outras ocasiões. Sendo algo tão correto, não havia mais o que explicar, bastava praticar aquilo que se confessava.

Muitos acham que o melhor a se fazer com uma doutrina é mantê-la pura, isso aquele intérprete da lei já fazia, entretanto ele demonstra não saber como aplicar esse grande mandamento ao seu contexto. Sua teologia não se desenvolveu nesse sentido e dizia não saber, ao menos, quem era seu próximo, para que pudesse amar como a si mesmo. Como poderia efetivamente obedecê-lo?

Na verdade, tratava-se de uma pergunta capciosa, pois a religião judaica tinha grande preocupação com a pureza da raça e a santificação ritual, de modo que deveriam evitar muitos tipos de pessoas e demonstrar verdadeiro amor apenas aos próximos em termos sanguíneos e religiosos. Assim, a resposta de Jesus poderia indicar se ele estava do lado dos irmãos judeus ou se estaria se misturando com impuros.

Bom_SamaritanoJesus responde com uma parábola onde alguém que foi roubado e espancado até a beira da morte, ou seja, foi injustiçado e ficou incapaz de qualquer atitude. Dois clérigos passam por ele sem dar nenhuma atenção, talvez até para manterem sua pureza ritual ou por medo de passarem pelo mesmo problema. Mas então um homem pára e ajuda-o de uma maneira surpreendente a qualquer um de nós. Esse homem, inclusive, era da raça mais odiada pelos judeus da época: um samaritano.

Quando Jesus termina a história, aplica-a com uma pergunta que cai como uma bomba! A preocupação original do intérprete da lei era com quem poderia ser seu próximo, Jesus inverte o conceito perguntando sobre quem foi o próximo daquele que estava caído.

A teologia daquele intérprete voltava-se para si mesmo, então sua preocupação era sobre quem era próximo dele, ou quem poderia se aproximar dele. Jesus ensinava a mesma lei, mas levando o intérprete a sair de si mesmo e levando-o em direção ao próximo que urgentemente precisa da aplicação do mandamento. A preocupação não devia ser “quem é meu próximo”, mas “eu sou próximo de quem?”.

Mostrava também que o cumprimento da lei estava em sua prática, e não em sua bela definição. Também não estava dizendo que os samaritanos eram melhores que os judeus, ou algo assim, mas que quem cumpriu o mandamento de amar o próximo foi aquele que “efetivamente” tomou uma atitude e, assim, realmente obedeceu – independentemente de seu status religioso.

Assim, vemos que os mandamentos servem para nos orientar e nos levar à prática daquilo que é bom para Deus e para o próximo. Não é um sentimento intenso e sem conteúdo e nem uma bela definição num apêndice de uma teologia sistemática, mas a prática de quem vive a vida com Deus. Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso (Lc 6.36).

Também é desnecessária a discussão entre lei e graça ou fé e obras para esta reflexão, pois está se falando do objetivo e da prática de vida daquele que foi salvo pela graça de Jesus. E sendo o ensino dele mesmo a nós, devemos nos apoiar em sua graça para praticar. (Falamos mais sobre esse relação aqui no blog: https://flaviogoliveira.wordpress.com/2013/07/02/a-lei-na-graca/)

Que o Espírito Santo nos capacite a sair de nós mesmos a sermos próximos daqueles que necessitam; e também para impedir que usemos o conceito vazio de amor – ou mesmo as belas definições doutrinárias – para justificar nossos egoísmos.

(Aproveite e medite em 1ª João 4:7 a 21)

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