Deus não está morto

Alguns estimados irmãos me falaram entusiasmadamente a respeito desse filme, lançado recentemente, onde um aluno de filosofia debate com seu professor ateu sobre a existência de Deus.

Achei interessante a ideia, fiquei até surpreso em saber de um filme evangélico tratando de filosofia. Digo isso porque venho percebendo uma grande dificuldade entre os evangélicos para tratarem desses assuntos. Mesmo bons escritores evangélicos têm sido muito imprecisos quando falam sobre o tema. Basta ver quando se referem a “humanismo”, “iluminismo” e até mesmo “liberalismo” para perceber essa imprecisão e também generalização. Mais difícil ainda seria passar essa discussão para um filme. Entretanto há novos filmes evangélicos que tem apresentado roteiro e produção muito bons, como “À prova de fogo” e “Corajosos” e, por isso, fiquei curioso quanto a este também.

O filme, então, se passa principalmente numa aula de filosofia onde o professor desafia seus alunos a simplesmente escreverem a frase “Deus está morto” num papel para, assim, pularem as aulas que seriam sobre a inexistência de Deus. Um aluno cristão se recusa a fazer isso e é desafiado pelo professor a provar o contrário. Entretanto, embora seja uma aula de filosofia, nenhum argumento filosófico é mencionado, nem mesmo pelo professor, sendo que a argumentação gira apenas em torno da física e da biologia, citando apenas Richard Dawkins e Stepehen Hawking. O pressuposto é que o ateísmo seja um produto da teoria do big-bang e da evolução de Darwin, então bastaria negar essas teorias e todos passariam a crer.

Além de não usar a filosofia, o argumento do filme ignora a questão de que o ateísmo na filosofia é anterior a essas teorias científicas, não dependendo e nem estando ligados diretamente a elas. Basta ver que muitos dos mencionados no início da aula atuaram antes de essas teorias terem se desenvolvido. O único momento em que o argumento toca de leve a filosofia é quando fala do problema do mal, respondido rápida e superficialmente com a ideia do livre-arbítrio, o que é um tema polêmico dentro do próprio cristianismo.

Dessa forma, o argumento do filme não entra na proposta e torna-se apenas uma disputa pessoal entre a arrogância do professor ateu – que também não apresenta nenhum argumento consistente – e do aluno heroico cujo único argumento é sua própria fé. No fim das contas, torna-se apenas uma questão de escolha.

O primeiro problema disso tudo é que não existe nem diálogo, nem argumentação consistente. Ao ignorar os argumentos dos intelectuais citados e simplesmente coloca-los genericamente debaixo de teorias científicas, comete-se uma grande injustiça e acaba-se perdendo a credibilidade. A própria frase que inspira o título do filme: “Deus está morto” – provavelmente as únicas palavras de Nietzche conhecida pelos evangélicos – nem está ligada ao ateísmo em si, mas à crítica que ele fazia da sociedade e da religião.

O outro problema é que se desperdiçam as teorias e respostas de grandes filósofos teístas e teólogos cristãos, ou seja, perde-se a oportunidade de usar e apresentar aos espectadores a riqueza do pensamento teísta e cristão, que é visto como inexistente inclusive pelos próprios cristãos atualmente. Imaginei até que poderiam usar as provas de Tomás de Aquino quanto a existência de Deus, ou mesmo textos do C.S. Lewis falando de sua conversão do ateísmo, mas infelizmente tentou-se apenas negar aquelas teorias científicas, que nem são o ponto principal do ateísmo clássico.

Tudo isso, na verdade, reflete a falta de estudo teológico e o despreparo dos jovens cristãos que vem acontecendo entre os evangélicos, apresentando o mundo acadêmico apenas como algo perigoso que deve apenas ser desafiado.

No filme o professor tem uma arrogância extrema que leva o aluno a se mostrar forte, tonando-se apenas uma disputa de convicções. Mas como seria, como é mais comum, se fosse apenas um professor profissional apresentando lentamente seus argumentos, sem exigir uma postura? Qual seria a base que o aluno cristão teria para pensar criticamente sobre o conteúdo que receberia? Será que cada argumento filosófico ou científico seria necessariamente um ataque à sua fé, ou apenas revelariam suas fraquezas?

E aqui entra outro problema, o de achar que Deus precisaria – ou mesmo poderia – ser provado pela ciência e mesmo pela filosofia. Se isso acontecesse, a própria fé seria desnecessária, tonando-se uma questão de observação e estudo e não mais “a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”, como diz Hebreus 11.1. Também se Deus pudesse ser observado e experimentado pela ciência, seria limitado, contrariando a própria fé a respeito dele.

A fé em Deus simplesmente se mantém acima de tudo isso, como algo especial, à parte, ou seja, sagrado. A fé madura não precisa se preocupar também com ataques e contrariedades; não teme porque sabe que está ligada à outra dimensão que o pensamento humano não alcança sozinho. Levar essa fé a outros não será por convencimento, por leis ou por restrições no estudo, mas pela experiência da fé através do Espírito Santo.

Isso não quer dizer que não se deva usar a razão ou a ciência e disciplinas afins, pelo contrário, é incentivo para usá-las sem medo, pois Deus sempre está além, não precisando nem ser provado e nem temendo ser afetado pelo pensamento humano, ainda que definições possam ser afetadas. Por isso o cristão deve ficar tranquilo ao estudar o pensamento humano e suas descobertas, assim como Daniel e seus amigos fizeram na Babilônia. Mais ainda, precisa conhecer o que outros irmãos intelectuais também já escreveram e produziram e que podem ser úteis não só nos debates, mas na vida comum.

O bom do filme foi incentivar a coragem do cristão mesmo diante da oposição do mundo, que é real e, muitas vezes, cruel. Também mostrou experiências de vida de outras pessoas e como a fé pode transformar. Creio que foi isso que entusiasmou tanto os irmãos que me indicaram o filme e, nesse sentido, a mim também. Mas creio que podemos associar isso ao estudo acadêmico, lendo tudo e retendo o que é bom, fazendo isso com justiça e coerência.

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