A Esperança do Povo de Deus

1ª aula – O que é Esperança escatológica

Esperança

Esperança é uma atitude cristã ao lado da fé e do amor, portanto, não deve ser vista apenas como um mero sentimento ou apenas como um pensamento positivo, mas como algo que se relaciona com as outras atitudes dentro da vida cristã.

É necessário também que essa esperança seja comunitária, caracterizando o povo de Deus, como desde o Velho Testamento. Deus tem dirigido seu povo na história e revelado seus planos através dos profetas e apóstolos, deixando profecias e ensinamentos para todo o seu povo com relação a isso.

O ministério de Jesus veio, entre outras coisas, alertar o povo de Deus para a vigilância e a fidelidade mesmo entre as dificuldades que certamente surgiriam e que fariam parte dos planos de Deus. Sendo assim, esperança também é uma atitude firme com relação à história mundial, da qual o crente conhece seu Senhor e, por isso, sabe o que pode esperar.

Assim, esperança é mais que um anseio, ou uma expectativa da satisfação de algum desejo, mas uma atitude certa com relação ao futuro, a qual é baseada na fé.

Escatologia

O termo “escatologia” vem da junção das palavras gregas eschatós e lógos, as quais significam respectivamente: fim, último; e palavra, de onde se deriva o conceito de estudo; assim escatologia é o estudo do fim, ou das últimas coisas. “(…) é o estudo teológico que busca entender a direção e o propósito final da história enquanto esta se move em direção ao futuro, tanto de uma perspectiva individual (que acontece quando alguém morre?) como de uma perspectiva coletiva (para onde a história está indo e como ela terminará?)”.

Pela definição somos logo levados a pensar apenas no último evento da História num futuro indeterminado, mas é importante se pensar sobre “quando” as últimas coisas começam. Não numa tentativa de se calcular a quantidade de anos do começo meio e fim, mas para redimensionar-se a visão com relação ao fim, principalmente porque se pode já estar no processo.

É muito comum que se procurem apenas eventos mundiais que possam ser identificados como cumprimento de profecias, buscando apenas nesses eventos a confirmação daquilo que se crê internamente na igreja. Com isso acabam sendo ignorados temas importantes que já fazem parte do cristianismo atual, como o reino de Deus e o derramamento do Espírito Santo. Estes são vistos como importantes na fundação da igreja, mas pouco relacionados com a escatologia.

Outra característica contemporânea do estudo mais popular da escatologia, é que este normalmente tem servido apenas para incutir medo nas pessoas com relação ao futuro desconhecido; até mesmo a palavra “apocalipse” tem sido sinônimo de catástrofe. Mas será esse o caminho para o qual a escatologia bíblica leva? Será que “ela perdeu sua significação orientadora, animadora e crítica para os tempos passados antes do fim, no decorrer da historia” (MOLTMANN)?

2ª aula – A esperança no Velho Testamento

A esperança no Velho Testamento tem sua origem e fundamento logo nos primeiros capítulos do Gênesis. Assim que é narrada a queda de Adão e Eva, encontra-se o anúncio do próprio Deus de que um descendente da mulher viria para esmagar a cabeça da serpente (Gn 3.15), instrumento do mal em que os primeiros humanos haviam caído por sua desobediência. Com isso, pode-se dizer que toda a mensagem do Velho Testamento, e de toda a Bíblia, está baseada na esperança dessa primeira promessa. Tudo o que se segue estará ligado a este cumprimento, o mesmo Deus que começou a História, é quem lhe dá continuidade e a finalizará. A soberania de Deus é a fonte e a esperança da fé em todos os tempos.

A esperança na história de Israel

E é na história desse povo que se pode conhecer a vontade de Deus sendo realizada, ensinada e perpetuada para as gerações seguintes. Ela é a continuação do processo iniciado por Deus na história e referência para seu fim, por isso o seu estudo é de fundamental importância para a escatologia de modo geral e para todo o Novo Testamento.

Abraão

A história de Israel começa com a aliança que Deus faz com Abraão, de quem viria a nação exclusiva de Deus (Gn 12.1-3; 17.1-14). Essa aliança torna-se a base do povo de Deus, nela é prometida numerosa descendência a Abraão e bênção a “todas as famílias da terra”. Abraão será pai da nação de Israel e, como interpretado no Novo Testamento, pai de todos os que têm fé (Rm 4.11).

Moisés

Os filhos de Abraão tornam-se escravos no Egito e são libertados pelo Senhor, em cumprimento à sua aliança com Abraão, através de Moisés (Ex 3). É feita então uma aliança com aquele povo, o Senhor, seria seu Deus e eles seriam seu povo. Essa aliança é marcada pela Lei, a qual tem sua base nos Dez Mandamentos (Ex 20.1-7). Ela caracteriza a fundação do povo de Israel, os filhos de Abraão. É neste povo que Deus realizaria diretamente seus propósitos. Eles são guiados até a terra prometida e ali devem viver como povo de Deus.

Juízes

Depois de ter sido liberto da escravidão do Egito e ficar em êxodo por quarenta anos no deserto, o povo hebreu finalmente se fixou em sua terra prometida: Canaã. Nessa ocasião Israel passou a ser organizada em um liga tribal, uma confederação livre de clãs unidos em torno da adoração ao Senhor, seu libertador. Não havia um governo central, o Senhor era seu único rei e, em tempos de emergência, juízes eram levantados como representantes designados a unir as tribos em defesa contra algum inimigo ou mesmo para julgar suas causas.

Monarquia

Com o passar do tempo, por ocasião de várias invasões de outros povos e os próprios problemas internos, o povo começou a desejar uma monarquia como a encontrada nos povos vizinhos. A princípio Deus não aprovou o pedido, visto que isso implicava numa rejeição à teocracia e geraria problemas sociais e financeiros a todos, mesmo assim o povo escolheu a Saul (1 Sm 8-10). Embora este tivesse algumas vitórias sobre os filisteus, o reinado dele se caracterizou por desobediências a Deus e atitudes precipitadas que, mais tarde, levaram Israel a ser dominado pelos filisteus. Isso também demonstrava a forma negativa como a monarquia era vista por Deus a princípio.

Para mudar a situação, Davi foi escolhido rei, e sobre ele estão todos os aspectos bons e benéficos da monarquia, pois foi o próprio Senhor quem o elegera. Com isso a monarquia passou a ter uma importância também religiosa para o povo. O fato de o rei ter sido eleito por Deus dava continuidade ao conceito da eleição de Israel.

Tendo isso em mente pode-se entender melhor o que representava um mau rei ou uma derrota militar (principalmente a invasão assíria e babilônica posteriormente) para o israelita. Não se tratava de algo apenas político e social, mas era totalmente ligado ao culto ao Senhor e à religião Israelita como um todo. Acrescente-se a isso problemas internos, após o reinado de Davi, como a injustiça social, o culto a outros deuses e, em tudo isso, o afastamento do rei e do povo com relação ao Senhor. E, assim, aquele reino de Deus parecia não mais existir.

É nessa situação que se torna fundamental o ministério profético, tanto para exortar aos reis, sacerdotes e povo em geral – para que voltem para o Senhor – como para reafirmar o reinado divino e, com isso, também dar esperança aos fiéis. Em meio a essa contradição entre o que se crê e o que se vê na decadência do reinado e do povo, mas tendo convicção da soberania de Deus, que nasce a esperança futura, ou escatológica, anunciada pelos profetas. Afinal, o Senhor é rei e há de estabelecer plenamente seu reino a esse mundo.

3ª aula – A Esperança Escatológica Anunciada pelos Profetas

Essas figuras, ou temas, que anunciam a esperança de Israel no futuro do Senhor é o que se pode chamar de esperança escatológica no Velho Testamento.

“São consideradas escatológicas todas as afirmações do Antigo Testamento que façam alusão a um futuro, no qual as condições da história e do mundo serão tão mudadas que se pode falar de um ‘novo estado das coisas’, de algo ‘completamente diferente’”

Esses temas podem estar ligados a uma nova situação de Israel, como nação e relacionada com as outras nações; e a uma pessoa que vem para fazer reais essas expectativas.

Temas ligados à nova situação de Israel:

O Remanescente

A idéia do remanescente, ou restante, evidencia a esperança prenunciada pelos profetas juntamente com a idéia de juízo. Pode ter o sentido de ameaça quando o contexto demonstra que “apenas” o restante retornará, indicando assim a punição da maioria (exemplos: Is 1.8; 6.11-12; 7.3-6; 30.14,17; Am 5.3; Jr 24.8-9; 42.2-3; Ez 9.8; 17.21). Mas pode também indicar esperança, no sentido do cumprimento da promessa de que, apesar de tudo, alguns se arrependerão e voltarão a Deus (exemplos: Is 4.3; 10.20-21; 11.11,16; 28.5; 46.3-4; Mq 7.18; Ag 2.2; Zc 8.6), de modo que a aliança ainda é perpetuada.

Esse conceito é repetido no Novo Testamento, mas então como cumprimento do mesmo. Em Mateus 12.19-20 encontra-se a referência a Is 42.2-3 aplicada a Jesus Cristo. Também em Romanos 9.6 o conceito é utilizado como juízo a Israel, no sentido de quem “nem todos de Israel são de fato israelitas”; enquanto em Romanos 11.5 é aplicado de forma positiva, no sentido de que, pela eleição da graça de Deus, ainda sobrevive um remanescente.

As Nações

Na verdade, a bênção às nações prometidas pelo Senhor, são encontradas já no chamado de Abraão (Gn 12.1-3), o qual seria o pai de uma grande nação (Israel) e nele seriam “benditas todas as famílias da terra”.

E embora se falasse muito da exclusividade de Israel, era tema recorrente aos profetas a inclusão das outras nações na Aliança (Is 19.24-25; 56.7; 66.18-21; Sf 3.10; Jr 16.19-21; Hc 2.14).

A realeza de Deus, não apenas em Israel, mas no mundo, continua sendo exaltada na esperança profética e escatológica. Em muitos casos como punição de Israel, que perde sua exclusividade, mas também como evidência da soberania de Deus sobre todas as nações, mesmo sobre as que oprimem o povo eleito, as quais saberão que há Deus em Israel, serão julgadas e também se achegarão a Ele através de seu povo.

A Nova Aliança

A ênfase da profecia clássica de Jeremias (31.31ss.) é que essa Nova Aliança não seria como a mosaica, caracterizada pelo cumprimento da Lei em seu perfil externo, mas inscreveria as leis de Deus no coração do seu povo. Ainda é prometido um só coração e um só caminho, uma aliança eterna onde Deus não deixará de fazer o bem e o seu temor será posto no coração para que não se apartem dele (32.39,40).

Ezequiel ainda liga expressamente essa profecia ao Espírito Santo de Deus, o qual seria colocado dentro deles na Nova Aliança (Ez 36.26,27; 37.14), caracterizando a presença de Deus em seu povo como jamais fora vista, pois até então era ligada apenas ao tabernáculo e, mais tarde, ao templo (cf. FEE, 1997, pp. 10-25).

Também o profeta Joel fala sobre o derramamento do Espírito Santo no tempo que ele chama apenas de “depois”, evento que é citado por Pedro no Pentecostes como se cumprindo (At 2.17-36). Na ocasião ele usa, ao invés de “depois”, “nos últimos dias”, o que dá clara referência que se tratava de um evento escatológico.

4ª aula – A esperança anunciada pelos profetas (continuação)

Temas ligados a uma pessoa que vem para fazer reais essas expectativas:

O Messias

Encontramos o termo no sentido escatológico apenas em Daniel 9.25,26. Mas o conceito messiânico é desenvolvido em outros textos, oráculos proféticos e em vários salmos, ainda que sem o uso propriamente do termo. A primeira referência ao Messias encontrada na Bíblia (ainda quem sem o uso do termo propriamente) é encontrada em Gn 3.15 e o conceito é mais desenvolvido nos profetas, especialmente em Isaías (4.2; 7.10-16; 9.1-17; 11.1-5; 32.1-8; 55.3,4). Muitos Salmos são messiânicos nesse sentido, os quais inclusive são citados no Novo Testamento dessa maneira (Salmos 2; 8; 22; 23; 24; 34.21; 41.10; 45; 69; 72).

O filho de Davi

Esse termo se relaciona intimamente ao termo “messias”, que foi associado principalmente à idéia do rei e especificamente com a casa de Davi. Lembrando que o termo “messias” (ungido) se referia primeiramente ao rei ungido para tal ofício.

Na maioria dos textos citados para “messias” pode-se notar a ligação com a dinastia davídica, sendo ela a representante do reinado de Deus em Israel. É uma figura que deve ser vista em relação às outras e, principalmente, com a messiânica.

O Servo do Senhor

Assim como o termo “Messias” é visto como uma figura mais ampla de salvação em termos concretos e históricos, como foi visto acima, bem como sua função mediadora, pode-se vê-lo inequivocamente como o “Servo de Senhor” se identificarem-se sua identidade e missão.

A idéia do Servo, em Isaías aparece, ora se referindo a uma personalidade coletiva (43.10; 44.21; 45.4), no caso, Israel como “descendente de Abraão” e “amigo de Deus” (41.8); e ora a um indivíduo descrito em termos que ultrapassam qualquer possibilidade de referência a Israel ou mesmo a um remanescente fiel, como, por exemplo, em Isaías 53.

Ainda em outros casos, encontram-se os dois sentidos ao mesmo tempo, em textos que fazem referência ao remanescente fiel dentro de Israel (Is 44.1; 51.1-7) que levará a nação de volta para Deus (Is 49.3-5), será obediente ao seu chamamento e dará testemunho do poder de Deus no mundo (Is 49.1-13; 42.1-7).

Dessa maneira, pode-se ver o Servo do Senhor como Israel, como seu remanescente e como um indivíduo que representa esse remanescente e até o próprio Israel. Este é o redentor vindouro que, com seu sofrimento vicário, cumpre a tarefa de Israel fazendo com que volte ao Senhor e com que os povos reconheçam-no.

O Filho do Homem

O “Filho do Homem”, título encontrado principalmente em Daniel com relação ao que há de vir, pode ser entendido como o Messias apocalíptico. Diferentemente do Servo Sofredor em Isaías, ele é visto como triunfante no final da História (Dn 7.13,14), vencendo as quatro bestas que apontam para os poderes do mundo como um domínio cruel, desumano, blasfemo e bestial (BLAUW, 1966, p. 49).

É interessante que esse é o título mais usado por Jesus acerca de si mesmo nos evangelhos. Entretanto, notamos nesse uso um redirecionamento de seu significado, ao qual é acrescentada a figura do Servo Sofredor. Pode-se notar essa junção dos conceitos em Marcos 8.31, Lucas 9.22 e 24.7, onde Jesus apresenta-se como Filho do Homem, mas diz que ainda deve sofrer muitas coisas.

Do Velho para o Novo

Isso dá base para entender que a escatologia do Velho Testamento não consistia propriamente num “fim do mundo”, mas era esperança justamente porque indicava uma mudança da situação atual, e essa esperança referia-se ao futuro da história no sentido um “último horizonte” (MOLTMANN), por isso “escatológica”. Por mais que a presente era estivesse corrompida, Deus, que é soberano, iria mostrar sua fidelidade à sua aliança com seu povo e assim seria notório a todas as nações que havia Deus em Israel.

Também não há como se estudar essa escatologia do Velho Testamento sem se considerar o Novo Testamento, pois, como afirma Schreiner:

A esperança de salvação do AT se orienta para um fim e se empenha em alcançá-la. Mas ela parou na Antiga Aliança sem se realizar. Foi neste ponto que a nascente comunidade cristã veio se inserir e no qual ela encontrou a justificativa para a sua interpretação do Antigo Testamento. E aqui se oferece ao cristão a oportunidade decisiva para começar a ter um trato adequado com o livro da Antiga Aliança.

Portanto, o Velho Testamento deve ser estudado juntamente com o Novo Testamento e vice-versa. Pois este é cumprimento daquele, enquanto aquele é o fundamento deste. Para se entender a mensagem do Novo Testamento é preciso conhecer a esperança escatológica do Velho Testamento, pois elas se inter-relacionam e não são independentes uma da outra.

5ª aula – A Esperança Escatológica no Novo Testamento

No Novo Testamento é encontrado um redimensionamento na esperança do crente. Vê-se em Cristo e no derramamento do Espírito, o cumprimento das expectativas do Velho Testamento e inicia-se o processo do fim. As comunidades primitivas, como a dos coríntios, eram tidas como aquelas “sobre quem os fins dos tempos têm chegado” (1Co 10.11), a escatologia era não apenas futura, mas presente na vida das comunidades. Cristo era o cumprimento das profecias, e o Espírito Santo a confirmação da nova era escatológica.

“Todas as testemunhas do NT concordam que, através da vinda do Cristo prometido, a situação que no AT se descreve como “esperança” foi fundamentalmente alterada. Na Páscoa do Redentor, o dia mundial da salvação irrompeu com o grande “hoje” de Deus. Aquilo que antes era futuro agora se tornou presente n’Ele para fé: a justificação, o relacionamento com Deus como filho d’Ele, a habitação do Espírito Santo na pessoa, o novo povo de Deus que se compõe de crentes de Israel e das nações” (BROWN).

Fé esperança e amor

Dessa maneira percebe-se a inevitável correlação entre a esperança e a escatologia, de maneira que “esperança escatológica” torna-se quase uma redundância. Entretanto, a diferença está em que “esperança” sugere uma atitude com relação à escatologia.

Não se trata nem de uma esperança auto-sugestiva daquilo que se deseja para o futuro com relação ao presente, e nem de uma mera especulação teológica sobre datas e acontecimentos específicos; mas, acima de tudo, a esperança (escatológica) deve ser vista como essência da vida cristã, juntamente com a fé e o amor, formando a tríade cristã que Calvino chama de dons para os quais todos os outros olham e operam.

Essa tríade é encontrada de forma específica em 1 Co 13.13, onde o apóstolo Paulo destaca o amor entre a fé e a esperança. Entretanto, a relação entre essas virtudes não deve ser vista como hierárquica, mas como um conjunto. Pela fé recebe-se a Cristo e a esperança leva a perseverar nele até o futuro. Calvino diz que “a esperança da fé nada mais é que a espera das coisas que, conforme a convicção da fé, foram por Deus realmente prometidas”; como é encontrado na própria definição bíblica de fé em Hebreus 11.1: “certeza das coisas que se esperam”.

A esperança está totalmente ligada à fé e, por isso, não deve ser usada apenas quando se fala de futuro, mas quando se fala de fé.

Sem o conhecimento de Cristo pela fé a esperança se torna uma utopia que paira em pleno ar; sem a esperança, entretanto, a fé decai, torna-se fé pequena e finalmente fé morta. Por meio da fé, o homem entra no caminho da verdadeira vida, mas somente a esperança o conserva nesse caminho. Desta forma a fé em Cristo transforma a esperança em confiança e certeza; e a esperança torna a fé em Cristo ampla e lhe dá vida. (MOLTMANN)

6ª aula – O reino de Deus: já e ainda não

A primeira coisa a considerar é que o Novo Testamento não é independente do Velho Testamento, seja qual o tipo de estudo que for feito da Bíblia devem-se ser considerados os dois Testamentos, pois se completam.

A mensagem central dos evangelhos é o reino de Deus. Desde o começo encontra-se João Batista anunciando a vinda do Reino através do Messias, ou apenas “aquele que há de vir”, figuras totalmente escatológicas do ponto de vista do Velho Testamento. O próprio Jesus também anunciou esse reino, mas com duas diferenças principais com relação ao anúncio de João. A primeira é que nele (em Jesus) o reino de Deus era chegado (Mt 12.28; Lc 11.20); a segunda é que, enquanto o Batista anunciava o julgamento iminente no mesmo evento da salvação (Mt 3.12), Jesus anunciava apenas a salvação num primeiro momento, anunciando o juízo no futuro.

Assim, pode-se considerar o reino de Deus como sendo inaugurado por Jesus em seu ministério terreno, e que ele mesmo é o comprimento das expectações do Velho Testamento.

O já: evidências da presença do Reino em Cristo

a)      Os milagres e o evangelho aos pobres

A resposta de Jesus a João sobre ser ele o que haveria de vir ou se deviam esperar outro, como foi citado acima, foi dada com fatos que já estavam acontecendo, os quais se tratavam de cumprimento profético: “E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11.4,5).

Essa é uma referência ao início da profecia de Isaías 61, que em Lc 4.17-21[1] é citada da forma como se encontra lá (embora sem o anúncio de juízo), e é claramente afirmada como uma profecia que se cumpre na pessoa de Jesus naquele instante.

De acordo com esses textos, além do cumprimento da profecia expressa em Isaías61, apresença do Reino é evidenciada pelos milagres e pela pregação do evangelho aos pobres, ou seja, as boas novas prometidas, a chegada do messias, da nova aliança, do perdão dos pecados, etc. – já estavam sendo anunciadas, e aos pobres, chamados “bem aventurados” (Lc 6.20). Era também uma resposta às esperanças do povo da época, como se pode perceber no cântico de Maria com relação ao Salvador que nasceria dela (Lc 1.46-56).

b)      A expulsão dos demônios e a queda de Satanás

Esses sinais indicam a vitória de Cristo sobre os poderes do mal. Quando os fariseus acusam a Jesus de expulsar demônios por Belzebu, ele responde: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (grifo do autor) (Mt 12.28). Essa mesma autoridade foi dada aos discípulos, para manifestarem também o poder do reino de Deus. E quando estes voltam maravilhados com a sujeição dos demônios ao nome de Jesus, ele os exorta a se alegrarem por terem os nomes arrolados nos céus (Lc 10.17-20), indicando que, apesar dos sinais, o mais importante era a salvação, a qual era chegada. Ainda nesse texto Jesus diz: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (v. 18), o que indica a vitória de Cristo sobre Satanás, vitória também concedida aos discípulos.

c)      O perdão dos pecados

Também é um sinal da presença do Reino, principalmente por se relacionar ao Messias, conforme Is 33.24; Jr 31.24; Mq 7.18-20 e Zc 13.1, entre outros. O perdão dos pecados, declarado por Jesus, gerou grande polêmica para os religiosos de sua época. Quando, por exemplo, ele declarou o perdão dos pecados ao paralítico em Cafarnaum (Mt 9.1-7), os escribas viram-no como blasfemo, pois eles sabiam que apenas Deus podia perdoar os pecados. Entretanto, Jesus perdoou os pecados daquele paralítico e ainda o curou como sinal de que era o Filho do Homem. Dessa maneira se cumpriam várias profecias escatológicas: o perdão dos pecados, os milagres e a vinda do Filho do Homem.

            O “ainda não” – evidências do Reino futuro em Cristo

Algumas declarações de Jesus com referências ao futuro são cruciais, como por exemplo, Mateus 7.21-23. Nesse texto é anunciada uma perspectiva explícita de futuro juízo, entretanto não independentemente do reino presente. Na verdade é até um alerta com relação a este. Pois mesmo com milagres e expulsão de demônios, que são evidências do Reino presente (e aqui reclamados diante de Cristo, como requisitos da entrada no Reino) são rejeitados. Isso indica uma perspectiva futura totalmente relacionada com a presente.

Muitas parábolas de Jesus ensinam uma consumação futura do reino:

  • A parábola das bodas indica um tempo futuro de bênçãos para aqueles que aceitam o convite, mas um lugar de punição, nas trevas exteriores, para aqueles que falham em preencher todos os requisitos (Mt 22.1-14).
  • A parábola do joio e sua explicação (Mt 13.24-30 e 36-43) falam da “consumação do século” quando os que praticam a iniqüidade serão lançados na fornalha acesa e quando os justos “resplandecerão como o sol no reino de seu Pai”.
  • A parábola da rede (Mt 13.47-50) descreve, de modo semelhante, a “consumação do século” quando sairão anjos e separarão os maus dos justos”.
  • Na parábola das dez virgens (Mt 25.1-13) aprendemos acerca da demora do noivo, acerca de um grito à meia noite, e sobre algumas que entraram com o noivo para a festa das bodas e outras para quem a porta estava permanentemente fechada. A parábola termina com uma advertência tipicamente “escatológica”: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (v. 13).
  • E a parábola dos talentos (Mt 25.14-30) fala acerca de um homem que fez uma jornada e ficou fora por muito tempo, acerca de um ajuste final de contas, e acerca de alguns que foram convidados a entrar no gozo de seu Senhor e outros que foram expulsos para as trevas exteriores.

Assim, não há como negar a perspectiva futura do Reino, ao mesmo tempo em que ele já está presente e é justamente o pré-requisito para a glorificação, ou juízo, no futuro do Reino.

7ª aula – O Espírito Santo e a esperança escatológica

O Espírito Santo prometido no Velho Testamento

Podem-se citar três modos em que o Espírito Santo no Novo Testamento está relacionado com a escatologia no Velho Testamento:

  • Primeiramente o Espírito Santo é visto como repousando sobre o Redentor e equipando-o com os dons necessários, especialmente em Isaías 11.1-2 e 61.1-2. Este último, como foi visto acima, foi diretamente citado por Jesus no início de seu ministério, conforme o evangelho segundo Lucas (4.18-19).
  • Em segundo lugar pode-se notar que o Espírito Santo prepararia o caminho para uma era escatológica final, conforme a profecia de Joel sobre o derramamento do Espírito (Jl 2.28-32). No Novo Testamento ela é citada por Pedro no evento do Pentecostes como se cumprindo. Nessa ocasião ele utiliza o termo “nos últimos dias”, indicando a irrupção da era escatológica naquele evento pela evidência do Espírito Santo.
  • O Espírito Santo também aparece como “fonte de futura nova vida de Israel, incluindo tanto bênçãos materiais como renovação ética”. Esse tipo de profecia encontra-se em textos como Isaías 44.2-4; Jeremias 32.39-50 e Ezequiel 36.26-27 e 37.14. Esses textos indicam a ação do Espírito Santo na vida do povo, fazendo com que este coloque em prática a lei de Deus.

O Espírito Santo no Novo Testamento

Ele é caracterizado no Novo Testamento com metáforas que evidenciam a situação escatológica:

a)      Penhor – garantia de resgate

Essa metáfora ocorre nos escritos de Paulo em 2 Co 1.21-22; 5.5 e Ef 1.14, a qual ele usa exclusivamente para referir-se ao Espírito Santo.

A redenção pelo sangue de Jesus já é real, mas esta ainda não é plenamente visível aos que a receberam, pois ainda vivem no mundo corrupto. Mas há a promessa de que um dia a verão plenamente. Enquanto isso, já experimentam essa liberdade por causa do Espírito Santo, que já habita naqueles que crêem, o que garante a vida futura com Deus, ele é o penhor dessa esperança.

b)      Primícias – garantia do início do processo

Essa metáfora é usada em Rm 8.23, Paulo não a usa apenas para o Espírito Santo, mas também com relação a Jesus como “primícias dos que dormem” (1 Co 15.20), com relação à ressurreição dos salvos, o que também está ligado ao Espírito. Em ambos os casos encontra-se a perspectiva escatológica de Paulo. A metáfora “primícias” se refere, no Velho Testamento, aos primeiros frutos consagrados ao Senhor. Esse sentido é usado nos textos em questão como garantia do início do processo, bem como de sua realização final. E isso é afirmado tanto com relação ao Espírito como em relação à ressurreição.

c)      Selo – garantia de propriedade

A metáfora do “selo” ocorre três vezes no Novo Testamento em relação ao Espírito Santo (2 Co 1.21,22; Ef 1.13; 4.30). Na época de Paulo, o selo era uma impressão feita em cera ou barro que indicava propriedade e autenticidade. Em conseqüência, aquilo que era selado era também protegido pelo proprietário; cada um que usasse um selo tinha nele sua marca pessoal.

Essa metáfora também evidencia o “já e ainda não” na teologia paulina. “Já” por que já existe o selo do Espírito Santo, o que indica propriedade exclusiva de Deus e concede desde já a garantia de nossa salvação; e é também “ainda não” porque se refere à nossa redenção futura e final, àquele diaem que Cristovoltará para resgatar sua posse, a qual já está marcada pelo seu próprio selo.

8ª aula – O Espírito e a ressurreição 

a)      O Espírito da ressurreição

Uma característica muito importante da teologia do Novo Testamento, com relação à ressurreição (e à escatologia), é o papel do Espírito Santo nela. É visto que a ressurreição de Cristo são as primícias da futura ressurreição corpórea dos crentes, e isso é atestado pelo Espírito Santo na vida destes, como afirmado em Romanos 8.11. Esse texto mostra que a ressurreição é garantida pelo Espírito Santo, o qual já habita nos que crêem. Em 2 Co 5.5 ainda é afirmado que é para isso mesmo que ele foi outorgado como “penhor”; da mesma maneira, em Romanos 8.23 encontra-se a metáfora das “primícias” do Espírito, as quais, por já estarem presentes, “gememos em nosso íntimo aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”. Assim, “o Espírito é tanto evidência como garantia do futuro, incluindo a expressão final do futuro”, pois o mesmo Espírito daquele que ressuscitou Cristo é o que habita nos corpos dos crentes.

Assim, pode-se dizer que a relação entre a ressurreição e o Espírito Santo marca o início, o meio e o fim desta era escatológica, isto é, todo o processo entre o “já e ainda não”. A ressurreição de Cristo marca o início desse processo, sendo também as primícias da ressurreição do crente, que marca o final do processo. E em tudo isso o Espírito Santo tem papel fundamental, ele foi o agente da ressurreição de Jesus Cristo, testifica que o crente é filho de Deus (Rm 8.16) e ressuscitará seus corpos. O que caracterizará o fim desta era.

b)      A vida eterna no Espírito

Outra característica importante da relação do Espírito Santo com a ressurreição é o que se encontra em 1 Co 15.42-48. Aí não se trata da substância do corpo na ressurreição, mas, segundo Gordon Fee, “ele está contrastando nossa existência presente com nossa existência celestial; o futuro do corpo é sobrenatural, adaptado para a vida no Espírito, totalmente desembaraçado de quaisquer de suas fraquezas atuais”. Hoekema ainda ressalta que esse texto indica que o Espírito não apenas garante a ressurreição futura, como também a efetua e continuará a dirigir o corpo ressurreto depois de acontecida a ressurreição. Ele ainda cita Paul Ridderbos:

O Espírito não somente opera no homem, portanto, mas também renova sua humanidade. Mas o segredo da continuidade entre corpo presente e o corpo ressurreto não está no “ser” humano, mas no Espírito. E o fundamento firme da crença que um dia o mortal vestirá a imortalidade está em conformidade com isso. Quem nos tem preparado para este fim é Deus, que nos deu o Espírito como penhor (2 Co 5.5). Neste sentido, a obra e renovação do Espírito, nos crentes, durante a vida presente pode ser entendida como um início da ressurreição do corpo, e ser descrita por Paulo desta forma (cp. 2 Co 3.18; 4.10,11,16,17; Ef 5.14; Fp 3.10,11). Assim, o esplendor da glória da vida futura os ilumina mesmo agora (2 Co 3.18; 4.6), as primícias e penhor no tempo presente de sua ressurreição da morte (cf. Gl 6.8; Rm 8.23; 2 Co 5.5).

c)      A ressurreição como início e fim do processo

Sendo assim, pode-se observar que a esperança escatológica do Novo Testamento não é uma esperança num evento futuro totalmente dissociado do presente ou mesmo do evento de Cristo e de toda a revelação bíblica. Também não se trata de uma esperança duvidosa, a qual decepciona à medida que vai demorando para se realizar. Pelo contrário, o futuro já está em marcha e o povo de Deus já está nesse processo. Jesus já trouxe o reino de Deus, o que é cumprimento escatológico, conforme o que o Velho Testamento tanto ansiava e profetizava. E agora a nova aliança é impressa nos corações e a evidência é o Espírito Santo. Como se pode expressar na seguinte figura (FEE, 1997, p. 56):

entre os tempos

Jesus já trouxe o reino de Deus, o que é cumprimento escatológico, conforme o que o Velho Testamento tanto ansiava e profetizava. E agora a nova aliança é impressa nos corações e a evidência é o Espírito Santo.

9ª Aula – Implicações

A escatologia aponta para a intervenção de Deus no mundo, o qual é aceito e restaurado por eleem Cristo. Aomesmo tempo em que o pecado e todo mal são condenados, não fazendo parte do mundo objetivado por Deus.

O que foi iniciado pela inauguração do reino de Deus e anunciado pelas Escrituras é o que será encontrado plenamente no fim de todas as coisas. Por isso, a esperança escatológica deve levar a Igreja a viver desde já de acordo com os valores desse Reino inaugurado por Deus.

Sendo assim, a esperança escatológica da igreja, que está calcada no “já e ainda não”, deve levar a igreja a ser verdadeiramente Igreja de Cristo, vivendo a ética do Reino e sua missão, pois é para isso que ela existe.

Por isso a esperança escatológica implica em uma maneira de os crentes viverem no mundo como servos do reino de Deus. Os quais, apesar das bênçãos já recebidas, ainda vivem em meio a dificuldades, lutas e perseguições. Mas que podem continuar em sua missão sabendo que algo os espera e que já participam desse algo. Já fazem parte da nova aliança, têm o Espírito Santo, através do qual é lhes garantida a ressurreição dos mortos, de maneira que nem mais a própria morte é o maior inimigo, pois já está certo de que será vencida definitivamente.

É dessa maneira que se deve viver a vida cristã no mundo, como expresso no livro do Apocalipse, o qual foi inspirado para motivar os crentes da época e também os de todas as épocas que sofrem, são perseguidos e precisam ser fiéis. Pois o Apocalipse, assim como a totalidade do Novo Testamento, trabalha o “já e ainda não”, fala sobre a tensão da vida presente daquele que vive no Reino e mesmo assim sofre oposição de fora.

Considerando que essa esperança escatológica é o que define a razão da existir da Igreja dentro do reino de Deus, ela (a esperança escatológica) também é responsável pelo agir da igreja no mundo. Ou seja, se a igreja, como povo de Deus acredita que existe um sentido por trás da história; que algo acontecendo paralelamente à realidade que conhecemos; e que essa realidade se tornará a única realidade, então ela vai viver de acordo com isso. Caso contrário, seremos os mais infelizes de todos os homens (1 Co 15.19).

Também se pensarmos que a ação de Deus só se dará num futuro incerto, deixaremos de entender, criticar e aproveitar as oportunidades do presente, desenvolvendo apenas um sentimento de insegurança com relação ao futuro. Mas se entendemos que algo já está acontecendo e que já somos convidados a participar, ao mesmo tempo em que também aguardamos o futuro, então nossa vida e missão tem mais sentido.

Assim, a escatologia bíblica será para nós:

Orientadora – pois mostra o caminho para onde a verdade de Deus aponta, que é para onde devemos seguir.

Animadora– pois confirma que vale a pena lutar pelos valores do Reino mesmo numa realidade contrária a eles.

Crítica – pois poderemos julgar nossa realidade presente à luz da realidade de Deus.

10ª aula – Implicações da esperança escatológica para a ética da igreja

O que foi iniciado pela inauguração de Deus e anunciado pelas Escrituras é o que será encontrado plenamente no fim de todas as coisas. Por isso, a esperança escatológica deve levar a Igreja a viver desde já de acordo com os valores desse Reino inaugurado por Deus.

Carne X Espírito

O “tempo da carne”, de modo geral, se refere às coisas antigas (2 Co 5.17), ao modo antigo de viver antes de conhecerem a Cristo e receberem o Espírito, ou seja, viver ainda de acordo com as perspectivas e valores da criatura decaída e rebelde tanto para Deus como para o próximo, de modo que ainda busquem o poder, influência, riqueza e sabedoria humana (cf.1 Co 1.26-31).

A nova aliança já era caracterizada, desde o Velho Testamento, como o tempo em que a lei de Deus seria escrita no coração transformado em carne, e isso realmente é feito pelo Espírito, por isso deve-se “andar nele”, andar em novidade de vida proporcionada por Cristo, e assim jamais satisfazer os desejos da carne, porque “(…) se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Co 5.17).

Um exemplo esclarecedor é Gálatas 5, onde o apóstolo Paulo contrasta a vida segundo a carne e a vida segundo o Espírito, no contexto de refutar os judaizantes, que insistiam na importância da circuncisão e causavam divisões naquela igreja. De modo rígido, Paulo afirma que ao se deixarem circuncidar, Cristo de nada lhes aproveitaria (v.2), e mais adiante diz que “em Cristo Jesus, nem circuncisão ou incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (v.6); e, ao que tudo indica, amor é o que menos se via ali, pois já estavam “se mordendo e devorando” uns aos outros (v.15).

É nesse contexto, então, que Paulo fala sobre andar no Espírito, e como isso é oposto ao andar na carne. Ele expõe as obras da carne, onde oito, dos quinze itens mencionados, são práticas relacionadas a discórdiasem comunidade. Entãoele contrasta falando do fruto do Espírito, contra os quais não há lei (vv. 22-23).

A fonte da ética cristã

Sendo Deus a fonte da ética cristã, esta só pode existir na obediência de seus mandamentos, os quais são “resumidos” por Cristo no amor a Deus e ao próximo. Esse amor não é um mero sentimento de gostar muito de algo, mas é uma atitude objetiva com base no amor objetivo de Deusem Cristo. Deusdemonstrou o que é o amor quando Cristo morreu pelas pessoas sendo elas ainda pecadoras (Rm 5.8). Esse é o amor com que se deve amar ao próximo (1 Jo 3.16); o amor que irrompeu na história humana e que existe eternamente em Deus.

Falar sobre escatologia é falar sobre o amor de Deus expresso na história humana, de seu começo ao seu fim; falar de ética cristã é falar da concretização desse amor na resposta do povo escolhido de Deus em sua própria história.

11ª aula – Implicações da esperança escatológica para a Missão

Como vimos, a inclusão das nações na nova aliança é uma das características da escatologia inaugurada em Cristo, assim como a pregação do evangelho aos pobres. Isso já é suficiente para demonstrar o quanto a missão da igreja está ligada à escatologia.

O que torna possível a proclamação do evangelho é o que Cristo fez por sua igreja e o dom do Espírito Santo, que a acompanha. Dessa maneira, a missão da igreja está totalmente relacionada aos eventos escatológicos estudados.

A igreja e sua missão existem justamente por causa do reino de Deus já haver sido inaugurado, mas não plenamente estabelecido, ou seja, é por já gozar das bênçãos do reino e presente, e da garantia do futuro, que a Igreja tem algo a apresentar ao mundo ainda decaído. Ela foi redimida por Cristo, recebeu o perdão dos pecados, tem o dom do Espírito capacitando-a para sua missão e, como garantia de que está a caminho da futura consumação dos séculos, tem a mensagem do Reino.

Por outro lado, a Igreja ainda vive no mundo, o qual permanece no pecado em todas as suas formas. Entretanto não apenas vive nele como uma sub-cultura totalmente alheia, a qual apenas deleita-se em sua posição de “redimida” enquanto espera o juízo para o mundo; mas vive para ele, tem uma missão para ele, a missão de proclamar o reino de Deus, no qual ela já vive e que virá trazendo redenção final e juízo.

A igreja vive com base no amor de Deus, em Cristo, para o mundo. A vivência e a proclamação desse amor é a missão da igreja.

A escatologia na Grande Comissão

Nos textos bíblicos da grande comissão, percebe-se, de maneira especial, a relação da missão com a esperança escatológica.

Em Mateus 28.18-20, Jesus começa seu discurso dizendo que toda autoridade lhe foi dada no céu e na terra, o que indica o cumprimento das figuras escatológicas do Velho Testamento. E depois de entregar aos discípulos a grande comissão, ele promete: “E eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28.20); essa promessa indica o Reino presente e Jesus se fazendo presente nele até a consumação dos séculos. Ele está presente na pessoa do Espírito Santo, cuja presença é cumprimento de profecias do Velho Testamento, e que garante o “já e ainda não”, a esperança escatológica do crente.

No evangelho segundo Marcos (16.14-20), a ênfase está nos sinais que acompanhariam os que crêem. Embora os sinais citados nos textos possam ser considerados controvertidos, necessitando de uma boa exegese para interpretá-los, entende-se, pelo que já foi estudado, que dão continuidade às evidências da presença do reino em Cristo: os milagres e a expulsão dos demônios. Também é interessante que, no v. 20, falando já da pregação do evangelho por parte dos apóstolos, o evangelista afirma que o Senhor cooperava com eles e sua pregação era confirmada com sinais. Tudo isso indica a presença do Senhor com eles para o cumprimento de sua missão.

Em João 20.21-22, também é encontrada a ordem da missão, o consecutivo derramamento do Espírito sobre os discípulos e a conseqüente autoridade para declarar o juízo de Deus sobre os pecados, o que, como visto anteriormente, é também evidência da presença do Reino.

Lucas se refere à grande comissão apenas em Atos 1.6-11. Em seu evangelho ele apenas fala dos discípulos esperando serem revestidos do Espírito. Mas, em Atos 1, livro escrito por esse evangelista, o texto da “grande comissão” está mais ligado ainda à escatologia. Nos versículos 6-7, os discípulos, ainda com sua perspectiva escatológica judaica, perguntam se aquele seria o dia da consumação. Jesus então responde que não competia a eles conhecer o tempo reservado à exclusiva autoridade do Pai e, como que redimensionando suas perspectivas, no v.8 ele diz o que competia a eles: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém comoem toda Judéia e Samaria e até aos confins da terra”.

Também no texto de Atos é interessante notar que, depois que Jesus é elevado às alturas todos ficam com os olhos fitos no céu, e então são informados de que, do mesmo modo como estavam a vê-lo subir, Jesus viria. Esse texto também serve como um alerta para a igreja atual, muitas vezes absorta com os olhos fixos no céu, como se pudesse ter controle sobre o que compete somente a Deus, enquanto sua missão é esquecida na terra. Em Atos 1.11 as palavras dos anjos parecem dizer à igreja: “Não se preocupem com o compete somente a Ele, assim como foi, voltará; enquanto isso vocês têm uma missão a ser cumprida”.

12ª aula – Considerações finais

A escatologia está ligada à intervenção divina na história como um todo, mas é experimentada especificamente pelo seu povo escolhido. Este é o povo que faz parte desse reino inaugurado e que espera por sua consumação. Que foi alcançado pela obra de Cristo na cruz e recebeu o Espírito Santo. E é este povo que será ressuscitado no último dia e que coopera com Deus em sua missão no mundo até o fim. Por isso, o crente deve ter ânimo e conforto em sua vida no Espírito e na certeza que este dá com relação às coisas espirituais e sua salvação.

A esperança, dentro do conceito “já e ainda não”, deve gerar não somente no crente individual, mas na igreja toda, uma prática de vida no Espírito, que é a vida nos valores do Reino, cuja base é o amor de Deus em Cristo e, juntamente com isso, cumprir sua missão. É necessário que ambas fiquem juntas (ética e missão) porque a igreja vive num reino que espera por sua consumação e, enquanto isso, vive nessa perspectiva, apesar das pressões das “coisas antigas”, que ainda andam juntas à Igreja. E, a partir daí, esta prega um reino presente, que realmente é vivido, e antecipa o reino vindouro, de maneira que quem olhe para a Igreja possa ver súditos do reino de Deus e terem uma idéia do reino que vem.

A esperança escatológica não é apenas um anseio por algo melhor, é a certeza do futuro de Deus. Também essa esperança não morre diante das adversidades encontradas no mundo, pois ele sabe que vive numa tensão “entre os tempos” e que, finalmente, porque Jesus triunfou, ele triunfará. Ainda que demore a consumação dos tempos, ele já vive na era escatológica, não tem dúvida de que o reino futuro chegará porque o reino já está presente: já tem a ressurreição de Cristo como primícias da ressurreição dos crentes e já tem o Espírito Santo como garantia desse futuro.

Essa é a grande importância da esperança escatológica para o crente e, de modo geral, para a Igreja, que parece ter perdido o ânimo e até mesmo a motivação em ser agência do reino de Deus e noiva de Cristo. A escatologia deve motivar o crente, e assim a igreja, por tratar tanto de sua vida presente como da futura. Não deve ser um instrumento para incutir medo e insegurança nas pessoas, mas deve ser de ânimo e certeza de que Deus não as abandona. É fundamental observar que, quando Cristo entrega a grande comissão para seus primeiros discípulos, ele promete sua presença e capacitação para o cumprimento da mesma através do Espírito Santo, uma bênção presente com vistas ao futuro: “e eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”(Mt 28.20).

Assim, escatologia tem importância vital para o serviço da Igreja no mundo, de maneira que ela deve crescer na esperança, bem como na fé e no amor, para que seja competente em sua missão e possa estar sempre animada e motivada para cumpri-la, crendo que, no Senhor, o seu trabalho não é vão (1 Co 15.58).

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[1] Não são passagens paralelas, mas ambas se referem à mesma profecia de Isaías.

2 opiniões sobre “A Esperança do Povo de Deus”

  1. ulisses santos disse:

    desejo no meu coraçao, neste domingo proximo, pregar no tema, esperança; lendo este texto, veio abalizar, completar o que eu tinha no coraçao ja alicerçado a respeito do assunto: amor, fe e esperança; muito obrigado, que Deus abençoe a todos, os que se dedicaram pela obra. presbitero ulisses -email- cajazeirasauto@hotmail.com

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