Dizem que política, futebol e religião não se discutem. Na verdade, creio que o maior problema é a confusão que fazemos no modo como tratamos esses assuntos:

  • O futebol tem sido visto como uma religião onde as pessoas adoram expressar seu fanatismo e defendê-lo acima de qualquer coisa. O pessoal tem até seu altar em suas casas, suas reuniões de encontro e celebração, sua luta contra os infiéis (torcedores de outros times) e até facções extremistas que fazem terrorismo nos campos.

 

  • A política tem sido vista como torcida de futebol, onde cada um escolheu seu “time” e está disposto simplesmente a defendê-lo criticando o time contrário, independentemente dos próprios erros e da real preocupação com o bem comum. Pra piorar, também dá uma conotação religiosa à sua torcida política, especialmente quando espera um “messias” que salve toda a situação.

 

  • E a religião é vista, em geral, como um mero hobby, um momento de lazer que faz bem quando traz bem-estar para algumas questões individuais e íntimas sobre as quais não temos controle. Na prática ela acaba sendo confundida com a auto-ajuda ou com a tal “torcida política”, que, já que é vista de modo religioso, parece dar força à nossa religiosidade individualista e alienada.

 

Jesus foi alvo desse tipo de confusão, mas saiu dela com maestria e autoridade, mostrando de modo até radical a intenção no coração das pessoas e qual era sua missão.

Alimentar uma grande multidão com tão pouco recursos foi uma atitude extraordinária e muito popular, algo fácil de ser encarado dentro da categoria do populismo, que, em seu sentido pejorativo, tem a ideia de meramente conseguir apoio popular sem realmente resolver os problemas da população. É algo muito buscado por políticos que querem manter sua posição a qualquer custo, como também pela população que busca coisas instantâneas, mesmo que superficiais. Por conta disso, muitos da multidão que foi alimentada saíram em busca de Jesus para proclamarem-no rei, para que atendesse aos seus anseios (Jo 6.14 e 15).

A resposta de Jesus foi direta e desconcertante, focando as reais intenções daquelas pessoas e sem se enganar pela bajulação:

 

A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram sinais milagrosos, mas porque comeram pães e ficaram satisfeitos. Não trabalhem pela comida que se estraga, mas pela que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem lhes dará. Deus, o Pai, nele colocou o seu selo de aprovação. (Jo 6.26,27)

 

Jesus ensinava sobre misericórdia e cuidado com o necessitado, mas ele não era meramente um ativista político ou algum candidato a “salvador da Pátria”; o cuidado com o próximo seria uma das consequências da sua obra, mas não a própria obra. Em seu cerne, o que o Evangelho de Jesus trazia era o alimento para a eternidade, vinda da parte de Deus: era ele mesmo, através de seu sacrifício na cruz.

Assim Jesus desfez a confusão entre a expectativa da multidão e sua real missão, e aquelas pessoas, que há pouco queriam torná-lo seu rei, acabaram se decepcionando e indo embora. A resposta do Rei acabou sendo dura e muito diferente do que esperavam.

Qualquer líder populista ficaria desesperado nesse momento, pois Jesus acabara de perder sua popularidade com aquela multidão, sobrando apenas seus doze discípulos. Mas, ao invés de apelar para que ao menos eles continuassem com ele, o verdadeiro Rei ainda os desafiou: vocês também não querem ir? Simão Pedro lhe respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus (Jo 6.67-69).

Os verdadeiros discípulos não se confundiram, mas confusões desse tipo continuam sendo muito comuns ainda hoje. Ainda são muitas as pessoas que buscam a Jesus para fazê-lo rei de suas próprias vontades, buscando nele apenas coisas que se acabam: tesouros que podem ser roubados ou destruídos pela traça ou ferrugem, como ensinou em Mt 6.19. Muitos são os que abandonam a Jesus quando são confrontados por sua verdadeira mensagem e obra, mas os verdadeiros discípulos não se decepcionam, pois buscam nele aquilo que realmente encontram: a vida eterna vinda do Santo de Deus.

Não confunda as coisas, Jesus não é nem política, nem futebol e nem religião folclórica, é vida, vida eterna.

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