A Biblioteca do Infinito

Texto: Flávio Gouvêa de Oliveira          –       Ilustrações: Camila Stachissini

1.  Acordando com um sapo

O jardim era lindo, aquilo que se imagina por paraíso. Moitas com flores coloridas num gramado raso e macio, banhadas por um pequeno córrego cristalino entre pedras ornamentais. Envolto por árvores de folhas coloridas, mais ao fundo, via-se um caminho, para o qual ele foi. De repente a paisagem converte-se em pântano, embora com rara beleza. É quando ele começa a ouvir um estranho coaxar: djou, djou, djou. Ele nunca ouvira um sapo coaxar dessa maneira, o som era estranho para um sapo, mas familiar para ele. Curioso, decidiu procurar tal emissor. Percebeu que o som vinha de seu lado esquerdo, olhou pra baixo e viu uma moita com folhas grandes. Foi se encurvando e andando com certo receio enquanto o som continuava: djou, djou, djou. Quando viu nas sombras os grandes olhos do tal sapo, acordou sem perceber. E ainda sem saber se continuava sonhando ou se já acordara, deparou-se com grandes olhos sobre os seus, enquanto ainda ouvia o som: djou, djou, djou. Deu um grito de susto, que o fez cair da cama, enquanto seu irmão, ainda sentado sobre ela, não se agüentava de tanto rir. Este havia se colocado sobre ele a fim de acordá-lo, conforme sua mãe havia mandado e seu irmão pensou que o sapo do sonho estivesse com os olhos arregalados sobre si.

Djou era o apelido do nosso sonhador; deveria ser Joe, como nos filmes americanos, mas a brasilidade e o motivo de tal apelido já o haviam modificado.

Essa maneira de acordar teria sido muito irritante, não fosse o sono ainda latente, o qual desencorajava qualquer atitude mais enérgica. Djou apenas viu seu irmão às gargalhadas e, sem falar nada, foi ao banheiro lavar seu rosto, para ver se conseguia retirar “a areia” que o impedia de abri-los completamente.

Assim começava mais um dia na vida de um garoto de treze anos. Garoto não, adolescente; Djou já havia aprendido na escola que a adolescência inicia-se aos doze anos, e ele já havia passado um ano da idade limite, faltava apenas cinco anos para ser considerado adulto, conforme seu livro didático. Tomou então seu leite com chocolate, pegou seu material e saiu. Sua mãe ainda ofereceu o último pedaço de seu bolo de aniversário, celebrado na semana anterior, mas ele sempre acordava sem fome.

2. O caminho para a escola

Eram sete horas da manhã e a escola não ficava longe, poderia andar em seus costumeiros passos curtos que às sete e meia já estaria dentro de sua classe. Assim ia ele, com a cabeça baixa, não apenas pelo desânimo de ter acordado cedo, mas também para olhar bem o caminho que seus pés pisavam: insetos que espreitavam nos defeitos da calçada, mudanças de pavimentação, água que escorria de algum lugar indeterminado, etc. Tudo poderia ser interessante, ou apenas uma distração sem qualquer sentido.

“Djou…”, ouviu novamente, mas agora não era o sapo de seu sonho, nem seu irmão pentelho; o complemento do vocativo: “… tro mundo” – lhe indicava quem era: Silão, um colega que pegava o mesmo caminho que ele para a escola. Embora fosse conhecido por seu nome: Silas, no aumentativo – era um menino franzino de voz estridente e com uma arrogância inversamente proporcional ao seu corpo. A “brincadeirinha” com o apelido de Djou era o verdadeiro motivo de tal apelido, ele era visto como alguém “de outro mundo” ou, falando mais rapidamente, “djoutromundo”.

Djou nem se irritava mais com o apelido, o que ele não conseguia conceber era como Silão repetia o mesmo grito todas as vezes que o encontrava; e, pior, como se cada vez fosse a primeira. “E ainda dizem que eu é que sou de outro mundo”, pensava. A resposta era bem mais fria: “fala, Silão”. Dali até a escola Silão acompanhava Djou monologando:

– Ontem meu pai comprou quatro pneus novos para o carro, mas não eram quaisquer pneus não, eram dos melhores. Tá certo que os antigos nem estavam tão gastos assim, mas meu pai não gosta de correr riscos, por isso ele comprou logo uns importados. Quais pneus seu pai usa? – (“Nem imagino”, responderia Djou) – Ele também levou o carro para a Mega oficina, lá eles fazem serviço direito mesmo. Aonde seu pai leva o carro? (…)

E assim iam. Silão sempre tinha alguma coisa melhor que qualquer um próximo a ele; se não tivesse, conhecia alguém que tinha. Ele também já havia ido para os melhores lugares e feito as melhores aventuras, principalmente se você já tivesse ido a algum lugar legal ou feito alguma grande aventura. Djou apenas ouvia e, na verdade, até achava graça, já havia se acostumado com a companhia de Silão.

3. Excursão? Que excursão?

Ao chegarem à escola Silão foi para sua classe, o que não perturbou Djou nem um pouco, o que o perturbou foi ver sua turma toda em frente ao portão. “Será que vão todos enforcar aula?” – pensou. Assim que o viram foram logo o cumprimentando com bastante entusiasmo: E aí Djou? Fala Djou? Beleza Djou? – ao que ele ia respondendo com o mesmo entusiasmo.

Embora ele não fosse o típico “popular”, contava com a simpatia de todos, não era nem “puxa-saco” e nem um “mauzão”; sentava no fundo, brincava com o pessoal, mas tirava boas notas e respeitava os professores, além de ajudar o pessoal com as lições sempre que podia, por isso o cumprimentavam de maneira tão animada. Ele continuava cumprimentando e respondendo aos cumprimentos até que alguém perguntou: pronto pra excursão, Djou? – Que excursão? Perguntou assustado.

Era comum Djou esquecer-se dos compromissos de sala-de-aula, em quase toda prova era a mesma coisa, mesmo assim ele as fazia com certa facilidade. Mas agora era diferente, tratava-se de uma excursão pra outra cidade, daquelas que exigem, inclusive, um papel assinado pelo responsável. Ele ficou aflito ao lembrar-se de que nem havia tirado o papel da mochila para mostrar à sua mãe, embora houvesse comentado que fariam tal passeio. Rapidamente pensou em voltar correndo para casa, mas foi aí que notou que o ônibus já estava estacionado e que a professora já iria começar a chamada para o embarque. Ele sabia que ela, exigente como era, não iria tolerar atrasos, ainda mais por uma assinatura que havia sido pedida há duas semanas. Ele até pensou em desistir da viagem, mas ouviu a professora chamar o primeiro nome da lista: Ana Flávia. Seu coração bateu mais forte, mas ele disfarçou bem.

Flavinha era a garota de seus sonhos, não o sonho do sapo, claro, mas era aquela em quem ele pensava todas as noites, e dias, e tardes, quando não estava ocupado com tantas brincadeiras. Ele a viu entrando no ônibus: aqueles olhos grandes, aquele sorriso leve e gentil, cobertos por longos e encaracolados cabelos castanhos. Isso era tudo o que ele precisava para fazer o possível para entrar naquele ônibus. Mas como? Que desculpa poderia inventar para a professora (que era justo a mais chata)? Pensou então, rapidamente, em um errado, porém necessário, golpe. Pegou seu caderno em sua bolsa: o papel a ser assinado ainda estava lá; pegou a caneta e imitou a assinatura de sua mãe, isso não era tão difícil, visto que ela apenas assinava seu próprio nome em letra de mão, lenta e redondamente. Djou driblou sua consciência reafirmando a si mesmo que havia avisado sua mãe sobre a excursão, agora só faltava a professora não perceber o embuste. Pronto, foi fácil. Ao entrar no ônibus foi logo procurando aqueles cabelos castanhos. Encontrou-os na quarta fileira, o lugar ao seu lado ainda estava vago, ela olhou pra ele com aqueles olhos doces e ele se viu sentando ao seu lado, mas sua timidez insistia em sentar ao fundo, e ela venceu.

4. Diversão no ônibus

Olhando-o sentado nas poltronas do fundo ninguém diria que ele tivera qualquer luta com a timidez, não diriam nem que ele estava sentado. Junto com os outros meninos ele contava piadas, inventava músicas, torcia para que a Flavinha reparasse e logo estava totalmente envolvido na viagem e nas brincadeiras. O ônibus já havia tomado a estrada.

O dia, que começara nublado, estava agora favorecendo o passeio. As nuvens se dissiparam e um belo sol iluminou toda a estrada. De forma especial, Djou gostava de ver os raios de sol passando por entre os galhos dos eucaliptos que margeavam a pista, o movimento do ônibus criava um belo espetáculo neles. Ele não conhecia outro menino que gostasse de contemplar isso, mas tudo bem, ele também gostava de se juntar a eles na janela aberta do ônibus e gritar para quem estivesse próximo à pista: ô, Gerardo! – de modo que a pessoa, independentemente do verdadeiro nome, respondesse com um aceno, visivelmente confusa. Quando isso acontecia era uma gargalhada geral no fundo do ônibus. Um bom motivo para mais uma bronca da professora, que ia sentada à frente, e para um sorriso de Ana Flávia, que era o que interessava.

O ônibus seguiu pela estrada principal por vários quilômetros, os quais nem foram percebidos pela turma animada do fundão, nem para os outros, que se divertiam com o que acontecia lá. Num determinado momento o animado ônibus saiu para a direita e entrou numa estrada de terra. Djou logo pensou: “para onde este ônibus vai?” – ele nem se lembrava do destino da excursão, talvez por haver lido o nome do local no bilhete e não ter identificado o que era. A estrada de terra cortava um canavial, era um chão com terra bem batida, tanto que a chuva da noite anterior nem fora suficiente para formar muita lama.

5. Parada de emergência

Em pouco tempo as margens da estrada substituíram o canavial por um laranjal, e a paisagem ficou até mais bonita. Alguns passageiros já começaram a ver as laranjas amarelinhas entre as folhas das laranjeiras e torciam por uma parada do ônibus para catarem algumas. E, de repente, com um grande solavanco, não é que o ônibus parou mesmo?!

Os alunos, a princípio se assustaram com a parada brusca e relativamente violenta, mas, ao verem que tudo estava bem, trocaram o susto pela curiosidade. Olharam pelas janelas para ver o motorista descendo do ônibus com um assistente – que nem haviam percebido que estava lá – e pela janela viram-nos abrindo a tampa do motor e uma fumaça cinzenta saindo de dentro. A professora, mais aflita que todos os alunos, perguntava ainda lá de dentro: “o que foi? O que aconteceu?”. Ao que o motorista, visivelmente transtornado, respondeu sem nenhuma clareza: “não consegui identificar ainda, mas está tudo bem”.

Ouvindo a frase final: “está tudo bem” – os alunos se relaxaram, ficaram em pé dentro do ônibus, espreguiçaram-se e começaram a conversar. Alguns foram logo para frente do ônibus com intenção de descer, mas a professora, ainda assustada, ordenou-lhes que voltassem aos seus lugares e ficassem em silêncio. Eles até voltaram para seus lugares, mas antes que sentassem começaram a protestar: “mas o que isso tem a ver, não estamos atrapalhando nada” – “é que é rapidinho, daí a gente já sai”, respondeu a professora inseguramente e sem convencer ninguém – “preciso fazer xixi”; “eu também”; “eu também” – e aí ela já não conseguiu controlar mais nada, ela só conseguiu insistir para que ficassem por perto do ônibus.

6. Aproveitando a ocasião

 

Uns foram logo em direção às laranjeiras, outros foram olhar o motor e conversar, e, sim, houve os que realmente foram fazer xixi. Djou, juntamente com o Batata e o Coruja, foi seguindo a estrada de terra na direção que o ônibus tomaria.

“Podemos ir juntas?” – essa voz era música aos ouvidos de Djou, nem é preciso dizer quem era.

Isso o deixava bem à vontade. Chegar nela pra puxar assunto era uma tarefa árdua para Djou, mas quando isso partia dela, era uma delícia. Flavinha, por sua vez, gostava muito da companhia de Djou e freqüentemente o procurava. Era difícil dizer se ela o via como um possível namorado ou apenas como um amigo legal. A acompanhante era sua inseparável amiga, Ciça, uma garota que não chamava tanta a atenção, a não ser por demonstrar quase que uma dependência espacial de Ana Flávia.

– Claro que podem, aliás, devem – respondeu Djou disfarçando o enorme sorriso.

– O que será que aconteceu com o ônibus?

– Sei lá, acho que fundiu o motor, pelo menos isso é tudo o que eu sei que pode acontecer de ruim num motor, hehehe.

– Você não liga muito pra essas coisas, né?

– Ah, todo menino já diz que gosta dessas coisas de mecânica e futebol, eu sou diferente.

– É mesmo, é “djoutro” mundo, hahahahhaha – intrometeu-se Ciça sem obter apoio.

– E do que você gosta? – retomou Ana Flávia.

– Na verdade nem sei ainda do que eu gosto mesmo, parece que o que eu devo gostar está muito longe da minha realidade.

Essa frase deu um breve tempo na conversa, aqueles poucos e silenciosos segundos que constrangem os que querem passar uma boa imagem pela conversa. Mas nesse caso havia mais, parecia que tinham encontrado um ponto de contato em seus sentimentos, algo que não sabiam explicar.

O jeito, agora, era retomar a conversa com algum chavão do tipo “está quente, né?”; ou alguma coisa sobre o ônibus. Mas essa segunda situação constrangedora não foi necessária, pois foram interrompidos novamente pela Ciça, que acabou piorando o constrangimento.

– Ah, Djou, todo mundo sabe de quem você gosta…

Djou ficou vermelho, azul, amarelo, branco, etc. Era um misto de vergonha, raiva, verdade e desejo de não transparecer qualquer desses sentimentos. Seu único sentimento concreto era o desejo de que a Ciça sumisse dali. Mas antes que ele pudesse demonstrar qualquer reação, o Batata, que estava um pouco mais a frente, chamou a atenção de todos:

– Olhem que riozinho legal!

Já em cima de uma ponte ele apontava para o rio que passava embaixo, calmo e com água muito cristalina. Um pouco mais à frente estavam uns meninos que, ao que tudo indicava, moravam por ali, e pulavam da ponte ao rio fazendo acrobacias no ar, esse espaço entre a ponte e o rio era alto, aproximadamente quatro metros.

A turma ficou olhando os meninos pulando e logo o Coruja estava sem camisa. “O que você vai fazer?” – perguntou Ciça; “vou pular também, oras”, e antes que terminasse a frase já estava suspenso no ar em direção à água. O Batata o acompanhou imediatamente. Flavinha virou-se para Djou e perguntou: “Você tem coragem?”. Se Djou não tivesse, agora teria. Ele não era de se arriscar muito, mas como havia visto que os meninos que moravam por ali pulavam tranquilamente, calculou que era seguro, e foi. Isso também seria um bom motivo para se livrar da Ciça, ao mesmo tempo em que poderia impressionar a Ana Flávia.

Entretanto, o frio na barriga pelo primeiro salto, a emoção de ir até o fundo daquele rio e subir bem rápido antes que fôlego acabasse, enfim, toda a adrenalina, fez com que ele até se esquecesse de tudo isso e só se preocupasse em pular mais vezes.

O ônibus e a professora estavam há uns trezentos metros dali, e de lá ela percebeu que alguma coisa – errada ao seu entender – estava acontecendo com seus alunos fujões. Os meninos conseguiram dar uns três pulos cada, até que a professora chegasse com aquele esperado sermão: “o que você pensam que estão fazendo? Eu não disse pra ficarem por perto? Isso aí é um perigo! Vocês estão todos molhados, como vão entrar no ônibus? Podem se considerar suspensos!” – esbravejou e voltou transtornada para o ônibus, ainda parado. Os aventureiros e as meninas caíram na risada, compararam-na com uma panela-de-pressão, com uma granada, com aqueles “cachorrinhos de madames” que não podem ver ninguém que começam a rosnar e girar em torno de si mesmos; e mais comparações conforme a criatividade de cinco adolescentes era capaz de fazer.

Mas uma pergunta realmente intrigava Ana Flávia: “vocês estão todos molhados, como vão entrar no ônibus?” – até esquecemos disso – responderam rindo. Na verdade, Coruja e Batata estavam com shorts sobressalentes, pois o local para onde iriam teria cachoeira. Djou, obviamente, estava desprevenido, mas Coruja ainda tinha mais uma calça de moletom na bolsa, o que foi sua salvação.

As meninas perceberam que eles queriam trocar-se e voltaram ao ônibus, ainda rindo bastante. Os meninos se trocaram e começaram a voltar para o ônibus, quando Djou percebeu que havia esquecido seu relógio perto da ponte. “Podem ir, eu já alcanço vocês” – disse aos amigos, e voltou para pegar o relógio.

7. Quem é esse homem?

Pegou o relógio e aproveitou para olhar a paisagem. Via as últimas ondas na água do rio abaixo, deixadas pelos meninos vizinhos, que estavam de saída. Percebeu a linha até onde iam as laranjeiras antes do barranco que dava no rio e o começo das outras no outro lado. Percebeu que mais à frente havia casas simples com animais e mangueiras frondosas, e que o caminho era escondido por outras árvores depois da curva próxima às casas. Djou pensava até numa pintura a óleo que se poderia fazer daquele lugar.

Por trás das árvores, chegando à curva mencionada, apareceu uma carroça, puxada por apenas um cavalo. Vinha devagar na direção em que Djou estava.

Conforme chegava mais perto, ia revelando uma visão curiosa dela mesma:

O cavalo era pequeno, cinzento e parecia velho e cansado, mas estava usando um chapéu vermelho e o que parecia um colete marrom em seus membros anteriores. A crina era longa e bem cuidada, caindo pelo lado esquerdo do pescoço e no rabo havia tranças e fitas coloridas. A carroça era de madeira tosca, entretanto pintada de um azul celeste já desbotado pela ação do tempo, ela era um tanto comprida e carregava algo.

Mas, antes que Djou pudesse ver o que era, a figura que pilotava a condução chamou mais sua atenção ainda. Era um senhor magro, de pele morena e longas costeletas brancas, ele usava um chapéu verde com franjas caindo de sua aba e, logo atrás delas, apresentava um simpático sorriso. Seus trajes eram também peculiares, vestia um fraque marrom, surrado, porém alinhado; por baixo, uma camisa amarela e uma gravata bordô. As botinas de couro de cobra se destacavam apoiadas sobre o apoio de madeira, enquanto as barras da calça, naturalmente levantadas pela posição das pernas, revelavam um par de meias finas, vermelhas com estrelas azuis bordadas.

Djou apenas acompanhava a enigmática figura com os olhos, a carroça vinha, vinha, e quando estava bem perto, ele percebeu que o velho senhor balbuciava uma canção cuja letra parecia ser: djou, djou, djou. Isso o deixou ainda mais encafifado, porém não mais que quando, ao estar o velho bem à sua frente, este levantou a aba frontal de seu chapéu olhando-o bem nos olhos com seus olhos verdes, sob densas sobrancelhas brancas, e disse sorrindo: Djou, djou, djou… Ao que nosso amigo ficou congelado e boquiaberto. Como aquela figura sabia seu apelido? Ou seria apenas uma coincidência? Enquanto pensava nessas possibilidades a carroça passava lentamente à sua frente, quando pensou em perguntar algo ela já ia avançando em seu caminho.

Então ele apenas viu que o velho carregava várias tábuas largas e coloridas na carroça. Como esta seguia em direção ao ônibus, do qual Djou já havia se esquecido, ele começou a segui-la em passos mais rápidos. Mas antes que ele a alcançasse ela virou à direita numa estreita trilha que descia um barranco, e Djou ficou em dúvida se continuava a segui-la.

Sua indecisão foi interrompida pelos gritos que vinham do ônibus, o qual estava consertado e funcionando, com todos os alunos lá dentro e a professora, ainda irritada, chamando-o pela porta aberta. Djou correu, entrou e se sentou, não deu atenção a ninguém, continuou a pensar no que havia acontecido há pouco. Os amigos perceberam e não se preocuparam, apenas diziam uns aos outros: “está no mundo dele, hahahahah”.

8. Mais estranho ainda

O ônibus recomeçou a andar, já eram 11h35 e o pessoal estava mais quieto, devido à fome que já começava a bater àquelas horas e ao calor que o dia ensolarado infligia dentro do ônibus. Em poucos metros, através de sua janela, Djou viu onde estava o velho e a carroça que haviam passado por ele. Como o ônibus era mais alto, ele podia ver onde o baixo barranco, que a carroça desceu, dava.

Lá embaixo o velho havia construído uma pequena casinha com aquelas tábuas que estavam na carroça. Essa casinha parecia ter pouco mais de dois metros de altura e um metro e meio de largura e comprimento, ela era bege com detalhes de todas as cores, os quais estavam difíceis de identificar pela distância. Na frente havia uma porta e, sobre ela, uma placa com algo escrito. Mas o mais estranho é que o velho estava conduzindo o cavalo, e consecutivamente a carroça, para dentro da casinha e, por incrível que pareça, iam-se cabendo lá dentro. Por fim entrou o velho, ele ficou parado na porta, com a mão na maçaneta pelo lado de dentro, olhando para o ônibus ou, mais especificamente, para Djou. E quando este estava quase o perdendo de vista, o velho acenou para Djou e fechou a porta da casinha, que sumiu instantaneamente! Sim, ao fechar a porta por dentro, a carroça, o cavalo,o velho e a própria casinha sumiram!

9. Coisas do meu mundo

Djou ficou espantado e confuso, ajoelhado em sua poltrona e com a cabeça pra fora se esforçava para tentar ver mais alguma coisa, mas já era impossível. Preocupado em olhar para trás, não percebeu que da frente vinha um galho de árvore, ou melhor, que sua cabeça ia em direção ao galho, mas ao sentir as primeiras folhas raspando sua cabeça, puxou-a pra dentro.
Nem havia notado que Flavinha estava sentada na poltrona ao seu lado há algum tempo. Quando a viu, percebeu que o estava observando em toda essa cena, demonstrava agora um ar de dúvida, preocupação e, também, de uma certa gozação com relação a ele.
– O que você tanto olhava, Djou?
– Você não viu?
– O quê?
– O velhinho dentro da casinha mais o cavalinho e a carroça e a porta e…
– Do que você está falando?
Djou percebeu que outros amigos estavam por perto e também com interesse pelo que estava acontecendo.
– Vocês também não viram?
– Não vimos o quê, Djou?- todos perguntaram juntos.
– Ah, deixa pra lá…
– Mas fala o que foi.
– Não foi nada… Coisas do meu mundo.
Com essa piadinha sobre si mesmo, Djou desviou a atenção de seus colegas que, ainda confusos, voltaram às suas atividades, ou seja, se divertirem enquanto não chegavam. Ana Flávia continuou ao seu lado e insistia:
– Por que você não quer falar o que você viu?
– Porque nem eu sei exatamente o que eu vi.
– Sabe sim, desde que você entrou no ônibus você parece outra pessoa, você deve ter visto algo muito louco. Fala pra mim.
Esse “fala pra mim” foi uma bomba para Djou. A Flavinha sabia como tocá-lo lá no fundo, ainda que inconscientemente. Como ele poderia recusar a um pedido vindo dela, ainda mais com uma voz tão meiga que beirava à chantagem emocional? Mas, por outro lado, o que ela pensaria dele se descrevesse a cena tão inusitada, sobre a qual nem ele sabia o que pensar? Sua saída, então, foi dizer que havia visto um peixão colorido descendo o rio. Flavinha não se convenceu muito, mas aceitou a resposta. Djou se sentiu mal por haver mentido e, mais ainda, por não saber o que fazer. A parte boa é que Ana Flávia estava ao lado dele, ao que ele procurou valorizar inventando rapidamente outro assunto para conversarem, a fim de impedir que ela saísse dali:
– Será que falta muito pra chegar?
– Não faço idéia…
Não foi muito estratégico, era uma daquelas perguntas típicas da falta de assunto, mais uma vez. Ainda bem que já estavam chegando. A professora avisou que a fazenda que estavam vendo ao seu lado direito era a que estariam visitando nessa excursão. Todos correram para o lado do ônibus, procurando antecipar com os olhos aquilo que experimentariam lá dentro.
Djou, que estava sentado do lado da janela, ajoelhou-se na poltrona para olhar através dela e, para seu deleite, Flavinha ficou atrás dele apoiando o queixo sobre seu ombro. Djou torcia para que o ônibus nunca chegasse ao destino, queria aproveitar bastante da situação.

10. Chegando à fazenda

O ônibus logo foi entrando pela porteira, aberta por um dos empregados da fazenda. Quando o viram, obviamente, os meninos gritaram: ô, Gerardo! – ao que o empregado respondeu acenando com o braço e demonstrando sua confusão. A gargalhada foi geral, exceto pela professora que insistia para que tivessem respeito pelo empregado. Mas não se tratava de desrespeito, era apenas uma brincadeira, será que a professora nunca fora adolescente? – Era mais ou menos isso que passava pela cabeça da turma.
Já dentro da fazenda, e antes que chegassem ao estacionamento, apareceu Ciça, cortando todo o barato de Djou em ter Flavinha em seus ombros. Ela queria saber se Ana Flávia tinha visto sua mochila. Na verdade era sua dependência espacial que estava em crise de abstinência, conforme pensou Djou, profundamente irritado com a intervenção. Elas se foram pra frente do ônibus para encontrarem a tal mochila e, nesse ínterim, o ônibus estacionou no lugar apropriado. Todos desceram ao galpão principal, onde um aromático almoço já os aguardava. Antes que se dispersassem, a professora os reuniu e passou as instruções com relação ao dia em que ficariam lá:
– Bem, alunos, finalmente chegamos. Deveríamos ter chegado mais cedo, mas com o incidente no ônibus já chegamos para o almoço. Agora vocês deixarão suas coisas nos quartos e voltarão para almoçar. Na porta dos quartos há os nomes de vocês. Nós vamos almoçar, teremos um tempo livre e às quatorze horas vocês estejam aqui no galpão, que o senhor Josias vai nos levar para conhecermos a fazenda. Lembrem-se que é para isso que viemos aqui, não quero ninguém indo pra outro lugar e nem demorando pra chegar aqui. Nosso objetivo é aprender na prática sobre o que temos estudado e…
E a professora continuou falando sobre a importância da aprendizagem prática e todo aquele discurso padrão. O que os alunos queriam ouvir já tinham ouvido e, assim que ela terminou de falar, todos correram para deixarem seus pertences nos quartos indicados e voltarem para o almoço.
E que maravilha de almoço! Era uma comida mineira, feita no fogão a lenha: arroz carreteiro, tutu de feijão, lingüiça, bisteca de porco, banana empanada, ovo frito, saladas variadas e suco de caju à vontade.

11. O tombo da auto-estima

Quando Djou chegou ao refeitório, Flavinha já estava sentada à mesa almoçando, obviamente Ciça estava ao seu lado, mas o outro lado estava vago. O que acontecera no ônibus deixou-o mais confiante para sentar-se ao seu lado e, possivelmente, ter uma boa e longa conversa com ela. Djou foi servindo-se rapidamente e pensando até em quanto tempo ele poderia falar com ela sobre namoro. Mas quando estava indo em direção à mesa, Jorge, o bonitão da classe, sentou-se ao lado dela. Ela pareceu muito alegre com a companhia dele e conversava animadamente dando várias gargalhadas durante a conversa. Até Ciça estava animada com a companhia do galã.
A auto-estima de Djou, que já não era aquelas coisas, desceu ao dedão do pé. Ele pensava em sua capacidade de competir com alguém tão boa pinta e tão carismático quanto o Jorge, e sentia que não tinha chances. Chegava a imaginar que estivessem falando dele, que Ana Flávia estivesse contando sobre seu jeito estranho no ônibus por não falar o que tinha visto e, assim, cada gargalhada parecia estar relacionada a ele.
Como ela poderia fazer isso? Depois de tanta intimidade no ônibus? Djou não se conformava. Mudou de direção e foi sentar-se na mesa onde estava o Batata, o Coruja e os outros meninos do fundão. É claro que ele não demonstrou qualquer frustração a ninguém, mas a situação o corroía por dentro. Ele comia e ria amarelamente com seus amigos, mas sempre dava um jeito de passar os olhos por onde estava sua amada e o galã para ver se não estava acontecendo nada “pior”. Viu-os apenas terminando de comer, levantando-se e saindo juntos, os três; e não quis ver mais nada. Voltou sua atenção para os amigos e fingiu fazer parte da divertida conversa.

12. “Seu” Josias

Terminaram de comer e foram dar uma volta pelos arredores do refeitório, para irem conhecendo o lugar antes da apresentação do “seu” Josias. Era uma fazenda antiga, porém restaurada e reformada, de modo que mesclava um ambiente rústico com algumas modernidades e boa decoração. Do rancho, ao lado do refeitório, podiam-se ver as maravilhosas piscinas, jardins bem planejados e, mais ao fundo, uma floresta que praticamente pedia a seus espíritos aventureiros que fossem explorá-la. Essa idéia não lhes saía da cabeça, principalmente do curioso Djou. Mas antes que pudessem planejar algo, ouviram o som do sino que os chamava para se reunirem.

“Seu” Josias os aguardava animadamente, era um senhor de 68 anos, entretanto com uma vitalidade que muitos daqueles adolescentes não tinham. Estava lá, em pé, alto e magro, com uma pequena barriga tentando aparecer.  Usava um boné amarelo com a propaganda de algum candidato, camiseta pólo listrada de verde e vermelho e uma bermuda social bege, um tênis bem surrado e meias sociais pretas finas, o que criava um belo “modelito”. Mas nada disso podia afetar negativamente uma figura tão simples e carismática como a dele. Algumas meninas e meninos, mais vaidosos, achavam graça em seu jeito de combinar as cores, mas Djou sonhava em ter tal vitalidade quando tivesse aquela idade.

Saíram, então, pela fazenda afora. Conheceram os estábulos, árvores que nunca haviam ouvido falar, flores de beleza raras, a quantidade de pessoas trabalhando para manter tudo em ordem; descobriram a diferença entre boi e touro, o que foi uma surpresa não muito agradável para muitos, especialmente para os meninos; conheceram a criação de porcos (não faltaram comparações com colegas de classe), aprenderam ali que, para a engorda do porco, o segredo está na grande quantidade de sal em sua comida, para que bebam bastante água junto e fiquem num pequeno espaço para que não façam exercícios, o que causou novas comparações, mas agora a si mesmos.

O passeio continuava e perceberam que iam em direção à floresta que rodeava a fazenda, “seu” Josias anunciou que começariam a “trilha da perigosa”. O nome assustou a muitos. Claro, desacostumados com o campo e entrando numa floresta densa e desconhecida, que perigos poderia haver naquele caminho? Mas logo o guia explicou que se tratava do nome da cachoeira que era o destino da trilha. Segundo ele, era uma das cachoeiras mais bonitas da região, entretanto era muito perigosa por causa da altura do paredão e da força com que a água caía. A professora, que estava junto, já ficou em suspense e deu ordens a todos para que nem pensassem em fazer gracinhas lá perto….

13. Na trilha

Djou estava curtindo o passeio, mas não tirava os olhos de Ana Flávia e seus amigos, principalmente do amigo sorridente ao lado dela.

Quando adentraram a trilha propriamente dita, todo o grupo ficou em pares, por ser uma trilha muito estreita. Do lado direito subia um barranco quase a noventa graus, com várias raízes à mostra e, nelas, pequenas vegetações e insetos se escondendo. Do outro lado o barranco continuava numa descida bem íngreme, mas a visão exata de sua dimensão e inclinação era escondida por moitas e folhas pendentes. Ainda bem que havia uma cerca de bambus servindo de corrimão e cerca deste lado.

Entretanto os olhos de Djou estavam na frente do caminho, Jorge era o par da Ana Flávia. Isso era impossível, ele conseguira desbancar até a Ciça! Djou sentia que precisava fazer algo. Mas o quê? Chegar lá e tira-la das mãos do galã? Mostrar à Ana Flávia o quanto ele era alguém muito mais inteligente e bom? Lutar com Jorge por sua amada? Seria melhor que ele lutasse com sua baixa auto-estima.

Ao chegarem ao local onde estava a cachoeira, presenciaram uma cena tão linda que até mesmo a atenção de Djou foi arrebatada por ela. A trilha chegava próximo à parte superior da Perigosa e, olhando a altura de sua queda, todos puderam entender o motivo de seu nome.

Foram descendo ao lado da grande queda d’água, percebendo sua magnitude enquanto iam mais abaixo até vê-la do plano onde ficariam. A água que caía formava uma espécie de névoa no final da queda, terminava numa grande piscina natural de água cristalina e continuava seu curso por uma pequena corredeira ao lado

Mas a beleza ali não estava apenas na queda d’água em si, mas em todo o conjunto da obra: a vegetação que circundava a cachoeira com todas as suas cores, a transparência da água com seus pequenos peixes facilmente visíveis, os pequenos e lisos pedregulhos que ficavam à margem, por onde entrariam para se deliciar. E, coroando tudo, um maravilhoso céu azul que parecia ser de onde a cachoeira saía.

Djou e seus amigos tiraram suas camisas e logo entraram naquela água limpa e gelada e se divertiam muito lá dentro. Essa combinação tomava toda a mente e sentimentos de Djou, por alguns instantes ele era apenas ele mesmo, brincando com a natureza, com seus amigos e consigo mesmo. Naqueles instantes não importava sua auto-imagem, ou seus desejos, ali parecia que tudo estava satisfeito, ele não precisava ser nada mais além do que era.

Ana Flávia o observava e, de certa forma, percebia isso em Djou. Era isso o que ela mais gostava nele. Ela estava sentada num tronco que servia de banco para visitantes, com Jorge entre ela e Ciça. Jorge estava conversando com Ciça alguma coisa mais formal, aquele tipo de conversa que um pretenso conquistador tem com a amiga da pretendente só pra não parecer muito “grudento”. Enquanto isso Flavinha olhava Djou e seus amigos, sem saber exatamente o que sentia, apenas olhava e gostava do que via.

14. Debaixo de um iceberg

Depois de se divertir bastante, Djou se lembrou da situação que o incomodava. Saiu da água em direção aos três sorridentes, entretanto, conforme ia chegando perto, desviou o rumo para sentar-se mais distante. Era, de certa maneira, uma estratégia que pretendia que Ana Flávia o visse, mas visse também que ele não estava se importando com o que ela estava fazendo com ele, se é que ela estava fazendo algo.

Quando ela viu que ele mudava de direção, levantou-se e foi até ele.

– Djou, está acontecendo alguma coisa?

– Claro que está. Estou me divertindo muito – respondeu de modo grosseiro.

– Você está bravo com alguma coisa?

– Com o que eu estaria? Está tudo ótimo – Djou continuava em seu tom arrogante.

– Por que você não ficou com a gente?

– Não quero atrapalhar nada.

– Atrapalhar o quê? – Flavinha perguntou com dúvida e surpresa.

Nesse instante o Jorge chegou perto deles.

– Oi, Djou.

-oi… – respondeu Djou como se estivesse debaixo de um iceberg.

E rapidamente Jorge virou-se para Ana Flávia:

– Você vai querer entrar na água?

– Talvez – Ana Flávia respondeu olhando fixamente para Djou, como se esperasse uma resposta dele à pergunta do Jorge.

– Ana, ou sim ou não – insistiu Jorge.

– Você vai voltar Djou? – perguntou diretamente Ana Flávia a Djou.

– Deixa ele, vamos nós, ele já foi – argumentou Jorge, querendo se livrar de Djou.

Os sentimentos de Djou estavam mais bagunçados que seu quarto. Havia de tudo dentro de sua cabeça naquele instante: amor por Ana Flávia; desejo de estar com ela; raiva da situação constrangedora; ciúmes do Jorge; necessidade de defender seu orgulho ferido; angústia por se sentir trocado; indecisão sobre o melhor a fazer, etc. Com essa miscelânea de sentimentos contrários, não poderia sair outra resposta senão aquela que contrariava o verdadeiro desejo de seu coração:

– Não, eu…, eu…

– Você o quê, Djou?

– Eu já nadei e agora quero ver onde vai dar aquela trilha ali – respondeu apontando o dedo para uma trilha em meio às árvores, que havia visto naquele exato momento de indecisão.

– ‘Tá bom então – Ana Flávia não via outra opção senão concordar. – Mas a professora não vai gostar…

15. Fugindo de quê?

Djou já não estava ouvindo mais nada e suas pernas já estavam a caminho de seu mais novo destino. Colocou rapidamente seu tênis e camiseta e foi entrando pela trilha referida, tomando cuidado para que nem a professora nem seu Josias o vissem. Mas com isso ele não precisava se preocupar, a professora estava tão envolvida na conversa e no carisma de seu Josias que não estava vendo mais nada.

Já no começo da trilha, Djou olhava por entre as folhas para ver o que Ana Flávia estava fazendo. Viu-a na parte mais rasa do lago jogando volley com Jorge, Ciça e mais alguns. Continuou, então, a adentrar a trilha desconhecida, perdido em seus pensamentos:

– Por que será que ela preferiu o Jorge e não eu? Por que ela não insistiu pra eu ficar com ela? Por que ela não veio junto? Se ela não gosta de mim, por que ficou com o queixo no meu ombro no ônibus?…

Os pensamentos de Djou não estavam muito ligados ao que realmente aconteceu. Embora fossem pensamentos, não eram realmente racionais. Assim, Djou começava uma nova viagem, uma viagem em sua mente e sentimentos, uma viagem sem guia ou mapa. Enquanto isso, ele andava pela trilha como se estivesse no “piloto automático”: desviava de um galho, tirava folhas da frente com a mão, pulava troncos caídos no chão. Nem cogitava olhar pra trás. A viagem de seus pés parecia motivada pela viagem de sua mente.

Aos poucos foi chegando a uma clareira, um espaço limpo entre as árvores onde havia um gramado que parecia aparado. Mas o que mais chamou sua atenção, a ponto de interromper sua viagem, foi o que viu sobre o gramado: tratava-se de uma casinha. Essa casinha parecia ter pouco mais de dois metros de altura e um metro e meio de largura e comprimento, ela era bege com detalhes de todas as cores. Sim! Era a mesma casinha que ele havia visto quando estava no ônibus. Djou ficou muito confuso e surpreso, o que atiçou sua curiosidade e arrebatou seu pensamento.

Ele olhou nos arredores para ver se encontrava a carroça e seu condutor estranhos, que havia visto juntos com a casinha. Não os encontrou. Então se voltou para ela. Agora podia atentar melhor para os detalhes coloridos que vira anteriormente. Eram desenhos e inscrições, alguns familiares, outros indecifráveis. Mas a placa sobre a porta era legível:

– Bi-blio-teca do In-finito?! – Leu Djou em voz alta e demonstrando toda sua perplexidade. – Mas o que será isso?

Cautelosamente colocou a mão na maçaneta para testar se a porta estava aberta. Estava. Ele apenas girou toda a maçaneta, mas hesitou alguns instantes em abrir a porta. Então resolveu abri-la, puxando-a lentamente e procurando ver o máximo possível à medida que ela ia se abrindo.

16. Entre, mas entre mesmo.

Quando a porta se abriu totalmente Djou até se decepcionou, não havia nada de incomum, apenas um quadro com a seguinte inscrição: “O princípio da sabedoria é: adquire sabedoria Pv4.7”. Aquilo lhe parecia familiar. Sim, Pv 4.7 indicava que se tratava de um versículo bíblico: livro de Provérbios, capítulo quatro, versículo sete. Ao menos isso ele aprendera na escola dominical da igreja presbiteriana que freqüentava. Mas o que aquilo queria dizer? O princípio da sabedoria é adquirir sabedoria? Aquilo parecia tão óbvio. Mas, ao mesmo tempo, se é tão óbvio, porque tão pouca gente fala sobre isso?

E, apesar do breve questionamento, aquilo era tudo o que havia lá dentro. O que deixou Djou um pouco decepcionado e também confuso, pois ele tinha visto todas aquelas coisas esquisitas acontecerem com essa casinha, (se é que era a mesma), e não fazia nenhum sentido ela estar ali.

Resolveu, então, olhar um pouco mais, rodeou-a atentamente, procurou brechas, entrou novamente, procurou botões secretos ou aberturas no chão. Nada. Então, diante disso, apenas sentou-se dentro dela, começando a concordar que era de outro mundo e que talvez estivesse ficando louco.

De repente Djou ouviu um barulho por trás das árvores e levantou-se assustado. Começou a olhar em volta para ver se via algo, logo percebeu folhas se mexendo e começou a ouvir uma respiração forte e ofegante que parecia estar cada vez mais perto. De dentro da casinha, puxou a porta, quase a fechando, deixando apenas uma fresta para tentar ver alguma coisa. Percebeu que o mato a sua frente estava mais agitado e que parecia que algo estava vindo em sua direção. Seu desespero aumentou, não tinha para onde ir, nem queria sair e se deparar com o que quer que fosse, então começou a segurar a porta como se fosse um escudo diante de si, mas ainda olhando pela brecha. De repente viu, do meio das moitas, dois grandes olhos e muitos dentes afiados vindo em sua direção. Fechou de vez a porta assustado, esperando sentir um grande solavanco, mas não sentiu nada disso. Sentiu estar em outro lugar…

17. Na Biblioteca do Infinito

Djou ainda estava segurando a maçaneta e escorando a porta por dentro, mas percebeu que não estava naquela pequena casinha em que havia entrado. Aos poucos, então, foi se desencostando da porta e olhouem volta. Estavanuma imensa biblioteca.

Olhou para a porta em que estava escorado, mas ela não estava mais lá, apenas a maçaneta permanecia em sua mão. Entretanto, quando ele abriu sua mão, ela não caiu, mas sumiu no ar.

O que ele via, com certeza, era muito mais louco do que ele poderia criar em seu próprio mundo. Ele estava num corredor entre enormes estantes de madeira, cheias de livros de vários tipos, tamanhos e cores. Olhava à frente e não via o fim do corredor, olhava para trás e também não; deu alguns passos até o fim da primeira estante e, olhando para os lados, também não viu fim.

Quando olhou para cima ficou mais maravilhado ainda: as estantes eram muito altas e, num determinando ponto sumiam numa forte luz, que até parecia uma névoa luminosa. E lá em cima voavam vários pássaros diferentes.

Djou deu alguns passos procurando alguma coisa que pudesse lhe explicar, ou mostrar uma saída, ou… – ele nem sabia exatamente o que procurava. Logo viu que não havia o que fazer. Mas antes que pudesse ser tomado de desespero, sua curiosidade foi atiçada pelos livros à sua volta.

Começou a olhar os livros na estante mais próxima. Olhou, olhou, como se estivesse analisando todos, como se tivesse algum conhecimento do que estava escrito neles para escolher o melhor. Pegou, então, um livrinho pequeno, de capa branca, que lhe chamara a atenção, talvez pela cor reluzente ou pelo pequeno tamanho, o que facilitaria uma breve leitura sem compromisso.

Abriu o livrinho com as duas mãos, mas de modo displicente, e percebeu que suas páginas estavam em branco, o que achou estranho. Mas quando foi mudar de página, um pequeno pássaro que voava lá no alto pousou no livro e parecia comer em suas mãos. Então uma poesia lhe veio à mente:

Sentado na varanda da alma

Observo o sol que se põe

Vejo o campo perder seu encanto

O encanto da minha visão

Sentado na varanda da alma

Observo uma nova emoção

Entre o brilho da lua e da estrela

Algo que não vejo totalmente

Mas que é tão bom

Sentado na varanda da alma

Começo ouvir longínquos sons

E ver a luz de uma fogueira

E sentir vontade de estar lá

Sentado na varanda da alma

Observo, sinto, recebo e

Espero o momento de não sei quê

Nem quando

Aquilo era muito interessante, Djou tinha a poesia em sua mente, mas não sabia se a estava lendo, ou se lembrando, ou mesmo compondo-a. De qualquer modo, aquelas palavras faziam muito sentido para ele, era como se elas expusessem o que ele estava sentindo, porém sem apresentarem qualquer argumento ou explicação. E o passarinho continuava em suas mãos.

Com muito cuidado ele começou a tentar mudar de página, mas logo que o passarinho percebeu, voou. E quando terminou de virar a página, outro veio e pousou da mesma forma que o primeiro. Outra poesia lhe veio à mente:

Cantem as melodias do amor

E deixem as casas abertas

Sintam o frio do outono

E se aqueçam entre si

Em volta da fogueira

Sob a varanda das estrelas

Cantem as vitórias dos heróis

E se animem com as histórias dos pescadores

Sintam o calor do riso

E se creiam entre si

Na roda das imaginações

Sob a varanda das almas

Cantem as repetições do dia-a-dia

E surpreendam-se com os processos da vida

Sintam o mesmo de ontem

E vejam como é novo

O novo tipo de repetição

Na varanda das oportunidades

Cantem as canções desconhecidas

E descubram sua familiaridade

Sintam o insensível

E se arrepiem com o invisível

No contratempo do coração

Na varanda das emoções

Mais uma vez ele ficava sem saber de onde tal poema havia surgido, mas era maravilhoso! A cada página que virava, um pássaro pousava sobre a folhaem branco. Unslindos, outros feios Uns amigáveis, outros hostis. Uns permaneciam por um bom tempo, outros logo saíam. Houve até um que, levantando vôo, fez sujeira em sua cabeça. É…, pássaros fazem isso. Quando abriu um grande livro, que parecia um volume de uma enciclopédia, uma grande e bela coruja pousou sobre um espaço da estante e olhava fixamente, com seus grandes olhos, nos olhos de Djou. Era fascinante, mas também incômodo e ele logo fechou o livro, embora curioso com a continuação do que começara a surgir em sua mente.

E, em tudo isso, vinham-lhe pensamentos e sentimentos tão diversos quanto os pássaros que ali pousavam, tudo parecia diferente a familiar ao mesmo tempo. No último livro que olhou encontrou a explicação para esse fenômeno dos pássaros:

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam vôo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti…[1]

Tudo era maravilhoso e misterioso, mas Djou ainda queria saber onde estava e, mais ainda, como sair dali. Afinal, tinha toda uma vida em algum lugar e um amor pra conquistar. O que estaria acontecendo lá fora?


[1] “Os poemas” – Mário Quintana

18. Enquanto isso…

            A casinha em que Djou entrara ainda estava no mesmo lugar, do mesmo jeito. A fera que o atacara estava defronte à porta…, em pé…, de fraque marrom…, e rindo (?!)…

A máscara foi tirada e revelou-se o verdadeiro “monstro”. Era o condutor da carroça fantasiado. Ele, ainda com aquelas roupas esquisitas, havia bolado tudo para que Djou fechasse a porta por dentro, esse era o segredo.

Enquanto ria, ia desmontando a casinha. Tirou um lado do teto, o outro, empilhou-os na carroça azul celeste. Tirou a porta, os batentes, etc. Enquanto empilhava tudo, seu peculiar cavalo foi chegando, também dando risada e… falando!

– Como você é mau, Arquimedes.

– Serapião? Onde você estava?

– Havia uma especiaria muito saborosa ali atrás daquelas árvores – Serapião, o cavalo, referia-se a algum tipo diferente de capim que havia encontrado – Mas vi tudo.

– “O fim justifica os meios”.

– Pode ser, mas você quase matou o menino de susto.

– Fazer o quê? Está cada vez mais difícil levar o pessoal a sair da superficialidade e se envolver naquilo que se busca.

– Puxa, que palavras bonitas. Mas como você esperava que ele soubesse que deveria fechar a porta por dentro?

– Ele é um menino bastante curioso, mas muito acomodado, por isso acaba se contentando com pouco.

Enquanto Arquimedes, o condutor, falava, continuava a colocar as tábuas sobre a carroça.

– Sei que ele descobriria o segredo, só quis adiantar o processo.

– Mas com essa máscara horrível? – ironizou Serapião segurando o riso – Ela é muito mal feita.

– Ah, não diga isso, até que ela é boa e, na verdade, acho que ele só viu olhos e dentes, ouviu barulhos assustadores e nem quis esperar pra ver o que era – e riam-se de Djou.

– Mas os olhos precisavam ser feitos de bolinhas de ping-pong? – e riam mais alto ainda.

-Onde será que ele está agora?

– Acho que ainda na biblioteca. Vai demorar um pouco pra sair de lá. Mas não há com que se preocupar, o tempo lá é outro.

– Será   que ele vai conseguir sair?

– Estar lá é encontrar a saída.

– Hum, falou bonito de novo. E para onde “nós” vamos sair?

– Vamos para aquela caverna lá. Há um portal para o restaurante “Restaura Touro”.

– Uau! Só pelo nome, deve ser bom! – ironizou disfarçadamente Serapião.

– Lá a gente resolve para onde vai.

E se foram, rumo a tal caverna, onde entraram e sumiram. Seria outro mundo? Outro tempo? Outro planeta? Outra dimensão? Onde Djou estaria? Na Biblioteca do Infinito.

19. Dona Méia

Djou ainda estava na biblioteca. Não sabia se olhava mais livros ou se procurava a saída. Andava pelos corredores procurando alguma coisa, mas às vezes parava para olhar os pássaros lá em cima, já havia até se acostumado mais à forte luz que lá havia. E, em tudo isso, seus sentimentos ficavam mais confusos ainda: O lugar era magnífico, muitas coisas surpreendentes lhe vinham à mente; entretanto ele ainda não sabia por que estava ali, nem exatamente onde estava, ou como sair. E somava-se a isso o pior sentimento de todos: “o que Ana Flávia estará fazendo agora com aquele Jorge?”.

Depois de se desligar por alguns instantes apreciando o vôo dos pássaros, Djou olhou mais à frente no corredor onde estava e viu que havia uma pessoa lendo um livro. Isso primeiramente o assustou, mas depois o encheu de esperança e, automaticamente, correu em direção a ela.

Tratava-se de uma velhinha de aparência muito simpática. Usava uma blusa cinza e saia preta pra baixo do joelho sobre grossas meias de lã, também cinzas. Um sapato preto bem surrado e um lenço branco sobre a cabeça, o qual cobria um birote de cabelos ainda negros, apesar da aparente idade avançada. Mas o que mais chamava a atenção era sua expressão bondosa e serena, os olhos fundos e meigos realçavam as bochechas, que se mostravam muito simpáticas em conjunto com o amável e discreto sorriso. Ela estava com um livro preto nas mãos e vários tipos de pássaros a rodeavam, pousavam em seus ombros e cabeça, numa cena muito suave.

Quando ela percebeu que Djou estava perto, fechou o livro, mas permaneceu segurando em sua mão, e disse:

– Olá, Djou.

– Como a senhora sabe o meu nome? – perguntou espantado Djou.

– Os passarinhos me contaram. – e sorriu gentilmente.

– De onde a senhora é? Quer dizer: de onde veio? Como eu cheguei aqui? O que…

– Calma, “fio”. Não é isso que você quer perguntar.

– Não?! É, não mesmo.  Como é seu nome?

– Pode me chamar de Méia.

– Olá Dona Méia, prazer em conhecê-la. – Djou a cumprimentou calorosamente por entender que era disso que ela estava falando.

– Hum, que bom que se acalmou. Agora pense no que quer me perguntar.

– Isso tudo é real?

– O que você acha?

– Bom, eu estou vendo e tocando em tudo, teve até um passarinho que fez meleca na minha cabeça. Mas, sei lá, isso pode ser um sonho, coisa da minha cabeça.

– E, por acaso, o que existe em sua cabeça não é real?

– Ah, nem sempre. O pessoal sempre diz que sonho acordado… e dormindo mesmo.

– O que é real então?

– É quando…, quando as coisas acontecem de verdade, quando você pode reconhecer, ou…, quando todo mundo confirma…, deve ser isso. – respondeu Djou sem certeza alguma.

– E todo mundo confirma tudo o que você vê e sente? O que lhe acontece não acontece de verdade? O que você sente pela Ana Flávia é real ou coisa da sua cabeça? Alguém pode (ou precisa) confirmar o que você sente?

– Como ela sabe sobre a Flavinha – pensou Djou intrigado – ah, os pássaros, claro – concluiu mentalmente.

Essas palavras eram esclarecedoras e confusas para Djou. Eram óbvias, mas não permitiam uma resposta simples. Dona Méia continuou:

– Djou, primeira lição do dia: isso está acontecendo com você, ainda que só você saiba. Mas a verdade é que isso está mexendo com seu jeito de pensar e no modo como vê as coisas. A questão não é “onde você está”, mas “aonde isso pode lhe levar”. Não é por onde entrou, mas “como” sairá daqui.

– Se eu ao menos encontrasse a porta por onde entrei.

– Segunda lição: sair por onde entrou é permanecer no mesmo lugar.

– Ih, não estou entendendo mais nada, Dona Méia.

– Vai entender, “fio”, vai entender…

– Mas o que é esse lugar? E como vou sair daqui?

– Você não prestou atenção no que viu, não é mesmo?

– Acho que prestei, mas o que era pra eu ter entendido?

– Esse é um lugar de sabedoria, de conhecimento. Lá em cima está a grande luz, a luz do Pai das luzes, que a tudo ilumina. Os pássaros são os agentes dessa sabedoria. Nas estantes está o conhecimento humano, que vai aumentando de tempos em tempos, mas que desde o início é iluminado pelo Pai das luzes.

– Uau! Mas eu li umas coisas ali atrás que são bem obscuras, acho que não têm nada a ver com essa luz.

– Para haver sombra é preciso haver luz.

– É verdade. Mas ainda não entendi bem, esse lugar existe mesmo? Ou é minha imaginação?

– Se sua mente produz uma imaginação, sua imaginação existe.

– Ah, mas aí é invenção da minha cabeça.

– Não é por que um livro foi inventado que ele não exista.

– Então eu estou dentro da minha cabeça?

– Pense como achar melhor, mas a verdade é que isso está mexendo com você, lhe fazendo pensar e mudar.

– Acho que entendi…

Nesse momento houve uma longa pausa na conversa. Entretanto, não era uma pausa por falta de assunto ou por algum constrangimento, mas era uma pausa que realmente vale a pena: a pausa para pensar, para questionar, para tentar digerir o que foi ouvido antes que se esqueça o que era.

Era interessante que Djou ficava à vontade em ficar quieto perto da Dona Méia. Ele não sentia necessidade de falar, mostrar conhecimento, passar uma boa imagem. Parecia que ela o olhava como se soubesse tudo o que se passava em sua mente e, mesmo com tanta bagunça, apenas sorria pra ele, como se dissesse: isso mesmo, “fio”, apenas pense, não há nada que precise ser dito.

Então Djou quebrou o silêncio perguntando:

– Mas como eu saio daqui?

– Primeira lição do dia…

– A senhora já disse a primeira lição.

– Ah, que seja. – replicou sorrindo – A lição é: saia daqui melhor do que como entrou.

Dona Méia disse isso e apontou para cima. Djou olhou imediatamente para a grande luz, lembrando-se de um provérbio oriental que havia tomado conhecimento pouco antes de encontrar a bondosa senhora: “o sábio aponta para a lua, mas o néscio olha para o dedo do sábio”. Mas quando baixou a cabeça para agradecer e insistir em sua pergunta, Dona Méia não estava mais lá.

20. A Saída

            Djou ficou encantado com Dona Méia, apreciou a conversa que tiveram e realmente pensou nas palavras de sabedoria que ouviu. Mas logo esqueceu tudo isso por sua preocupação imediata: como sair daquele lugar?

– A Dona Méia me falou um monte de coisas, menos o que eu queria ouvir… – pensou um tanto chateado.

E então continuou a andar pelos corredores, olhando atentamente as estantes para ver se encontrava algo diferente. Mas como se procura algo no infinito? Logo se cansou e sentou-se no chão, num intervalo entre uma estante e outra, encostando-se no lado de uma delas.

Ficou um tempo pensando no que Dona Méia disse para tentar decifrar algum enigma e, assim, encontrar alguma pista para a solução de seu problema. Mas nada nesse sentido lhe chegava à mente. A impressão que teve é que ela não entendeu sua pergunta. Ele perguntou como poderia sair dali de modo objetivo, ou seja, com relação ao lugar onde estava. Mas ela insistia em entender o “como ele sairia dali” com relação ao seu modo de ser, pensar e sentir. E ele continuava ali.

Como não havia o que fazer, Djou esticou o braço e pegou um livro que estava embaixo na estante em que estava encostado. Era um livro de capa preta e beira dourada, o qual ele achava que conhecia muito bem. Era uma Bíblia, bem parecida com a que ele tinha e levava para a escola dominical. Ficou tão surpreso que a abriu com intenção de saber se acaso não seria a sua própria. Nesse instante uma grande e forte águia pousou ao lado dele. Veio-lhe, então à mente a seguinte frase:

“Vale mais ter paciência do que ser valente; é melhor saber se controlar do que conquistar cidades inteiras”.

Ele olhou para a grande ave e percebeu que ela estava com as enormes asas abertas, pronta para levantar vôo. Entendeu, então, de alguma maneira, que deveria se segurar em suas garras. Temeu por um momento, ele nunca havia feito nada parecido. A ave estava a, mais ou menos, um metro do chão, batendo as asas com grande controle e demonstrando que estava esperando uma atitude de Djou. Algo o motivou fortemente, então agarrou aquelas garras decididamente.

Ela deu apenas um impulso com as asas e subiu como um foguete. Djou fechou os olhos por causa do susto e da velocidade e tratou de se segurar o mais firme que podia.

Ainda sem coragem de abrir os olhos, Djou sentia algo fantástico. Percebia que estava voando muito alto e, de algum modo, sentia-se seguro.

Sentindo mais segurança, foi aos poucos abrindo seus olhos. E tudo era lindo. Ele estava voando com uma ave dentro da grande luz. Embora esta fosse indescritivelmente forte, não incomodava os olhos de Djou, muito menos os ofuscava. Pelo contrário, ele via tudo com muita nitidez: acima a grande e bela ave, abaixo podia ver as outras aves voando e o topo das estantes de livros. Começou a entender muita coisa, embora não conseguisse explicar ou descrever que coisas eram essas. Apenas sabia que o que estava acontecendo era muito bom. Não pensava mais em entradas e saídas, perguntas e respostas, e nem em Ana Flávia, Jorge ou mesmo Dona Méia. Apenas voava.

Num dado momento, sentiu tanta segurança que se soltou da águia e, por incrível que pareça, continuou a voar. E voando, adormeceu dentro da grande luz, tendo a águia por companhia.

Havia saído ou entrado? Na verdade, o que isso importava agora?

 

21. Acordando onde?

 

Era manhãzinha e o sol havia nascido há pouco. Era aquela a hora mais gostosa do sono, quando o friozinho aumenta lá fora, ao mesmo tempo em que o cobertor fica mais quentinho e confortável.

Djou ainda estava com aquela mesma sensação de voar com a grande águia, continuava dormindo e nem imaginava se iria querer saber se aquilo foi real ou imaginário.

Foi quando uma porta se abriu, ouviram-se passos e barulho de louças e talheres sendo colocados em uma mesinha ao lado. Então uma luz mais forte incomodou os olhos de Djou que, aos poucos, foi abrindo-os para ver o que estava acontecendo. Viu uma janela rústica, numa parede de madeira também rústica, e cortinas que ele nunca havia visto, muito bonitas e abertas para permitir a passagem de luz. Era melhor olhar bem onde estava.

Levantou então apenas a cabeça (seu corpo ainda estava bem confortável debaixo das cobertas) e começou a olhar ao redor. Estava num quarto todo de madeira rústica com alguns móveis idem, ao seu lado um criado-mudo com uma bandeja e o que parecia ser um café-da-manhã. E, em pé, no meio do quarto, olhando-o de uma maneira ansiosa e engraçada, estava uma figura muito peculiar. Tratava-se de um jovem encorpado, de cabelos loiros bagunçados, grandes orelhas, olhos de peixe morto, nariz de batata e um grande e generoso sorriso, faltando-lhe alguns dentes.

Djou estranhou, mas percebeu que não corria perigo, e perguntou com curiosidade:

– Quem é você? Onde estou?

O jovem deu uma risada tímida e engraçada e respondeu:

– O… Olá, mestre Djou. Não se lembra de mim? Sou o Dorival, filho da Dona Durvalina. O senhor está em nossa casa, se preparando para o grande dia.

Djou arregalou os olhos e ficou boquiaberto, não sabia nem o que perguntar ou o que dizer para continuar a conversa, ficou apenas com aquela cara de interrogação. Mas antes que ele tentasse dizer alguma coisa, Dorival, animado e desajeitado, insistiu para que ele tomasse a refeição que havia posto em seu criado-mudo:

– Olha, eu trouxe seu “desjum, quer dizer, des – je – jum. – Falou pausadamente esforçando-se para acertar – Ainda está quentinho, cheiroso, hum…, saboroso…

Parecia que quem queria comer mesmo era o Dorival. Djou ofereceu a ele, mas ele negou dizendo que seu mestre precisaria muito mais que ele. E saiu do quarto.

– Mestre? Eu sou um mestre? – pensou Djou – Onde estou? Que história é essa de “grande dia”? Será que é só uma mudança de sonho? Mas quando vou parar de sonhar?

E sua mente continuava confusa e sem respostas, mas o café-da-manhã, ou desjejum, parecia estar realmente saboroso, então ele sentou-se na cama, ainda com as pernas sob o cobertor e começou a comer. Havia um pão bem diferente do que ele estava acostumado, uma bebida quente que ele não conseguiu identificar, ovos fritos e o que pareciam ser fatias de salame, além de um cacho de uvas e duas maçãs. Ele comeu um pouco e pensou:

– Se isso é um sonho, como pode ser tão saboroso?!

Mas preferiu não se alarmar até entender melhor o que estava acontecendo. Quando terminou de comer, levantou-se e percebeu que estava só com uma ceroula esquisita. Olhou em volta e até embaixo da cama para ver se encontrava suas roupas. Mas nada de roupa. Entretanto, algo no fundo do quarto lhe chamou muito a atenção: uma armadura prateada e polida.

– Uau! Nunca tinha visto uma de verdade!

Correu para ela e percebeu que poderia servir nele. E, já que estava lá mesmo, tentou colocá-la. Era incrível! Parecia que a armadura tinha sido feita sob medida para ele. A couraça tinha até uma capa vermelha nas costas, só faltava o capacete. Djou tratou de procurar um espelho para se ver, mas, no quarto, não encontrou nenhum.

Foi, então, em direção à porta com o objetivo de sair e procurar um espelho. Mas parou no meio do caminho e percebeu que estava numa situação nada normal: estava em um quarto desconhecido; com uma armadura que – não se sabe como – parecia feita pra ele; tinha acabado de comer algo que nem sabia exatamente o que era; depois de ser acordado e servido por um cara estranho que o chamava de mestre.

Mas depois do que ele havia passado pela biblioteca do infinito, já estava mais preparado para isso. Pensou que poderia estar numa história em que a águia ou os outros pássaros o teriam levado; ou talvez fosse até uma brincadeira que estivessem fazendo com ele na fazenda em que estavam. Bom, de qualquer forma, desesperar-se não iria ajudar em nada.

Então ele foi e abriu a porta.

 

22. Grande dia? Que grande dia?

 

Djou saiu em um corredor onde havia outras portas, e o final dele dava numa escada, então foi em direção a ela. Chegando lá, viu que a escada descia num salão ao lado de um balcão, parecia que se tratava de um bar. Era todo de madeira, rústico e com belos utensílios dourado e prateados. No balcão havia alguém enxugando uma taça e, do outro lado, sentado em uma bela cadeira, um senhor sorridente a olhar pra ele ainda em cima da escada:

– Grande mestre Djou, acordou bem na hora. Venha! Vamos conversar!

Era um senhor de cabelos e bigodes grisalhos, gordo, com gordas bochechas rosadas e, aparentemente, muito simpático.

– Mas quem será este? – pensava Djou. Como sabe meu nome? Eu sou mestre dele também? O que está acontecendo?

Djou foi se questionando mentalmente enquanto descia as escadas, visivelmente confuso. Quando chegou perto do balcão, uma meiga voz o cumprimentou:

– Bom dia, mestre Djou.

Ele olhou e viu uma bela jovem enxugando taças. Ela lhe deu uma piscadinha e ele ficou vermelho e mais atrapalhado ainda.

– Ai, como eu queria ser uma princesa presa numa torre… – continuou a moça em suspiros.

– Ah, … é, seria bom.. você é…, mas não está presa… é… – Djou tentou falar algo.

– Guirlanda, deixe o mestre em paz, você sabe que ele tem uma missão muito maior para pensar – interrompeu o senhor, que aguardava Djou ansiosamente. Venha, sente-se aqui, rapaz!

Desconfiadamente, o “mestre” se sentou e timidamente cumprimentou seu anfitrião. Este parecia estar ao lado de uma grande celebridade, falava e gesticulava de modo exagerado:

– Grande mestre, finalmente chegou o grande dia, ein?!

– Grande dia? Que grande dia?

– Ah, mestre Djou, não seja modesto, você sabe muito bem, veio se preparando nesses últimos meses para isso.

Ainda muito confuso, Djou começou a tentar entrar na conversa do animado senhor:

– Ah é, o grande dia! Hoje é o dia! – respondeu tentando demonstrar animação e, ao mesmo tempo, tentando dar andamento na conversa para tentar descobrir algo.

– Sabia que você estava brincando – respondeu o Senhor e deu uma grande gargalhada, então chegou mais perto de Djou e olhou-o com uma expressão séria com os olhos arregalados, e continuou de forma solene:

– Na vida… a criança se torna homem, o homem se torna um cavaleiro e o cavaleiro se torna herói. Hoje você se tornará o herói. Você salvará a princesa frágil e indefesa, e provará a todos quem você é.

– Princesa? – pensou Djou – eu vou salvar uma princesa?

– A bela Adília foi raptada por um terrível monstro. Vive, agora, na torre mais alta desse reino, alheia ao convívio humano e sem nenhuma chance de futuro. Você foi preparado todos esses anos…

– Mas do que esse cara está falando? – pensou consigo mesmo, intrigadamente – cheguei aqui agora. Como fui preparado?

– …para empunhar a espada, dominar as técnicas guerreiras, vencer os medos e conquistar o que se deseja.

A essas alturas o velho já parecia estar em outro mundo: em pé, com um pé sobre a cadeira, os punhos cerrados e olhando emocionadamente para cima.

Djou, embora não fizesse idéia do que estava acontecendo, começou a se convencer de que era um herói. Ninguém nunca o havia estimado dessa maneira, Guirlanda não tirava os olhos dele e, de alguma forma, ele sentia que realmente era capaz de fazer o que estavam dizendo que era capaz:

– Se todos estão dizendo, por que não seria verdade?

 

23. Glória ao herói

 

Djou levantou-se confiadamente ao lado do que lhe falava e respondeu de maneira firme:

-Sim! Não há tempo a perder!

Guirlanda saiu correndo de trás do balcão, o abraçou e o beijou suspirando. Djou sentiu-se maior que qualquer galã da escola, o que o fez até desprezar tal atitude de carinho, afinal, ele estava no nível dos que eram beijados por princesas e não por camponesas. E apenas saiu em direção à porta, com o peito estufado e o nariz empinado, acompanhado pelo senhor que o convenceu.

A essas horas ele já não pensava no que estava acontecendo, estava apenas se deixando levar pelo que o fazia sentir-se tão bem.

Lá fora um criado já o esperava com um grande cavalo árabe, todo preparado para a batalha. Djou assustou-se com a altura em que teria que subir, mas percebeu que também estava mais alto. Olhou para suas mãos e viu que já não eram mãos de adolescentes, mas de homem: musculosas e peludas.

Nisso, o jovem que levara sua refeição ao quarto, chegava com o reluzente capacete que fazia parte da armadura. O capacete estava tão bem polido que Djou era capaz de ver seu rosto refletindo nele. Embora ele tivesse se reconhecido, tratava-se também de um rosto adulto e olhar de guerreiro. Ele pôs o capacete e recebeu também uma grande e bela espada, a qual ele levantou ao céu para que refletisse os raios do sol e guardou-a na bainha com grande habilidade.

Ao seu redor já estava um grupo considerável de pessoas, formado por servos da casa onde estava e por vizinhos. Todos sorriam e torciam por Djou, as moças suspiravam por ele e os homens lhes diziam frases de apoio. Então o dono da casa (que parecia gostar muito de um discurso solene e inflamado) começou a falar em alta voz:

– Na vida a criança se torna homem, o homem se torna um cavaleiro e o cavaleiro se torna herói. Hoje Djou se tornará o herói. Ele salvará a princesa frágil e indefesa, e provará a todos quem realmente é!

Ao dizer isso, todos aplaudiram e ovacionaram Djou. Este (que até então nunca havia chegado perto de um cavalo) montou demonstrando grande domínio da arte da montaria. Montado e imponente aproveitou a situação e sua euforia pra dizer algumas palavras, também de forma solene, enquanto brandia sua espada ao céu:

– … – não lhe vinham palavras, então acabou repetindo o que já ouvira por duas vezes em poucos minutos:

– Na vida a criança se torna homem, o homem se torna um cavaleiro e o cavaleiro se torna herói. Hoje eu me tornarei o herói. Salvarei a princesa frágil e indefesa, e provarei a todos quem realmente sou!

Sim, ficou bem forçado, mas quem se importava? Djou era, naquele momento, tudo o que sempre pensou que queria ser. E partiu como um herói para a conquista da bela princesa.

 

24. A batalha

 

Djou cavalgou em direção ao sol por um belo campo, passando por vilas e bosques. Seu cavalo parecia ser teleguiado, e ele apenas se preocupava em olhar os efeitos da luz em sua espelhada armadura, na crina esvoaçante de seu cavalo e, de vez em quando, na paisagem ao seu redor.

Aos poucos, foi vendo surgir, no horizonte, a torre, na qual disseram que estava a princesa. À certa altura já podia ver, ainda que de longe, toda a torre e a muralha que a cercava.

Tratava-se de uma construção antiga e quase em forma de cone, rodeada por uma grande muralha. A torre tinha algumas janelas, o que dava a impressão de ter uns cinco andares. No último andar, saindo da parede ao lado, havia uma torre menor, também cilíndrica e com o telhado em cone. Djou, por intuição, imaginou que a princesa estivesse lá. A questão era: como subir até lá?

Mas antes que ele bolasse um plano, descobriu que havia outro obstáculo antes desse; talvez mais complicado ainda. Na frente do único portão da muralha que rodeava a torre estava um cavaleiro com uma armadura negra e fosca. Quando chegou mais perto, o “Cavaleiro Negro” (nome óbvio imaginado por Djou) levantou a espada e bradou:

Auto lá, audaz inimigo

Não continue a jornada, se tua vida valoriza

Juro pela terra e pelo sol que a ilumina

Pela força dos bravos e pelo amor que há na vida

Que salvarei a princesa frágil e perdida

Que apenas a mim se destina

 

Djou ficou sem ação tentando entender o que estava se passando. O que aquele cavaleiro havia dito? Ele teria que lutar com ele? Ou era uma disputa de poesia? O “Cavaleiro Negro” continuou:

As palavras te faltam

E as forças também

Coragem para a luta sei que não tens

E ainda que tivesses, seria inútil

Pois o destino atesta que eu hei de salvar

A bela donzela que na torre está

Sem paz, alegria e alguém para amar

 

O “cavaleiro negro” ficou em silêncio, como se esperasse uma resposta de Djou. Era o já conhecido “silêncio constrangedor”, mas numa situação bem diferente. Sentindo que deveria falar algo, Djou, sem pensar, recitou mais uma vez:

Na vida a criança se torna homem,

O homem se torna um cavaleiro

E o cavaleiro se torna herói.

Hoje eu me tornarei o herói.

Salvarei a princesa frágil e indefesa,

E provarei a todos quem realmente sou!

 

As palavras de Djou não responderam ao que o “cavaleiro negro” esperava: uma batalha poética, solene e até sacramental sobre os motivos de cada um para libertar a princesa. Como já não havia muito que dizer, ele gritou: Cargaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! – e correu em direção ao Djou.

A princípio Djou ficou assustado, mas logo um sentimento heróico tomou conta dele, que desembainhou a espada e recebeu seu adversário com coragem e com alguns golpes inimagináveis. E logo o “cavaleiro negro” estava no chão, desacordado.

Djou apeou e chegou cautelosamente ao seu oponente para ver o que acontecera, ele não esperava uma morte ou algo muito violento, ele não era disso. Percebeu que o cavaleiro ainda respirava e que parecia querer dizer algo, mas não quis chegar muito perto para ouvir, pois já havia visto vários filmes onde o oponente se finge de morto para pegar o outro de surpresa. Djou estava se sentindo muito esperto. Então, o cavaleiro derrotado fez apenas um gesto para indicar que havia desistido, não tinha mais forças.

Djou sentiu-se o maior herói do mundo, o mais forte, mais poderoso, gostaria que seus amigos o vissem ali, seus pais, sua professora, o Silão e, principalmente, Ana Flávia. Mas nem esses pensamentos permaneceram por muito tempo em sua mente. Ele colocou os pés sobre seu oponente caído, ergueu e espada e bradou:

– Na vida a criança se torna homem, o homem se torna um cavaleiro e o cavaleiro…

– Chega, chega, eu imploro – interrompeu o “cavaleiro negro” usando todo o restante de suas forças – já fui derrotado, me poupe dessa ladainha.

 

25. Adentrando a muralha

 

Pronto, agora bastava atravessar a muralha. Mas como? Percebeu que a rodeando havia um pequeno fosso com crocodilos, mas nem se preocupou com isso. De modo surpreendente, travou a boca do primeiro, que estava na margem, com sua espada; usou a mesma para saltar sobre as costas de um segundo tirando a espada encravada no primeiro e, com mais um salto, já estava na outra margem, rente à muralha. Muito fácil.

Correu em direção à ponte levadiça e notou que estava entreaberta, possibilitando a entrada mais ao alto. Djou embainhou sua espada e a prendeu firmemente à bainha com uma cordinha que estava nela. Deu alguns passos para trás, correu em direção à ponte e, com uma grande impulsão, deu um salto em direção a um ponto da ponte que dava uma boa abertura. Enquanto saltava, segurava a ponta da bainha e, esticando o braço, conseguiu encaixar a guarda da espada num elo da corrente que segurava a ponte; o que lhe deu equilíbrio para subir, passar pela fresta e descer escorregando para dentro da muralha.

– Uau! Essa eu duvido que o Silão supere.

Uma vez dentro, viu que bastava uns cinqüenta metros para entrar na torre. Correu em direção à entrada, mas algo enorme o interrompeu: um dragão vermelho soltando fumaça pelas narinas.

O dragão parecia extremamente nervoso, baixou o pescoço, deixando a cabeça na altura de Djou e soltou uma rajada de fogo em direção a ele. Nosso herói, com a adrenalina a mil, conseguiu pular para o lado e se esquivar do ataque. Nisso, percebeu que estava num lugar onde a luz do sol batia diretamente em sua armadura e decidiu usá-la a seu favor. Assim que o dragão virou a cabeça para procurá-lo, ele ficou numa posição que fazia com que seu reluzente escudo refletisse a luz do sol nos olhos do dragão. Este os fechou pelo incômodo do reflexo e se mostrou atrapalhado. Djou se aproveitou da situação, deu um salto e cravou a espada no focinho do dragão, o qual deu um urro e estatelou-se no chão.

O herói passou por ele e entrou na torre: vitória!

Dentro da torre, parou por alguns momentos e olhou para trás. Viu o dragão abatido e inflou seu ego muito mais que seu peito. Sentiu como se tivesse se tornado o que sempre deveria ter sido. Até recitou aquela frase tão repetida, e concentrou-se na parte do “herói”. Não via a hora de contar para seus amigos; estava ansioso para encontrar os valentões da escola e dar-lhes uma surra; pensava em nunca mais precisar obedecer às ordens de suas professoras; considerava-se capaz de conquistar todas as meninas de sua escola.

Rapidamente deixou seus pensamentos soberbos e lembrou-se que ainda faltava o ápice de sua missão. Dentro da torre havia uma escadaria estreita formando um corredor que subia como um espiral. Era como se houvesse uma torre dentro da outra. Respirou fundo e se preparou para o que viesse, mas antes de subir, resolveu voltar e tirar a espada do focinho do dragão.

– Quem sabe que perigos me aguardam? Devo estar pronto para o que vier.

Voltando-se para aquele enorme animal caído, sentiu medo, mas lembrou-se que agora era um super-herói. Superou o medo e foi até a boca do dragão. Chegando lá, percebeu que a espada, embora presa, parecia estar fincada apenas superficialmente. O dragão ainda respirava, o que fez Djou ficar com as pernas bambas. Mesmo assim, ele caminhou cuidadosamente, retirou a espada e voltou correndo para dentro da torre.

– Até os heróis devem ser cautelosos – declarou com firmeza a fim de se convencer que não tivera medo.

Correu até o meio da torre e olhou com preocupação para certificar-se que o monstro não teria acordado. Percebeu que não e, antes que essa situação mudasse, tratou de subir a escadaria, ansiando por chegar à porta que o tornaria plenamente um super-herói.

 

26. Um herói e sua missão

 

Djou subiu correndo os primeiros degraus, mas logo sentiu cansaço, principalmente em virtude de tudo que já fizera até aquele momento. Então começou a subir devagar e logo teve a impressão de que deveria haver um número infinito de degraus naquela escada.

Depois de vários degraus surgiu uma pequena janela que dava para o exterior. Ele parou para olhar e aproveitou para descansar um pouco da subida.

Percebeu que já estava bem alto, mas não podia calcular quanto ainda faltava. Olhou de cima e pôde ver os perigos pelos quais havia passado. Na linha do horizonte podia-se ver a vila de onde saíra, com várias chaminés soltando fumaça. Via-se, então, todo o caminho que percorreu para chegar até a torre; dali já não parecia tão longo. Olhando à frente da muralha viu o escudeiro do cavaleiro negro ajudando-o a subir em seu cavalo (ele parecia bem desanimado). Os crocodilos pareciam não ousar ir para as margens, ficando escondidos sob a água escura. E, entre o portão e a torre, deveria estar caído o dragão, mas não estava. Djou ficou preocupado, para onde o monstro teria ido? Bem, o que interessava agora era salvar a princesa.

– Duvido que ele me encare novamente – esnobou Djou, sentindo-se todo poderoso.

Soberbo por suas conquistas, fixou os olhos em lugar algum e começou a divagar:

– Como é bom ser o que se deve ser. Descobri minhas habilidades e me tornei capaz de fazer o que quero e preciso. Que sorte da princesa eu ter vindo pra cá. Finalmente ela poderá se livrar dessa solidão em que vive. Esse era meu problema na escola, lá eu não era ninguém, mas aqui eu sou o cara. É disso que as meninas gostam: força, coragem e determinação. Nem vejo a hora de ouvir “eles se casaram e foram felizes para sempre”.

Djou deu uma pausa e continuou:

– E o legal é que serei príncipe agora, o príncipe encantado que salvou a princesa. Uau! Quem acreditaria nisso, acho que a Ana Flávia vai até implorar para ficar comigo. Quero ver a cara do Jorge, hehehe (…).

E assim Djou ia viajando em seus pensamentos. Nem notava o quanto estava pensando diferentemente do que costumava pensar. Também não percebeu que, durante essa parada, seu corpo, que até então estava como de um adulto, voltou ao do menino de 13 anos que era; e a armadura junto.

Então, lembrou-se que já estava parado tempo demais e voltou a subir as escadas para chegar logo ao lugar onde a princesa estava.

27. Salvamento? De quem?

 

Depois de muitos degraus em espiral (o que já o estava deixando cansado e tonto) avistou a porta que seria do quarto da princesa. Abriu um grande sorriso, recobrou suas forças e, erguendo a espada (já bem mais pesada) gritou:

– Não temas, oh bela donzela, eis que teu herói chegou!

Correu os últimos degraus segurando a espada com as duas mãos a fim de bater com o braço na porta e derrubá-la. Mas quando chegou à porta, ela se abriu antes que Djou a tocasse. O que fez com que ele, naquela velocidade, entrasse direto pelo quarto, tropeçasse numa mesinha e caísse do outro lado fazendo um enorme barulho por causa da armadura (que não se sabe se atenuou ou se agravou os efeitos da queda).

O herói levantou-se rapidamente e todo sem jeito, mas se arrumou logo e começou a olhar em volta. Então uma voz irritada direcionou seu olhar:

– Mas que bagunça é essa nos meus aposentos?

– Ah, a princesa – pensou Djou e bradou – Não temas, oh bela donzela, eis que teu herói chegou!

– Que história é essa de herói?

– Sou eu mesmo, princesa. Venci todos os inimigos e até o terrível dragão, aqui estou para te salvar e…

– Você machucou o Pipo?

Essa pergunta a princesa fez agarrando Djou pelos colarinhos e olhando-o com um olhar pior que o da diretora quando puseram uma tachinha em sua cadeira.

– Pi – Pipo? Quem é Pipo?

– É meu dragão, seu idiota. Quem você pensa que é para chegar em minha torre e ir machucando meu animalzinho de estimação?!

– Animalzinho de esti… (?!)

– É, eu amo o Pipo.

– Mas não é ele que está mantendo você presa aqui e impedindo que os cavaleiros venham lhe salvar?

– Quem disse que estou esperando algum salvamento, eu quero saber é quem vai salvar meu Pipo, ele é muito sensível e desmaia facilmente.

Dizendo isso, a princesa deu um empurrão em Djou para que saísse da frente e foi em direção à janela para tentar ver como estava seu dragão de estimação. Chamou-o algumas vezes e logo ele apareceu; esticando o pescoço, sua cabeça ficava bem na altura dessa última janela da torre. Ele se mostrou um tanto amuado, fazendo cara de dó, como um cãozinho depois de uma bronca. Dava até pra perceber que ele estava valorizando a situação para receber mais afagos (um dragão daquele porte não se machucaria tanto tão facilmente).

Djou observava a princesa afagando um monstro daquele tamanho, que há pouco tempo atrás tentou fazer churrasquinho dele, e não acreditava no que via.

 

28. Acalmando os nervos.

 

A princesa consolou seu Pipo e disse para que ele fosse descansar como se nada tivesse acontecido. E ele foi todo rebolando de alegria, parecendo um boxer.

Nessa hora Djou já estava sentado na cama da princesa, com os olhos fixos na janela, mas como se estivesse olhando pra lugar nenhum. Ficava nítida a dúvida em sua cabeça, misturada a um sentimento de decepção e frustração. Isso sem contar a surpresa diante de tudo o que estava acontecendo.

Então a princesa, compadecendo-se de Djou, acalmou-se e sentou ao lado dele para acalmá-lo também, procurando explicar tudo aquilo:

– Cavaleiro, desculpe-me por ter ficado tão brava com você, mas você deve entender que também me assustou com tudo o que fez, me deixou preocupada.

– Não, eu é que peço desculpas, mas não sei bem pelo quê eu peço, pois não estou entendendo mais nada.

– Como é seu nome?

– Djou.

– Djou?! Que nome estranho…

– Bom, é um apelido, mas já virou meu nome. E o seu?

– Adília.

– Nossa! E meu nome que é estranho? – nisso Djou já deu uma risadinha procurando mostrar que era uma brincadeira, apenas para quebrar o gelo.

– É…, isso é relativo mesmo – respondeu a princesa sorrindo e mudando de assunto – Mas que idéia foi essa de invadir minha torre e machucar o Pipo?

Então Djou contou tudo o que acontecera desde sua chegada a esse mundo desconhecido. Contou que não estava entendendo nada, mas que gostou da idéia de ser um herói poderoso e atraente; gostou da idéia de fazer algo importante, como salvar uma princesa, e assim ser respeitado, querido e feliz para sempre.

– E mesmo sem saber de nada você se achou capaz de salvar alguém? – a princesa perguntou isso deixando claro, em seu tom de voz, que isso era absurdo.

– Bem, foi o que me fizeram pensar.

– Mas as coisas não são simples assim, Djou. Eu não sou simplesmente alguém que precisa ser salva e nem você é simplesmente algo pronto e completo para isso. Nós somos pessoas com defeitos e virtudes, com sonhos e desejos e com escolhas. Não devemos simplesmente fazer o que os outros estabelecem para nós, devemos conhecer a nós mesmos, a realidade em que vivemos e fazer nossas próprias escolhas.

Djou surpreendeu-se com essas palavras e passou a lembrar de quem era e de tudo que fizera antes de chegar ali. Ficou um pouco em silêncio ao pensar em tudo isso. E então perguntou:

– Mas porque você fica isolada nessa torre?

– É uma escolha.

– Escolha?! Não me parece uma escolha sábia como as palavras que você acabou de me dizer.

– Mas o que você sabe sobre minha escolha? – a princesa se irritou um pouco com o julgamento de Djou, mas percebeu que ele não fazia por mal. E percebendo que parecia interessar-se por sabedoria, resolveu contar a verdade para ele.

– Vem aqui, Djou, vou lhe mostrar algumas coisas.

Anúncios

11 opiniões sobre “A Biblioteca do Infinito”

  1. eunice disse:

    He, mt legal, vou junto nessa viagem.
    Bjao
    Eunice

  2. Rodrigo disse:

    Legal Flaviaum! Vamos ver como continua… espero que tenha algum ladino ai pro meio. hehehehe

    Rodrigo. =D

  3. Mayara disse:

    Hey… estou amando as ilustraçoes, pois a obra eu ja conhecia a algum tempo…
    Parabéns!!!
    Bjo no coração

    Mayara Nucci

  4. Eliézer Jansen disse:

    Muito boa suas ilustrações. Parabéns!!!!!

  5. neiva Beraldo disse:

    o texto é bem educativo, as ilustrações é maravilhosa………os autores estão de parabéns.Vou divulgar e espera a próxima edição.

  6. Júnia C S Geraldo disse:

    E agora? Conta mais, curiosidade total aqui… kkk! Muito bom, Vcs estão de parabéns!!!

  7. Priscila R. Celestino disse:

    Amei, amei, amei, Flávio!!!!
    Agora só precisa continuar…
    Quero saber o que tem dentro daquela casa… Tô viajando….
    bjs

    Priss Celes

  8. Sempre em frente! Estou louca pra saber onde “vamos” chegar!!!

  9. Excelente Pr. Flávio
    Abraço.

  10. Fernanda disse:

    adorei! posta a continuação!

  11. Eunice disse:

    Que delicia. Ler isso traz a criança, o adolescente sonhador que há nós. Recupera a capacidade de sonhar acordado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s