Uma epidemia se alastrou por aquela terra. Era uma doença fatal e de difícil diagnóstico, especialmente por causa de suas inúmeras mutações e sintomas. Alguns doentes desenvolviam sintomas externos e bem evidentes, enquanto outros os desenvolviam de forma tão discreta que nem acreditavam estar também doentes. Era comum que a doença fosse confundida com outras mais conhecidas, dependendo do tipo de sintomas que expressava. E, com isso, várias e variadas terapias foram criadas para curá-la, mas nada realmente funcionava por muito tempo.

remedio coraçãoEntão o grande farmacêutico desenvolveu um remédio totalmente eficaz para a doença. Uma fórmula tão forte que também era capaz de ser administrada de diferentes formas, de acordo com os sintomas apresentados, sem perder sua essência. Era possível aquecê-la, resfriá-la, inalá-la, usá-la como xarope ou mesmo como pomada, ou de outras formas de acordo com a necessidade. Assim, ele curou algumas pessoas próximas e os chamou para serem enfermeiros com a missão de levarem a todos com quem encontrassem.

Tiveram muitas dificuldades, especialmente pela rejeição dos próprios doentes. Os mais afetados não acreditavam que aquele “remedinho” poderia curá-los, outros se mostravam satisfeitos com as terapias em que já estavam, e outros ainda nem acreditavam estar com a doença. Mesmo assim, muitos outros receberam o remédio e foram curados, indicando a outros e tornando-se também enfermeiros para levar o remédio adiante. Logo o número de pessoas curadas começou a aumentar e passaram a indicar e se apresentar como provas da eficácia do remédio; com isso, embora muitos ainda rejeitassem, vários outros começaram a se interessar, de modo que o remédio começou a se tornar mais popular. Muitos começaram até contribuir financeiramente para que o remédio fosse levado a mais pessoas. Em muitos lugares foram encontrados muitos doentes e, devido às dificuldades logísticas, chegava a faltar remédio. Isso fez com que muitos enfermeiros a adaptar meios para que o remédio rendesse mais, misturando-o com água ou outras combinações que não o afetassem. Não era o ideal, mas a própria força contida na fórmula ainda era eficaz, mesmo com alguma diluição.

Entretanto, aos poucos alguns foram recebendo menos da fórmula e até mesmo nada, mesmo assim consideravam-se curados e acharam que poderia levar o trabalho à frente, não se importando com a quantidade de misturas para fazer o remédio render mais e nem mesmo com a quantidade de fórmula original. Sua preocupação maior era com a propaganda para gerar demanda. E como muitos já haviam sido realmente curados, tudo se misturava e causava bastante procura. Assim eles começaram a usar cada vez menos da fórmula original e a fazer cada vez mais misturas. Perceberam que algumas misturas até causavam maior bem-estar imediato, tornando desnecessários vários processos terapêuticos que, originalmente, estavam ligados à fórmula original. Isso também era bastante atraente, e muitos se animavam a pagar o que fosse necessário para ter essa nova fórmula. O que se tornou um grande negócio para muitos que não haviam sido realmente curados – ou que achavam que tinham sido – de modo que já nem havia preocupação com a fórmula original, apenas com o dinheiro que conseguiriam receber com suas novas imitações.

Com tudo isso, a situação começava a ficar caótica: a busca pelo remédio aumentava, mas já não se sabia o que era original, o que era mistura e o que era falso; a tendência era que o falso fosse considerado verdadeiro pelo bem-estar imediato que ele provocava. E o problema da doença piorava, pois agora havia a rejeição daqueles muitos que se consideravam curados e que menosprezavam os que estavam em terapia com o remédio original, afirmando que esses é que tinham o remédio falso.

Essa situação levou vários enfermeiros comprometidos com a fórmula original a se mobilizar. Era necessário que não apenas levassem o remédio certo, mas também que ensinassem sobre suas características, sobre como reconhecer o verdadeiro e rejeitar os falsos. Passaram eles mesmos a estudar a fórmula e todas as suas características, deram maior ênfase à bula feita pelo grande farmacêutico e passaram a estudar também os remédios falsos, para denunciá-los e alertar a todos sobre as misturas e falsificação que estavam fazendo. Havia tantas opções diferentes de falsificações que foram deixando esse trabalho cada vez mais complexo. Ao mesmo tempo, conforme estudavam mais a fundo a bula e as características da fórmula original, ficavam fascinados, querendo muito passar não só ela, mas também seus detalhes.

Assim, aos poucos esse trabalho foi ganhando maior importância e tornou-se uma característica dos enfermeiros considerados verdadeiros. Agora eles eram conhecidos não apenas por administrarem o remédio, mas por conhecerem profundamente suas características e por denunciar os falsos remédios. Mas, como não podia deixar de ser, esse trabalho foi, aos poucos, substituindo o trabalho da administração do remédio em si. Muitos se juntavam a eles, preocupados com o caos que os remédios falsificados estavam se tornando lá fora e ali se sentiam mais seguros. A fórmula original era guardada com segurança e exposta a todos para que a reconhecessem, bulas e tratados sobre a maravilhosa fórmula eram distribuídos e ensinados, e também se tornavam experts em reconhecer e denunciar as fórmulas misturadas e as falsas, aumentando a sensação de segurança entre eles.

O que não percebiam é que muitos já estavam mais falando sobre as características da fórmula original do que realmente a administrando. Ali também chegavam aqueles que não apresentavam sintomas muito evidentes e também outros que se achavam curados por fórmulas diluídas. Esses já não viam necessidade em tomar da fórmula original, mas amavam conhecer sobre seus detalhes e combater as outras. Isso dava uma sensação de superioridade e até de heroísmo, mas também impedia que resolvesse seu real problema. Nem notavam que acabavam até desenvolvendo uma arrogância típica da própria doença – isso ganhava outros nomes entre eles. Tornavam-se também exclusivistas, valorizando apenas aqueles que estivessem entre eles, que demonstrassem firmeza no conhecimento da fórmula e estivessem prontos a ensinar quem ainda não fosse do grupo. Não era declarado, mas, para eles, conhecer os atributos da fórmula original já era mais importante que seu objetivo original.

Com o tempo, foram vendo os outros enfermeiros com desconfiança. Quem não estivesse no meio deles era facilmente identificado, no mínimo, como um falsificador em potencial, pois pensavam: “se ele fosse comprometido com a fórmula original, certamente estaria conosco”. Também achavam mais seguro trazer pessoas para aprender sobre a fórmula do que sair para administrá-la. Ainda a levavam, mas evitavam até mesmo fazer aquelas adaptações permitidas pela própria força da fórmula, com medo de serem mal vistos pelos próprios colegas; por isso mesmo era mais seguro manter as exposição da fórmula original em lugar seguro. Muitos entre eles acabavam conhecendo cada detalhe do remédio e sentiam-se bem com isso, mesmo sem terem realmente tomado dele; e assim continuavam desenvolvendo sua doença, mas agora disfarçada pelo conhecimento e pelo heroísmo em denunciar as fórmulas falsas.

A situação, então, ficava ainda mais complicada para os doentes daquela epidemia: de um lado, os remédios mais populares e acessíveis eram falsos ou tão misturados que não alcançavam a dose necessária; de outro o remédio verdadeiro era quase inacessível, fechado em grupos exclusivos, sendo sutilmente substituído pelas próprias informações sobre ele.

Entretanto o grande farmacêutico continuava a produzir o remédio e sabia o que estava fazendo, enquanto verdadeiros enfermeiros mantinham-se firmes em seu trabalho, ainda que entre um ou outro grupo e até sendo vistos com desconfiança por eles.

Mesmo em meio ao caos, o remédio ainda curava. A questão era: quantos ainda seriam alcançados por ele?

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