Lc 11.1-4

Ensina-nos a orar

oracao-pai-nosso-ucem

Jesus orava bastante e o evangelho de Lucas é o que mais registra isso. Há uma ênfase no evangelho de Lucas em mostrar Jesus como o ser-humano perfeito, com suas próprias limitações e necessidade de dependência de Deus. Jesus, esvaziado de sua divindade (Fp 2.5-11), dependia do relacionamento com o Pai através da oração.

Ao terminar um desses momentos, um de seus discípulos pede que lhes ensine a orar, ele percebeu o quanto isso era importante para Jesus e que era muito importante para eles também, o exemplo de Jesus deixava isso claro.

Era comum que os mestres da época, inclusive João Batista, ensinassem modelos de orações aos seus discípulos. Aprender a orar era como ter uma confissão de fé que se expressava diretamente a Deus, indicava o relacionamento do discípulo para com Deus e suas implicações na vida cotidiana. Ou seja, não se tratava de “palavras mágicas” que moveriam a mão de Deus, mas do modo como se relacionava, confessava e se vivia a vida cotidiana diante de Deus.

Como são nossas orações?

De quem aprendemos a oração que fazemos?

Como vemos o Deus para o qual oramos?

O que esperamos com nossas orações?

Responder essas questões pode nos ajudar a ver o que entendemos por oração e sobre nosso relacionamento com Deus.

O discípulo demonstrou grande humildade e reverência para com a oração. Que façamos o mesmo para aprendermos a orar, pois todos temos muito a aprender de Jesus.

Uma oração pra ser vivida

Essa oração ficou mais conhecida pelo modo registrado no evangelho de Mateus, onde ela é um pouco maior, embora com a mesma essência. Pelo contexto aqui parece se tratar de outra ocasião onde Jesus ensinou a mesma oração. O fato não repetir exatamente as mesmas palavras – mas sim a essência – indica que não se tratava de uma fórmula a ser decorada, mas de um modelo a ser usado e, principalmente, vivido.

Jesus ensina um modelo de oração que contempla várias atitudes da vida do discípulo em relação a Deus:

Pai

Jesus ensina a seus discípulos a se dirigirem a Deus como Pai. Muitos títulos bíblicos expressam soberania, poder e grandeza, mas “Pai” indica relacionamento, sem, contudo, diminuir a autoridade. Os primeiros cristãos usavam o termo Abba que, em aramaico, era o modo íntimo da criança se referir a seu pai, para nós seria como: papai (cf. Rm 8.15; Gl 4.6).

Isso era (e ainda é) muito ousado para a maioria das pessoas, acostumadas a pensarem num Deus distante e irado, ao qual se deve agradar para se conseguir alguma coisa. Muitos até enfatizam apenas a soberania de Deus e parecem até tentar emprestar um pouco dessa autoridade sobre eles mesmos, mas têm dificuldades em pensar num relacionamento íntimo com Deus.

Jesus muda esse conceito e nos dá o mesmo relacionamento que ele tinha com o Pai. E somos filhos pela obra de Cristo em nós (Jo 1.12).

Santificado seja o teu nome

Ao mesmo tempo em que se dirige a Deus como papai, deve-se também santificar o seu nome, ou seja, prezar por esse nome em temor e reverência, respeitando o Pai que se ama.

Há uma tendência em se desvalorizar o relacionamento íntimo e tratá-lo com falta de respeito ou mesmo sem consideração. Muitos acabam tentando se portar como filhos rebeldes e mimados, que apenas exigem que o pai faça tudo o que querem e como querem. Isso é o oposto da santificação do nome de Deus.

“É uma oração de que ‘Deus seja Deus, de modo que os homens não reduzissem Deus para um tamanho e formato de fácil manejo’ (Melinski)” (Morris 1983, p. 183).

Venha o teu reino

Conhecemos a Deus em Jesus porque seu Reino foi inaugurado entre nós e, ao mesmo tempo, esperamos seu estabelecimento. Oramos e trabalhamos por isso, essa é nossa missão.

O Reino é onde a vontade de Deus é cumprida, seja no céu ou na terra, e nós reconhecemos e fazemos parte disso. Ter um relacionamento filial com Deus nos leva a participar de sua obra no mundo, vivendo e pregando seu Reino e sua vontade.

Oramos desse modo porque desejamos e trabalhamos pelo Reino, queremos ser filhos que realmente obedecem ao Pai Santo. E quanto a isso recebemos uma grande exortação na parábola dos dois filhos em Mt 21.28-32.

O pão nosso cotidiano

Para muitos, esta parte é o único sentido da oração, isto é, como conseguir de Deus o que eu preciso (ou quero) em meu cotidiano. E nessa redução temos visto grandes aberrações.

Jesus não desconsidera essa necessidade, pelo contrário, sabe que precisamos de sustento material; mas o coloca dentro do relacionamento correto com o Pai e de nossa confiança e dependência nele.

Aqui aprendemos a pensar em um dia depois do outro e do que realmente necessitamos em cada um. Reconhecemos e colocamos isso nas mãos do nosso Pai, o qual cuida bem até dos pássaros do céu e dos lírios dos campos (Mt 6.25-34). Ou seja, é mais que um pedido na oração, é uma declaração diária de confiança no Pai.

Esse pedido faz eco com a sabedoria expressa em Pv 30.7-9.

Perdoa-nos, pois perdoamos

Os discípulos caminham com Cristo, mas ainda são pessoas falhas e necessitam do perdão de Deus, o qual ele dá gratuitamente em Cristo. Pedimos perdão porque o pecado fere nosso relacionamento com o Pai, e ao sermos perdoados restabelecemos o relacionamento.

Isso também é a base para nossa vida comunitária, pois as pessoas também nos ofendem, ficam em dívida conosco, assim como nós a elas. O perdão é necessário a continuidade do relacionamento.

O esse ponto mais enfático na oração é que Jesus coloca primeiramente o perdão de quem ora, como pré-requisito para se receber o perdão de Deus. Como Jesus está ensinando a discípulos que já foram perdoados, ele quer que cada um pense no assunto em cada vez que for orar e, especialmente pedir perdão.

E, assim, a prática da oração levará o discípulo à prática do perdão, como Jesus também ensinou de maneira dura em outras ocasiões (Mt 5.23-24; 18.23-35).

Não nos deixe cair em tentação

Somos falhos e temos a tendência ao pecado, devemos reconhecer isso para não subestimarmos a tentação. Então pedimos forças a Deus para que desenvolvamos nossa santificação.

Muitos decoram a frase: “resisti ao Diabo e ele fugirá de vós”, mas se esquecem do que antes é dito: “sujeitai-vos, portanto, a Deus” (Tg 4.7). A sujeição a Deus é o segredo da vida cristã.

Esse pedido está totalmente ligado ao relacionamento com o Pai, onde reconhecemos nossa fragilidade e, ao mesmo tempo, levamos a sério a vida de obediência.

Queremos viver como filhos que santificam o nome do Pai, que desejam e trabalham por seu Reino, que vivem em confiança diária e que perdoam como foram perdoados. Não queremos viver no pecado e no mal, ainda que tenhamos tantas tentações nesse sentido, por isso colocamos o assunto em oração e prática de vida, crendo que nosso Pai é que nos sustenta em suas mãos, onde realmente queremos estar.

Anúncios