Essa certamente é uma das maiores questões daqueles que creem em Deus, que creem que ele é soberano e que tem um propósito para nossa história. Mas apesar dessa fé, geralmente essa busca acaba levando a um sentimento de insegurança e até de desconfiança com relação a esse propósito de Deus e até mesmo quanto ao caráter de Deus. Desse modo, aquilo que deveria dar esperança e segurança, acaba gerando medo e dúvida em muitas pessoas.

Já ouvi cristãos demonstrando essa insegurança ao dizerem algo do tipo: “está tudo indo tão bem em minha vida que já estou com medo do que Deus vai arranjar pra minha vida daqui a pouco”.

É claro que há toda uma carga emocional vinda de experiências passadas que levam a esse tipo de sentimento, mas se a fé não for justamente o que nos dá esperança e perseverança, estaremos realmente perdidos.

Esse paradoxo entre a fé na soberania de Deus e as complexidades da vida terrena nos leva a várias atitudes diferentes e até complicadas, de acordo com cada pessoa, mas todas acabam mostrando algum grau de medo e insegurança; e, com isso, a vontade de Deus vai ficando cada vez mais distante e obscura.

Entretanto, embora haja um grande mistério por causa do próprio ser de Deus, o que nos foi revelado é suficiente para nos dar a segurança que precisamos ter, pela fé, para conhecermos a vontade de Deus.

A primeira coisa a considerar já vai diretamente de encontro ao sentimento de obscuridade e distância:

Deus já nos revelou a sua vontade!

Jesus disse aos seus discípulos: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo 15.15).

Paulo diz que aquilo que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram e o que jamais penetrou em coração humano, nos foi revelado pelo Espírito Santo (1 Co 2.9 e 10). E também que Deus nos desvendou sua vontade em Cristo (Ef 1.9).

Mais ainda, somos chamados a conhecer e experimentar sua vontade, ou seja, viver realmente nela: “… para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rm 12.1-2); “… não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor” (Ef 5.15-17).

vontade_de_deusOu seja, a vontade de Deus está expressa na Bíblia, para vivermos nela, não pode ser vista como algo obscuro e distante. Em muitos versículos a vontade de Deus é expressa de modo tão explícito e direto que fica até estranho dizer que não sabemos qual é a vontade de Deus. Muitos versículos até usam a afirmação “esta é a vontade de Deus” e em seguida apresentam atitudes bem práticas, por exemplo: 1 Ts 4.3 – a vossa santificação; 1 Ts 5.18 – dar graças em tudo; 1 Pe 2.15 – que, pela prática do bem, calemos os ignorantes que querem nos acusar; 1 Pe 3.17 – que soframos por praticar o bem e não o mal, se for necessário; Hb 13.21 – que sejamos aperfeiçoados para o bem.

Nosso futuro

Mas sei que a grande ênfase é que queremos saber qual a vontade de Deus para nossa vida especificamente, queremos saber, na verdade, qual nosso destino, o que ainda acontecerá conosco, qual decisão devemos tomar.

Esse é um medo comum humano, um dos grandes motivadores das religiões e crenças em geral que leva a tantas adivinhações, superstições, fórmulas mágicas e outros meios de se descobrir o futuro. Um tipo de busca que se torna egoísta, colocando toda a preocupação apenas em nós mesmos e, ao mesmo tempo, ignorando nossos atos e conseqüências e até mesmo a complexidade da vida.

Nesse tipo de mentalidade Deus é visto como culpado quando as coisas vão mal, e como um gênio da lâmpada quando algo vai bem.

Mas não é essa a vontade de Deus revelada, como já vimos acima.

Quando cremos em Deus verdadeiramente, reconhecemos sua obra, o que ele vem fazendo na história como um todo e até mesmo sobre o futuro; reconhecemos o privilégio de fazer parte dessa obra e colocamos nossas vidas nessa fé.

Assim, sabemos que não se trata de meramente garantirmos nosso futuro, mas de permanecermos em Deus e ele em nós (cf. 1 Jo 4.7-21). É algo que tem a ver com vivência, e não com adivinhação.

Confiança no caráter de Deus

Também não podemos deixar essa nossa busca cair na insegurança ou mesmo no medo, é preciso conhecer a Deus para que tenhamos certeza de seu caráter. Como disse João, “o medo produz tormento, logo o que teme não é aperfeiçoado no amor”, mas o verdadeiro amor lança fora o medo (Cf. 1 Jo 4.18).

Muitas vezes o medo é o de Deus ter uma vontade tão escondida que nunca sabemos se o estamos agradando ou não, se as dificuldades que passamos são castigo por algo que tenhamos feito e até mesmo se Deus realmente nos ama. “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). O que mais Deus precisaria provar para termos a confiança de que ele nos ama?

Sei que poderíamos contar nossas próprias histórias e falar de nossas tribulações e sofrimentos que já passamos e, entendendo erroneamente o sofrimento humano, usar isso como prova da indiferença de Deus. Entretanto Paulo deixa bem claro que nada disso pode nos afastar do seu amor (Rm 8.31-39), ou seja, passar por essas dificuldades não significa distância de Deus. A verdade está na comunhão com ele mesmo durante a tribulação.

Quando buscamos a Deus, temos a tendência de achar que Deus está apenas na solução, na resposta, ou no milagre esperado; e assim não o vemos no processo, na hora do clamor, dando forças durante a espera e até mesmo conosco mesmo quando a resposta não chega.

Aprendemos na Bíblia que, sim, no mundo nós passamos por aflições (Jo 16.33); que a criação está sujeita à vaidade e por isso geme e suporta angústia aguardando a revelação dos filhos de Deus (Rm 8.18-25). Mas quando estamos com Deus e conhecemos seu caráter, passamos tudo isso com ele.

[leia mais sobre o sofrimento aqui:https://flaviogoliveira.wordpress.com/2012/03/25/sofrimento-e-esperanca-a-perspectiva-da-criatura/  ]

Tomada de decisões

Em muitas das vezes em que buscamos a vontade de Deus é para que possamos tomar decisões com relação à nossa vida: o que estudar; com quem casar; onde trabalhar; etc. Essas coisas são muito importantes realmente, e buscar a vontade de Deus para elas é essencial para o cristão.

Entretanto é comum que apenas esperemos respostas específicas e, de preferência imediatas, olhando mais para a resposta em si do que para o Deus de quem esperamos.

Dentro do que acabamos de ver, nossa vida deve estar em comunhão com Deus e, assim, cada decisão deve ser tomada levando isso em conta também. As decisões que tomarmos devem estar baseadas na vontade de Deus, não apenas naquela que esperamos que ele mostre, mas com base naquela que já foi revelada.

Geralmente pensamos apenas na vontade de Deus como algo que ele fará “para nós”, mas nem sempre pensamos sobre a vontade que ele quer “que nós obedeçamos” em nossas escolhas e práticas.

Nossas decisões e práticas pessoais devem ser tomadas com base em nossa fé no caráter e na vontade de Deus, que efetua em nós tanto o querer como o realizar (Fp 2.13). Por isso mesmo devemos “querer” e “realizar”, mas baseados na comunhão com ele.

Ao tomarmos uma decisão devemos “buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça” (Mt 6.33), as outras coisas, segundo o próprio versículo, nos serão acrescentadas. E é possível que nossas grandes preocupações sejam apenas as “outras coisas”, e nisso aprenderemos sobre o que é essencial realmente.

Também devemos fazer tudo para a glória de Deus (1 Co 10.31), e isso já é um grande filtro para nossas atitudes, além de termos também aquelas boas virtudes de Fp 4.8 em nossa pensamento, pois nem sempre teremos decisões simples e específicas, mas um modo de ver a vida e se portar dentro delas como filhos de Deus.

Finalmente, a vontade de Deus para nossa vida particular não será contrária à sua vontade revelada na Bíblia. Por isso é importante que estejamos em comunhão constantes e buscando o Reino e sua justiça.

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