Noé o filme            Todo filme que se propõe a usar histórias bíblicas já levanta desconfiança. Eu já havia lido várias críticas contrárias e algumas positivas e fiquei curioso para assistir e ter minha própria opinião. Mesmo assim, confesso que fui “com um pé atrás”, pois sabemos que a tendência de quem não crê na Bíblia e desacreditá-la ou, ao menos, menosprezá-la.

Acabei voltando do filme maravilhado. Reconheci suas diferenças para com o relato bíblico do dilúvio e até o que teria causado tanta polêmica a quem não gostou, mas acabei fazendo uma leitura diferente, lembrando-me de outros textos bíblicos e temas teológicos e, assim, o filme serviu como ilustração para um momento devocional.

Assim, escrevo esta análise não como uma defesa do filme em si – pois nem sei se essas minhas idéias estavam na intenção do diretor – mas como uma expressão do que o filme me trouxe a mente com base em minha fé e conhecimento bíblico. Por isso procuro fazer distinção entre o Noé do filme e o relato bíblico

Caso você não tenha assistido ao filme, já aviso que vou contar o final. Caso você tenha assistido, convido-o a lembrar e a pegar a Bíblia para seguir os textos que cito.

 

Noé, sua vida e sua revelação

 

O início do relato bíblico sobre o dilúvio (Gn 6) fala sobre os “filhos de Deus” e os “filhos dos homens” e indica que a mistura entre essas linhagens estava gerando a perversidade daquele tempo que o levou a se irar contra o homem de forma geral.

É entendido tradicionalmente que o termo “filhos de Deus” se refere à linhagem de Sete, o filho que Adão e Eva tiveram depois que Caim matou Abel. Sete teve um filho chamado Enos e foi nessa época em que “começou-se a invocar o nome do Senhor” (Gn 4.25). Noé e seus filhos aparecem no filme como o fim dessa linhagem de “filhos de Deus”.

Sempre imaginei como seria a relação deles com Deus numa época em que nem mesmo Abraão havia sido chamado e demoraria muito ainda para receberem as leis divinas e terem o registro disso. O que eles tinham em mente era a busca pelo Criador (pois nem seu nome havia sido revelado) e a tradição passada de pai para a filho sobre o relato da criação e a função do homem dentro dela, bem como o pecado e o assassinato de Abel por Caim, aquele que fugira, fora preservado e teve sua linhagem.

Uma das características do relato da Criação – e que seria praticado pelos que mantinham a tradição – é que, até aquele tempo, somente os vegetais deveriam servir de alimento (Gn 1.29,30) e isso explica o vegetarianismo de Noé no filme. A permissão divina para comer carne só viria depois do dilúvio, entretanto sem derramamento de sangue nem do animal e nem do homem (Gn 9.3-6).

Noé recebe, então, a revelação de que Deus mandaria o dilúvio. No relato bíblico a revelação é direta e cheia de detalhes e explicações, mas no filme vem de um sonho que depois é ampliado com a ajuda de seu avô Matusalém.

Achamos estranho porque temos o relato pronto, mas sabemos que muitas revelações bíblicas foram dadas através de sonhos e visões e muitos precisaram de ajuda específica para serem interpretados. O Noé do filme teve o sonho e buscou sua interpretação porque levava a sério sua fé em Deus, embora revelações especiais não fossem comuns. Ele, então, entende que Deus vai destruir tudo, considera isso justo e se prepara para fazer a Arca, conforme a revelação que recebeu.

Comecei a me surpreender positivamente com o filme nesse momento, pois esperava que o diretor fosse, de alguma maneira, criticar Deus por essa atitude tão severa de julgamento e destruição, que é ponto que recebe muita crítica de quem não crê e onde geralmente tentam retratar Deus como injusto por seu julgamento. Entretanto ele não faz isso, mas mostra um mundo que precisa ser limpo.

Usar o argumento da ecologia e da matança, além de coerente é uma boa maneira de levar o homem atual a concordar sobre as conseqüências do nosso pecado. Eu nunca havia pensado nas águas do dilúvio como uma limpeza, enquanto o fogo seria de destruição. Quem cometeu o pecado foi o homem e este vivia cada vez mais distante de Deus e da Criação que Deus lhe confiou. A Bíblia nos ensina que a natureza foi sujeitada pelo pecado do homem e ainda aguarda a revelação dos filhos de Deus para sua redenção (Rm 8.19-22). Entretanto, o Noé do filme exagera seu entendimento desse ponto, e isso se torna um argumento importante para o que acontecerá no enredo.

 

Matusalém e os guardiões (nefilins?)

 

O Noé do filme vai pedir ajuda a seu avô Matusalém, conhecido na Bíblia como o homem que mais viveu na terra: 969 anos (Gn 5.27). É um personagem misterioso e curioso no filme, inclusive com uma espada flamejante que não faz sentido, mas que não deixa de ser divertido. Em sua relação com Noé, parece demonstrar grande sabedoria, como se até entendesse mais profundamente o que aconteceria, mas não interfere diretamente – embora venha fazer algo crucial para o enredo do filme. Este, quando morre pelo dilúvio, no filme, o recebe de braços abertos. Isso também não está na Bíblia, mas reforçou essa visão justa sobre o juízo de Deus.

Nesse ponto aparecem os “guardiões” no filme. Talvez sejam uma referência aos “nefilins”, que em muitas versões são chamados de “gigantes” (Gn 6.4). Não se sabe mais sobre ele do que é dito nesse versículo: estavam sobre a terra a muito tempo, eram os heróis do passado e famosos.

O diretor deve ter usado algumas das lendas judaicas quanto a identidade deles e isso deve ter assustado a muitos cristãos. Especialmente porque temos a idéia geral de que anjos caídos só podem ser demônios. Até a história inventada sobre eles parece dar essa idéia, pois seriam anjos que não concordaram com a expulsão de Adão e Eva do Éden e desceram para os ajudar.

Se parasse por aqui, eu mesmo iria contrariar entendendo que Deus estivesse sendo apresentado como injusto enquanto esses anjos rebeldes fossem os bonzinhos. Entretanto eles não são apresentados como inimigos do Criador, mas reconhecem sua justiça, ajudam Noé em sua missão recebida pelo Criador e, quando morrem, clamam por perdão e são levados de volta ao céu. Isso descaracteriza qualquer comparação com demônios.

Esses seres se tornaram importantes para o filme para explicar como Noé conseguiu construir a Arca e manter fora os que queriam entrar à força. Também aquele milagre da floresta aparecer pela própria água, como um milagre do criador, ajudou muito nisso. Por isso acabei considerando os guardiões apenas como parte da providência divina para que a missão pudesse ser cumprida. Não tenho dúvida que Deus tenha capacitado o verdadeiro Noé de alguma maneira, por isso pessoalmente considerei que essa inserção poderia representar isso.

 

A angústia do Noé do filme

 

Chega, então, o momento mais difícil e alvo de polêmica do filme: a angústia do Noé do filme diante de sua missão.

O texto bíblico conta simplesmente que Noé era o único justo que havia e simplesmente obedeceu ao que Deus lhe ordenara (Gn 7.1 e 5). Também não há na Bíblia qualquer menção à infertilidade da mulher de Sem e aos outros ficarem sem mulheres. Pelo contrário no relato bíblico os três tinham suas esposas, o que quebra também a idéia de que Jafé fosse apenas um bebê (Gn 7.13).

Entendo que isso já seja pra muitos um grande motivo para desmerecer o filme, entretanto o drama que o diretor inseriu nesse ponto me traz grandes reflexões que também encontro em outras partes da Bíblia.

Nessa hora fiz uma pergunta: Como um homem justo e íntegro, como Noé, lidaria com a idéia de que todos à sua volta seriam mortos pela ira de Deus enquanto apenas ele e sua família fossem salvos? O relato bíblico é tão forte nesse ponto que chega a dizer que Deus se arrependeu de ter feito o homem (Gn 6.6-8). Será que Noé poderia simplesmente se sentir aliviado por ter sido poupado?

O Noé do filme acaba entendendo que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23), inclusive eles mesmos. Sei que esse versículo não é citado no filme, mas atitude do Noé do filme me fez lembrar dele.

Sua esposa chega a falar do lado bom de seus próprios filhos, mas ele lhe responde com o mau que há neles também. Ele até a desafia perguntando se ela mesma não mataria alguém pra defender seus filhos. A resposta parece óbvia e a isso ele responde: nós somos como eles.

Embora isso não esteja no relato bíblico, mexeu muito comigo, pois a ênfase da teologia reformada, que é bíblica, é que todos pecaram e, por isso, todos são alvo da ira de Deus.

Naquele momento me lembrei do malfeitor na cruz que repreendeu o outro dizendo: “nós estamos na cruz por que nossos atos merecem” (Lc 23.41). Lembrei-me também do grito de Isaías diante da visão de Deus: “Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros, habito num povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos exércitos” (Is 6.5).

O Noé do filme acabou entendendo que também merecia a ira de Deus sobre o mundo. Com isso interpretou que iria apenas cumprir essa missão e que depois sua geração morreria naturalmente, deixando a terra apenas para a criação que não havia pecado e se corrompido. Isso não está no relato bíblico sobre Noé, mas Moisés demonstrou esse tipo de pensamento drástico na ocasião em que a ira de Deus se levantou contra o povo por causa do bezerro do ouro. Ali Moisés pede perdão pelo povo e diz que se Deus não o perdoar, que também risque o nome dele do livro (Êx 32.32).

Isso se torna o argumento principal da angústia do Noé do filme com relação à sua missão. Ele entende que todos morreriam, esse era o castigo pelo pecado. Por isso também não deveriam ter mais descendentes, pois todos têm “seu coração inteiramente inclinado para o mal desde sua infância” (Gn 8.21).

É por isso que o Noé do filme acaba ficando tão mal. Parece que a única maneira de ele aceitar que todos os outros sejam mortos pelo dilúvio é reconhecendo que ele e sua posteridade também morrerão. Mas essa sua interpretação o leva ao extremo, não aceitando que Sem pudesse ter filhas, no máximo, filhos – os quais não poderiam ter descendência. Ele fica cego por seu argumento e torna-se um monstro.

Esse conflito me prendeu na cadeira do cinema. Veio-me o dilema do bem que quero fazer, e não faço, e do mal que não quero, mas sempre está diante de mim (cf. Rm 7.25) e de quantas vezes esses conflitos nem são claros em minha mente pecaminosa. É comum que religiosos confundam a vontade de Deus com sua própria vontade, inclusive para o mal, não seria impossível que isso acontecesse com Noé.

 

Tubal-Caim

 

Outra inserção que não está no relato bíblico, mas que achei muito interessante foi o Tubal-Caim. No filme ele é o rei daquele povo todo que seria destruído, que seriam os “filhos dos homens” em contraposição aos “filhos de Deus”. A palavra “tubal” significa: tumulto; e tem o sufixo de Caim, o primeiro assassino. Achei interessante esse nome pra representar aquela multidão.

Na Bíblia ele aparece muito antes de Noé, sendo descendente direto de Caim e apresentado como fabricante de ferramentas de bronze e ferro (Gn 4.22), e no filme ele faz armas de ferro pra conseguir o que quer.

Seu pai era Lameque e ficou registrada sua atitude com relação à vingança fútil, como que demonstrando a continuidade do comportamento de Caim em sua descendência (Gn 4.23). Uma curiosidade é que Lameque era também o nome do pai de Noé (Gn 5.25).

No filme ele representa o homem mal e pecador, o qual até mesmo culpa a Deus por seus atos e interpreta suas palavras com base em sua violência. Ele também conhece a tradição da história sobre a criação e o pecado e chega a justificar seus atos na ordem de Deus a Adão e Eva para que dominassem sobre a terra e a sujeitassem (Cf. Gn 1.28). Noé entendia essa mesma ordem no sentido de “cuidado”, mas ele entendia como “destruição”. É essa mudança de intenção que o pecado provoca com relação à palavra de Deus.

Ele acaba conseguindo entrar na Arca. Realmente algo sem referência alguma no relato bíblico, mas que, no enredo, acaba representando a serpente no Éden, era como ela apenas tivesse trocado de pele.

A Arca, no filme, é agora vista como o embrião do que seria o novo Éden, o reinício da criação. Mas lá dentro está Cam, revoltado por não ter uma mulher e por seu pai ter abandonado a que ele tinha encontrado. Cam quer ser um homem e gerar filhos, mas foi impedido pelo pai. Ele acaba encontrando e alimentando Tubal-Caim, uma grande representação do que é o pecado dentro de nós. Mais tarde ele trai o próprio pai, mas acaba se arrependendo e mata Tubal-Caim. E fica aqui um grande dilema da humanidade pecadora: apesar de ter escolhido o certo, acaba ouvindo de sua vítima: “agora você se tornou um homem”. Pois, para Tubal-Caim, o que fazia alguém ser homem de verdade era “matar”.

 

O fim da loucura do Noé do filme

 

Enquanto isso, continuou evidente a loucura do Noé do filme ao achar que deveria matar suas netas para não ter descendência. Ele chega a subir e perguntar ao Criador se deveria fazer isso, naquele momento a chuva pára, o que a mim deixou claro que não deveria fazer aquilo, mas ele interpreta que deveria fazer. E, mais uma vez, fica uma ilustração sobre como interpretamos as respostas de Deus.

Estava indo além do que Deus lhe mandara e acabaria se tornando um homem na visão de Tubal-Caim. Aquele pecado que ele mesmo reconheceu em si acabaria aflorando. Mas, no momento crucial e de grande tensão, ele beija suas netas – e alivia os espectadores. Naquele momento aparece a pomba com o ramo de oliveira, indicando a esperança de que a missão estava no fim e que havia esperança. No filme essa cena ficou muito linda e trouxe o enredo de volta para o relato bíblico (Gn 8.11).

Os conflitos inventados pelo diretor se passam e as águas baixam. O Noé do filme permanece em crise, se arrependeu do mal que faria, mas ainda acha que não foi forte o suficiente para fazer, sentindo-se ainda confuso. Essa confusão o leva a bebedeira, o que explicaria o relato bíblico dessa passagem (Gn 9.20-23). Sem e Jafé cobrem o pai e Cam vai embora, talvez uma referência à maldição que recebe no texto bíblico (Gn 9.25).

Essa família repovoaria a terra e, segundo o relato bíblico, todos tinham suas mulheres, o que vai de encontro ao que o filme apresenta. O filme apenas mostra Cam indo pra outro lugar, mas achei interessante pensar que dele viria a terra de Canaã (Gn 10.6), que seria a terra prometida conquistada no futuro pelo povo hebreu, povo que tinha sua origem semita, ou seja, descendente de Sem. Mas não é algo que me aprofundei muito.

No final, o Noé do filme vai conversar com a mãe das meninas que pensou em matar. Ele diz que acha que fraquejou e ela pergunta: “será”?

Quem matava era Caim, Tubal-Caim e, de modo geral, os filhos dos homens. Ela lhe diz que ele foi chamado por Deus por ser justo e bom e  que ele demonstrou sua justiça e bondade na hora certa; apesar do seu reconhecido pecado.

Esse diálogo também não está no relato, mas me fez lembrar das palavras de Jesus: “Amem porém os seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem esperar receber nada de volta. Então, a recompensa que terão será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6.35,36, grifos meus).

Apesar da ira justa de Deus e do castigo do qual até Noé reconhecia merecer, Deus foi misericordioso, pois queria que a vida humana continuasse.

Ele volta para sua mulher e aparecem intensos arcos-íris no céu, indicando a aliança que Deus fizera com ele (Gn 9.12,13).

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